
Foi um episódio normal, o que já significa um ótimo nível de comédia se tratando de Community.
Spoilers Abaixo:
Quando se está na escola a tarefa mais difícil de se realizar é conquistar amizades novas, se enturmar com um grupo ou uma pessoa em especial. Isso porque a escola exige aquela aproximação superficial, o coleguismo, mas amigo mesmo… Difícil conseguir. Da mesma forma quando não estamos falando de uma série familiar, acreditar que certos personagens são amigos pode levar um tempo, ou pode nunca acontecer, ou pode acontecer de imediato. Se alguém ainda duvidava a proximidade do grupo de estudos de “Community”, esse foi o episódio definitivo.
Este sólido episódio da série se parece muito com outro que eu adoro, da segunda temporada, “Cooperative Calligraphy” (aliás, segunda semana seguida que eu falo dele). Ambos examinam à todo vapor a dinâmica do grupo e culminam em embates memoráveis sobre o limite da amizade que os une nas situações mais improváveis. Mas se “Cooperative Calligraphy” falou sobre confiança, “Competitive Ecology” fala sobre popularidade, ou melhor, competição. Claro que Annie seria a melhor opção para se fazer um trabalho seja ele qual for, mas por que Shirley seria a pior? Por que é tão difícil Jeff aceitar que não é o mais querido da turma em todos os aspectos? Por que competição é tão importante para esse grupo?
Acho que a palavra certa para o episódio seria… Desgaste.
Vejamos bem, na divisão de duplas para o trabalho de biologia, de um lado Abed e Troy percebem que ficam tempo demais juntos, do outro Jeff e Annie mais uma vez não chegam a um ponto de conclusão e Britta apenas contempla o fato de Shirley e ela não terem nada em comum, sobrando para Pierce a missão de fazer o trabalho com Todd, mais um pobre infeliz que cruza o caminho do grupo. Todo o jogo de preferências acerca da melhor combinação de duplas foi muito bem bolado, algumas conclusões óbvias (claro que seriam, já que estamos falando de desgaste), mas é sempre bom ver os personagens se atacando pela palavra final. Quem saiu prejudicado no fim foi mesmo Todd, que mesmo tendo a história de vida mais triste dos últimos tempos não foi salvaguardado da chuva de acusações vinda com o já habitual discurso final de Jeff (aquele close final à la Hanna Barbera no rosto dele foi sensacional), comprovando o love among the ruins que provavelmente é o único elemento a sair intacto da série até o seu final.
O que também já estava desgastado era o papel de Chang na série, nem mesmo o cargo novo no campus estava agradando a todos comparando o fenômeno que era o personagem na primeira temporada. Aqui ele ganha mais uma vez uma storyline própria (completamente avulsa à trama principal) na qual Ken Jeong tem a chance de brilhar com suas expressões tentando entender o mistério no maior estilo noir que o cercava – e na verdade não tinha mistério nenhum, mas a trama foi tão boa que isso foi só um detalhe. Agora é torcer para que o personagem passe a interagir mais com o grupo, essa é a característica que mais sinto falta (se bem que apenas com os segundos finais já deu pra perceber que uma dupla Dean e Chang renderia muito).
Outras observações:
– Michael K. Williams… Que desperdício… Será que ele volta?
– Quem é Nick Nolte?
– RIP Veronica. Sem mais.
3×04: Remedial Chaos Theory

Vai uma pizza?
Algumas produções por serem densas demais causam um efeito estranho em seus fãs. “Magnólia”, um filme de 1999 do diretor Paul Thomas Anderson é uma delas: dentro da narrativa existem vários simbolismos com os números 8 e 2, uma referência bíblica que aparece escondida em várias cenas e existe até mesmo uma figura divina circulando pelos personagens, e no final todas essas charadas culminam no sentido por trás da famosa “chuva de sapos”. Hoje em dia quando se pergunta “sobre o que é ‘Magnólia’?” a resposta geralmente é quase lírica, mas na verdade “Magnólia” é simplesmente um filme sobre o perdão. Então hoje, dias após esse maravilhoso episódio de Community, mesmo que todos estejam discutindo teorias e preferências de realidades alternativas (o que é MUITO divertido), qual seria a resposta caso alguém perguntasse “sobre o que é ‘Remedial Chaos Theory?”?
