A partir dos detalhes apresentados na coletiva de imprensa de lançamento da série Colônia, promovida pelo Canal Brasil, em junho de 2021, eu fiquei imaginando como seria a cena de tortura, por meio do eletrochoque, para com a protagonista, a Elisa. O que eu não sabia, na verdade, é que o momento me causaria uma tristeza significativa e espanto, é claro, por tudo o que as vítimas verdadeiras foram acometidas naquele Hospital. 

Todavia, antes de falarmos sobre a sessão de tortura, vamos ao início do sétimo episódio da primeira temporada: ele se inicia na Fazenda Bambuzal, casa dos pais da nossa jovem, Júlio e Antonieta, no interior do estado de São Paulo. Lá, durante o café da manhã, Benito, o funcionário, entrega nas mãos da matriarca uma carta, vinda do Rio de Janeiro, capital, escrita por Osvaldo, irmão de Elisa. Ele, pelo o que deu a entender, está cursando Direito e deseja, imensamente, rever todos os seus familiares. Já Júlio, à medida em que foi ouvindo a leitura empolgada de sua cônjuge, apesar de estar orgulhoso com os estudos do filho, percebe que Antonieta ainda não contou sobre o trágico destino de sua filha para ele e, com isso, o fazendeiro exige que ela resolva isso. Ele não tem dó, muito menos piedade, ou seja, Júlio é a materialização do machismo, do autoritarismo e, principalmente, do patriarcalismo brasileiro, muito evidente no século XX, período em que se passa a história.


Em contrapartida, lá no Colônia, nos deparamos com Elisa deitada na mesa, prestes a passar pela sessão de eletrochoque. Uma cena bárbara: ela gritando, demasiadamente, sofrendo, chorando e, óbvio, recebendo choques intensos nos dois lados de sua cabeça, por meio dos eletrodos que foram conectados. Com a intenção de abafar os seus gritos, eles colocaram um pano em sua boca e ela foi “fritada”, como diria Wanda. Acredito que não foi somente nós, telespectadores, que ficamos arrasados com o ocorrido, não, pessoal. Pelo semblante do Dr. Carlos e da enfermeira Laura, durante a limpeza da sala, deu para perceber – claramente – que eles ficaram decepcionados pelo ato que foram obrigados a cometer para o “bem” e para a “cura” da interna, por exemplo. Enquanto isso, Wanda, Gil e Soraya esperavam ansiosos do lado de fora, mas acabam não recebendo o retorno de Elisa para o convívio social. E, aqui, eu reforço o que eu já disse em reviews passadas: tudo isso ocorreu há 50 anos, ou seja, é uma realidade muito recente, que foi negligenciada e não debatida, mas, graças ao André Ristum (O Outro Lado do Paraíso), e, claro, ao livro base – “Holocausto Brasileiro: 60 Mil Mortos no Maior Hospício do Brasil” (2013), da autora Daniela Arbex (“Todo Dia a Mesma Noite: a História Não Contada da Boate Kiss”) – ela está tendo voz e vez na sociedade. A luta antimanicomial precisa ser refletida e combatida!

Além disso, tivemos a chegada de Ricardo (Samuel de Assis de Cidade Invisível), à procura de Romilda, com o objetivo de encontrar a sua mãe biológica. Tadinho: a secretária o tratou com muito desdém só pelo fato de ele não ter a documentação comprobatória para poder ajudá-lo. Será que ele vai conseguir concretizar o seu desejo? Aliás, quem será a mãe dele, hein?! Embora não tenhamos tais respostas, ainda, podemos ficar mais esperançosos, pois Pedro foi outro personagem que chegou nas redondezas do Hospital, em Barbacena (MG). Antes tarde do que nunca, né, querido?! Muito provavelmente, ele deve ter lido o bilhete/recado deixado por Benito, à mando de Antonieta. Em sua chegada, ele é avisado, em uma espécie de uma pequena venda, que o Hospital Colônia é um local amaldiçoado. E bota maldição nisso, não é mesmo?! Vamos torcer para que ele consiga – de fato – resgatar a sua amada.

