Olhe pela janela. Vê aquela pessoa se escondendo por trás do muro? Olhe para o outro lado da rua. Percebeu o vulto passando por entre os latões de lixo? Pois é. Nós que assistimos a Dragons’ Den, Shark Tank e Four Rooms somos assim, esparsos e furtivos. Trocamos figurinhas sobre os investidores, discutimos as ofertas mais interessantes e esperamos ansiosos por cada novo episódio, sempre em busca de uma nova proposta de negócios.
Spoilers abaixo!
Antes de mais nada, eu sei o que você está pensando: American Inventor. O reality show durou duas temporadas (embora apenas uma tenha sido exibida no Brasil) e foi um fracasso de audiência. Na primeira temporada, o vencedor foi um cara chamado Janusz Liberkowski, inventor de um assento para crianças que simulava um útero. A idéia era ótima, mas completamente impraticável – nenhuma montadora teria coragem de alojar um trambolho daqueles no banco de trás. A segunda edição do programa entregou o milhão para o bombeiro Greg Chavez, cuja invenção – chamada Guardian Angel – tinha o objetivo de apagar os incêndios iniciados em… Árvores de Natal.
Eu costumo dizer que American Inventor sofria do mesmo problema que No Limite sofreu aqui no Brasil. “Péssima edição, candidatos meia-boca e abuso do sertão brasileiro, Lucas?”. Não, caro leitor. O maior problema era mesmo o voto popular. O programa, além de melodramático ao extremo (como o são os reality shows americanos de modo geral), se complicava quando submetia a decisão de quem ganharia um milhão de dólares – dinheiro este desvinculado de qualquer dos jurados – às ligações telefônicas do público dos Estados Unidos.
Mas eis que os produtores da ABC, devidamente apoltronados e passando os canais da TV a cabo um a um… Subitamente se deparam com isso aqui:
Dragons’ Den UK (BBC)
Esse é o Dragons’ Den. Cinco investidores multimilionários recebem empreendedores que oferecem quotas em suas empresas por um valor em dinheiro. Cada um dos investidores ouve atentamente às propostas e faz perguntas sobre o histórico contábil do negócio, o panorama de mercado, a composição societária… Porque no fim das contas, se qualquer Dragon decidir investir, vai tirar o dinheiro do próprio bolso. É claro que tem pelo menos umas duas peneiras de due diligence, uma antes e outra depois das gravações, mas isso não mexe com o instinto dos investidores: se sentirem que alguma coisa está errada, não hesitarão em declarar a temida frase “I’m out”.
Atualmente, o Dragons’ Den está em sua nona temporada. A nova integrante da banca, minha querida Hilary Devey (ela apresentava um programa do Channel 5 chamado The Business Inspector), já começou mostrando a que veio: ela é um misto de doçura, temperamento forte e tino para negócios. O vídeo acima é a primeira parte do primeiro episódio, e hoje à noite a BBC exibe o sexto (o programa é exibido aos domingos e reprisado toda quarta-feira).
Se há uma coisa que eu não posso deixar de mostrar sobre o Dragons’ Den, é a Sharon Wright. Ela fez uma das apresentações de maior sucesso na história do programa, tendo criado a Magnamole, uma vareta com pontas imantadas para passar fios elétricos por entre os buracos das paredes. A empresa dela recebeu investimento de dois Dragons bastante influentes: Duncan Bannatyne e James Caan. A primeira parte do pitch da Sharon está aqui:
A história da Sharon com os Dragons, entretanto, não terminou nada bem. Hoje ela é parte numa ação indenizatória contra um deles, o James Caan (que saiu do programa após a oitava temporada). Ela conta tudo num livro chamado Mother of Invention (ela me mandou uma cópia autografada. Se diz minha fã, imaginem só), com detalhes sobre cláusulas inusitadas no instrumento de compra de quotas, pouquíssimos contatos diretos e transferência parcelada e chorada do dinheiro. A Sharon foi parar num hospício, regressou à bulimia e quase perdeu a filha adolescente.
De modo geral, essa não é a história que os contemplados têm para contar. Mas é importante ressaltar que nem tudo que reluz é ouro, e que o investimento celebrado no programa pode vir com condicionantes inesperadas.
Dragons’ Den CA (CBC)
É impossível falar de Dragons’ Den sem mencionar a sua franquia de maior sucesso, diretamente do Canadá. O programa é um sucesso absoluto no país, tendo recebido o prêmio Gemini (um equivalente do Emmy) em 2011, na categoria de Melhor Reality Show.
Se você conferir os vídeos de Dragons’ Den no YouTube, vai perceber que dois dos investidores de Shark Tank estão na banca – são os milionários Kevin O’Leary e Robert Herjavec. Os dois são excelentes para o programa, cada um à sua maneira: Robert é bem conservador, sempre perguntando o porquê de fulano ter avaliado a própria empresa em tantos mil dólares hoje. Kevin O’Leary é um showman, quase sempre insensível e concentrado no dinheiro acima de qualquer coisa. Os dois discutem com os empresários, discutem um com o outro… É uma graça.
Shark Tank (ABC)
E chegamos à versão americana de Dragons’ Den. Shark Tank é mais ou menos igual ao original britânico, mas com os acréscimos de trilha sonora dramática, edição dramática e histórias dramáticas antes do pitch em si. O negócio ainda é interessante o suficiente, mas o drama me causa um tremendo desconforto.