First things first, o episódio é sobre o novo apartamento do Troy e do Abed, e é somente nele que todos os eventos mostrados acontecem (outro bottle episode, NBC agradece). Durante um jogo de dados, um dos sete convidados precisaria descer para buscar a pizza, e a decisão de escolher quem desceria pela probabilidade do dado é o que abriu margem para sete versões diferentes da história (uma a mais porque Jeff pensou que sairia ileso da tarefa distribuindo as seis faces do dado para os outros seis amigos), transformando o episódio em uma verdadeira pizza com sete pedaços diferentes.
O que deixou ‘Remedial Chaos Theory’ mais interessante ao passar do tempo foi o que era realmente esperado desde os primeiros indícios da realidade alternativa na qual Annie vai buscar a pizza, que é desvendar as pequenas pontas deixadas para trás como o cheiro estranho causado por Britta no banheiro, o entregador estranho, o motivo por trás do presente do Pierce, as tortas da Shirley e até a ponta que vem depois com a inclusão de Annie na história, sua recaída romântica com Jeff. Também curiosas foram as abordagens de incidentes recorrentes como Pierce e sua transa com Eartha Kitt (“Heh, you know who got it in the long run? Eartha Kitt, when I nailed her in the airplane bathroom.”), o boneco norueguês, Jeff impedindo Britta de cantar “Roxanne”, etc. As características dos personagens apontadas por Abed no fim do episódio são o que nos guia pelas várias possibilidades de eventos e apenas pelo fato de todos eles estarem conectados como há muito tempo não estavam dizem mais do que qualquer referência já usada.
E se a união dos personagens é o que move o episódio, o indício de que a realidade alternativa em que Jeff vai buscar a pizza é a real diz sobre o que raios é “Remedial Chaos Theory”, que é um tema recorrente na temporada: o bloqueio que o sarcasmo de Jeff impõe para a naturalidade do resto do grupo. De tantas idas e vindas envolvendo presentes, tortas e uma pedra rolante, se Jeff tivesse saído da sala Britta cantaria “Roxanne” e teríamos aquele fim cute no qual todos dançam e cantam longe da figura do personagem. Todas as atitudes hostis entre eles são indiretamente anuladas com a saída de Jeff: Troy não se sente rebaixado pelo próprio Jeff, Pierce não entrega o boneco horrendo para Troy, Shirley não é achincalhada pelas tortinhas, ninguém descobre que Britta está on high e Annie não sofre mais uma desilusão na mão do galanteador. Quando Jeff sai de cena, Abed nem ao menos pergunta o que aconteceria nas outras linhas do tempo, o que confirma que até para o viciado nas teorias sci-fi discutir aquilo nem era mais importante porque mesmo que eles estivessem ou não em universo real, aquele era o universo ideal.
Aaron Sorkin precisa aterrissar nessa série o mais rápido possível.
Outras observações:
– Você quer falar sobre a ordem dos episódios, eu quero falar sobre a ordem dos episódios, todos querem falar sobre a ordem dos episódios. No início do episódio vemos que o apartamento de Troy e Abed é o 303, o que nos remete à técnica usada para ordenar episódios SeasonXEpisode, e como esse é o episódio 3×04, as diversas pontes que interligam esse ‘Remedial Chaos Theory’ ao episódio anterior dá a entender que o que vimos aqui acontece antes do episódio da semana passada. Seria genial, mas é apenas a ordem trocada pela dificuldade solicitada pela narrativa, que levou muito mais tempo que o ‘Competitive Ecology’. Enfim, o Community Things postou evidências que comprovam a teoria acima, mas Dan Harmon já desmentiu.
– Depois dos episódios ‘Interpretive Dance’ e ‘Competitive Wine Tasting’ acredito que Troy e Britta têm química o suficiente para formarem o casal. Mas não vamos falar de casais nessa série, combinado?
– A última cena do episódio remete à realidade alternativa na qual Troy sai para buscar a pizza e tudo se torna um caos sem medidas. Aquilo. é. pura. comédia. Evil Troy ande vil Abed quase roubaram o episódio.














