Como errar com paintball?

Não é segredo para ninguém que Community tem como marca registrada seus episódios sobre paintball. Desde o icônico Modern Warfare, e passando pelas paródias A Fistful of Paintballs e For a Few Paintballs More, a série se caracterizou por esses momentos. O motivo? Trazem vinte e poucos minutos de puro humor non-sense recheado de metalinguagem, outra característica da série. O que é a essência da série, ainda que seja capaz de cuidar de seus personagens como poucas outras sitcoms. Assim, mesmo que Modern Espionage seja o ponto alto da temporada, é impossível ignorar Basic RV Repair and Palmistry, que traz o mesmo estilo de humor.

Note que, tanto Basic RV quanto Modern Espionage procuram a todo momento fazer o espectador rir. Community sentia falta de episódios exclusivamente dedicados ao humor. A começar pelo primeiro, que se inicia já tirando sarro de uma situação recorrente na televisão, quando os personagens são atirados em uma situação diferente para depois sermos apresentados a um flashback (o curioso é que, poucos segundos antes de Abed, tive a mesma reação). Mas aqui, ao invés de se entregar ao clichê como uma forma de paródia, a série prefere contar a história de outra maneira, menos expositiva e mais sutil.

Os flashbacks são deixados para Abed, em sua insistente tentativa de se atirar em um e resolver o problema através disso. E se seu esforço, que lembra uma pessoa tentando acordar de um sonho, já remetia a A Origem, sua menção a Christopher Nolan deixa isso bem mais claro. Aliás, a “solução” encontrada por Abed para o problema, em que os humanos do futuro são responsáveis pela resolução do problema é uma referência direta à mais recente obra de Nolan, Interestelar, que é completada com mais uma a O Retorno de Jedi, quando Frankie – e Britta – surgem como hologramas azulados.

Quase tudo em Basic RV é hilários. Seja com Abed quebrando a quarta parede com enorme frequência ou com outros personagens. A agilidade do humor do episódio é digna de aplausos, criando diálogos em sequência concebidos para atrair risadas. Para isso, Dan Guterman, roteirista do episódio, é feliz ao aproveitar as características de bottle episode que a história lhe concebe. Para isso, a química entre os personagens é importantíssima. É verdade que Frankie segue bastante deslocada, mas Elroy já está completamente ambientado. O momento em que admite ter ido defecar para nojo de Annie é particularmente divertido.

Além disso, a dinâmica entre os antigos personagens se mostra incrivelmente afiada. Desde a capacidade de Britta de estragar as coisas (seu Totorola retorna aqui), passando pela maneira controladora de agir de Annie até o fato de Dean continuar comprando coisas compulsivamente na internet e deixando para o Save Greendale Committee para resolver a bagunça. Até mesmo a cena que encerra Basic RV é divertidíssima, mesmo sem envolver nenhum personagem conhecido, referenciando a morte de um garoto vietnamita, vítima de uma pipa gigante.

Mas o grande episódio dessa dupla é mesmo Modern Espionage. É impressionante como Dan Harmon parece se desdobrar para entregar episódios épicos com o tema de paintball. Tudo aqui funciona, desde a cena de abertura, que traz Starburns de volta para contracenar com Todd. Desta vez, Community se inspira em filmes de espionagem para criar sua história, criando um cenário em que as partidas de paintball são proibidas, mas seguem acontecendo no submundo.

É interessante como Modern Espionage busca retomar diversos elementos de seus irmãos. Vemos aqui o retorno da arma dourada de Chang, e uma referência à guerra de clubes que vimos em Modern Warfare, com a cena da compra de munições se passando no “Club Club”. Community tem uma enorme capacidade de se auto-homenagear sem jamais soar piegas ou artificial. A decisão de deixar Frankie de lado também é acertada, já que a natureza da personagem não é compatível com o caos criado pela trama do episódio. Além disso, Harmon tem dificuldades em integrá-la no círculo cômico da série, o que certamente atrapalharia o ritmo de uma história que precisa ser perfeita.

Novamente, é a dinâmica entre os personagens que torna o episódio tão bom. Podemos destacar o pareamento de Britta com Elroy, que torna a burrice da personagem ainda mais hilária. Mas o momento mais divertido do grupo é quando o baile de gala acontece. A começar pelos ridículos fones de ouvido usados por eles. Ou pela desastrada tentativa de Dean de surpreender os alunos. Mas, principalmente, quando o tiroteio começa e Jeff ouve tudo, enquanto faz um discurso argumentando contra exatamente o que está ouvindo naquele momento. Aliás, é impossível não rir da tradição sem sentido imposta por Frankie, que envolve o estouro de diversos balões. Aliás, é interessante que Community não tente transformar o fato de Jeff ter atirado em um deficiente em uma trama que envolvesse Frankie atacando-o. Em um episódio exclusivamente focado em humor, esse tipo de desvio apenas atrapalharia o desenvolvimento da história.

Além disso, se Community é conhecida como a série de paintball e das referências, Modern Espionage é um prato cheio. Seja de maneira mais explícita, como às menções a M. Night Shyamalan e Robert Downey Jr., e o fato de os codinomes do grupo serem todos intérpretes do Batman, ou de forma mais sutil. A primeira que vemos é a primeira regra do Club Club. Depois o episódio se transforma em um festival de referências, chegando ao ponto de homenagear até mesmo Sr. e Sra. Smith. De todas elas, minhas favoritas são a cena do elevador, idêntica a Duro de Matar: A Vingança,  e o momento em que somente Jeff, Dean e Lapari sobram no jogo e acabam atirando uns nos outros, que lembra a cena final de Cães de Aluguel (perdão pelo potencial spoiler, mas o filme tem 23 anos).

Ao vermos Community entregando episódios tão bem construídos como esses, vemos a série elevando sua sexta temporada ao nível de suas primeiras. Se os episódios anteriores já tinham um bom padrão de qualidade, agora podemos dizer, sem sombra de dúvidas, que a série voltou a ser uma das melhores comédias da atualidade.

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