De uma coisa, contudo, o Shark Tank pode se orgulhar. As propostas e as ofertas debatidas no programa são as maiores de todo o mundo. Na última temporada, tivemos um cara que ofereceu protetores de narinas e recebeu uma oferta de quatro milhões de dólares (por 100% da companhia). Ele não aceitou essa, mas acabou topando uma outra proposta feita em conjunto por Mark Cuban (dono do Dallas Mavericks), Daymond John (CEO da FUBU) e Kevin O’Leary. Recebeu 750 mil dólares por 30% da companhia e por 10% em royalties para os Sharks… Até que a morte os separe. Vale lembrar que o cara chegou pedindo 500 mil por 10%, e é importante destacar que ele não poderia aceitar um deal por menos dinheiro (em termos absolutos) do que pediu. São as regras de Dragons’ Den e do Shark Tank. Se nenhum dos investidores estiver disposto a pagar o mínimo, dizem o bendito “I’m out”.
Um pitch inesquecível de Shark Tank é o de Jonathan Miller, da empresa Element Bars. O jeito como esse rapaz lidou com os investidores foi épico. Manteve a sua posição, soube rebater as críticas que recebeu de cada um e prevaleceu no fim das contas. Por sinal, que site interessante, esse da Element Bars. Não sei se existe alguma coisa parecida no Brasil, mas seria uma mão na roda. A primeira parte do pitch do Jonathan está aqui:
Esses são os principais formatos de Dragons’ Den no mundo. É claro que ainda temos o Dragons’ Den irlandês, o Dragons’ Den online (que também é britânico, mas com dois Dragons apenas e com um limite de propostas que vai até 50 mil libras) e uma dezena de outros. Se você digitar as palavras “Dragons’ Den” no YouTube, verá um monte de vídeos do programa, inclusive alguns em russo, polonês… Sinta-se à vontade para explorar.
And now for something compl… Slightly different.
Four Rooms (Channel 4)
Clique aqui para assistir.
Four Rooms é um pouco diferente de Dragons’ Den e de Shark Tank, mas também envolve ofertas em dinheiro por coisas de valor. Nesse caso, objetos de valor para leiloeiros e comerciantes experientes. A pessoa vem com um objeto qualquer (na primeira temporada, temos desde uma guitarra do Dee Dee Ramone até um pedaço de muro pichado pelo Banksy), apresenta esse objeto para quatro dealers (como são chamados os compradores) e diz o que é, diz como conseguiu, responde a uma ou duas perguntas… E pronto. Em seguida, os dealers retornam para as suas salas e começa o jogo.
A pessoa que está interessada em vender o objeto precisa escolher qual dealer quer ver primeiro (portanto, em que sala quer entrar primeiro). Na sala, o dealer vai lhe fazer uma oferta – e essa oferta pode ser negociada com o dealer, que pode aumentar a proposta ou não. Caso a pessoa não queira aceitar, sai da sala e não pode mais voltar. Depois, tem que escolher que comprador quer ver em seguida, e assim por diante. Pode ser que a pessoa decida vender logo na primeira sala, pode ser que queira vender só na última, pode ser que saia do programa sem aceitar oferta alguma. O duro é quando a pessoa diz “não” para uma oferta, pensando que pode conseguir algo melhor… E não consegue. Daí sai de mãos vazias, cheia de remorso por ter saído da sala em que recebeu a boa oferta.
Um dos momentos mais interessantes do programa é quando um negócio é acertado entre comprador e vendedor. Se a pessoa fizer o negócio na primeira, na segunda ou na terceira sala (portanto, tendo deixado de fora ao menos um comprador), todos os quatro dealers saem das salas e se encontram no hall, onde a apresentadora do programa pergunta – antes de dizer quanto a pessoa recebeu pelo item que queria vender – o valor que o comprador que não foi visitado teria pago pelo item. Quando é menor, tudo bem. Mas e quando é maior? Muito maior? O olhar de “fui roubado” das pessoas é impagável.
Dos quatro dealers dessa primeira temporada, os que mais me chamaram a atenção foram o Gordon Watson (que tem mais de quarenta anos de experiência e é dos mais razoáveis nas negociações) e o Jeff Salmon (chamado pela apresentadora de “maverick dealer”. O Jeff fala português e é um empresário multifacetado. Suas ofertas costumam ser excêntricas, e não raro… Ele propõe que o vendedor tire a sorte num dado, para ver se consegue tirar um bom número e conseguir mais dinheiro).
Vale lembrar que todo tipo de objeto é vendido em Four Rooms. Antiguidades, arte moderna, obras exóticas, animais empalhados, fotografias, miniaturas… Até uma dentadura de ouro, encontrada no fundo do mar africano. Tem de tudo!
Acho que esse último parágrafo sobre Four Rooms mostra a beleza de séries como ela ou como Dragons’ Den. Enquanto na maioria dos reality shows nós temos uma certa dose de constância, de estrutura e padronização… Nesses programas a realidade é outra: cada negócio, cada empreendedor, cada objeto à venda apresenta um tom diferente para os episódios. Nunca se sabe o que vamos ver na semana seguinte, e isso renova o interesse do telespectador em continuar acompanhando as séries.
E você, caro leitor? Já teve a oportunidade de ver algum desses programas? O que achou dos vídeos do post? Comente tudo, não esconda nada.
P.S.: Existe um reality show brasileiro chamado “No Tanque dos Tubarões”, filho bastardo de Shark Tank. Esse programa vive sendo prometido pela RedeTV (me recuso a escrever o ponto de exclamação) e nunca sai da gaveta. Se vier, tomara que fique ao menos aceitável. Por enquanto, vamos assistindo aos formatos consagrados pelo mundo inteiro. E aos que não quiserem, podem voltar a procurar agulhas no palheiro de Fringe.
