Por falar no dito cujo estabelecimento hospitalar, os funcionários tiveram a cara lavada de brindarem, pois a funcionária Aparecida está deixando o cargo de encarregada, afinal, ao que tudo indica, ela se aposentou da enfermagem. Agora, a posição será ocupado por Laura, “muito bem treinada”, segundo a fala do Dr. Freitas. Contudo, mais uma vez, vimos na cara de Laura a sua aversão àquela situação ao receber o molho de chaves de Aparecida: ela não gosta daquele trabalho e, evidentemente, queria estar no local de sua colega: saindo daquele ambiente hostil. Em meio a isso, a fofa da Soraya chama Wanda, em uma primeira vez, para ir ao porão em busca de Elisa, mas a segunda não entende o pedido. Eles – Gil, Raimundo, Wanda e Soraya – pensam que a jovem morreu e, com isso, rezam por sua alma. No entanto, a querida Soraya, que só merece elogios, insiste uma segunda vez, e leva Wanda até o porão do Colônia.

Antes de adentrar na escuridão do local, Wanda combina com Soraya que ela fique de “tocaia” vigiando, enquanto ela vasculha, sendo o bater palma o sinal de aviso caso alguém apareça, já que a segunda – aparentemente – não fala. E sabem aquele ditado que diz que “carro apertado é que anda”? Pois é: ao mesmo tempo em que Wanda conversava com um ratinho, a esperta Soraya estava angustiada por não ter conseguido chamar a sua amiga, já que Ramires estava prestes a aparecer no portão de acesso ao local. Então, ela, de forma surpreendente, não só fala, como, também, grita – a plenos pulmões – por Wanda. Ufa, que alívio! Ambas conseguem despistar o enfermeiro citado, fingindo estarem tirando piolho do cabelo. Essa foi por pouco, hein?! Aliviada, Wanda fica extremamente feliz – e nós, também – pelo fato de Soso – já podemos apelidá-la, carinhosamente, assim, né?! – falou pela primeira vez depois de um tempo em completo silêncio, característica dos internos do Colônia: sem voz, sem vez, sem vida.

Por fim, vemos Elisa deitada no porão, viva, sonhando com o seu cavalo da fazenda… É evidente que ela não iria morrer, afinal de contas, ela é a protagonista e os protagonistas – teoricamente – nunca morrem, exceto os de Grey’s Anatomy (2005-atual), mas ainda bem que é uma grande exceção. Logo, Elisa grita e, dessa forma, Soso e Wanda a ouvem, comprovando que a morte não foi concretizada, amém. Vamos torcer para que ela possa voltar o mais rápido possível para o convívio com os seus amigos, sua única esperança naquele insalubre e tenebroso espaço de tortura.

COLÔNIA DE OBSERVAÇÕES:

p.s.01: Reparei que o Dr. Carlos auto aplicou um remédio em sua veia. Morfina ou calmante, será?! Ele está viciado?; 

p.s.02: Juraci está mancando, andando com o auxílio de uma bengala após ter sido violentado por Elisa, na horta, no episódio antecessor. Deveria ter tido a perna amputada, isso sim! Sei que violência não se resolve com violência, mas eu não tenho um pingo de compaixão para com esse povo agressor. Com os internos, sempre: verdadeiros seres humanos;

p.s.03: Sou leigo nos aspectos da cultura negra, no que diz respeito à ancestralidade, confesso. Contudo, eu acredito – e, por favor, se eu estiver escrevendo besteira, me corrijam nos comentários logo abaixo – que Wanda cantou uma música de sua origem, cheia de emoção e de significados;

p.s.04: Ao questionar o André Ristum sobre uma possível exibição da série na TV Aberta, na Rede Globo, por exemplo, justamente por ela apresentar uma temática tão pertinente e reflexiva, ele me disse que, caso apareça uma proposta no futuro, isso poderia se concretizar, na prática. Vamos torcer para que sim, né?!;

p.s.05: Making of 01: O perfil oficial do Canal Brasil, no Instagram, compartilhou um vídeo mostrando os trabalhos nos bastidores do seriado, na época de sua gravação, em julho de 2019. Naruna Costa (Irmandade), intérprete da enfermeira Laura, por exemplo, destacou que a maioria dos verdadeiros internos eram negros, pois, apesar de ter ocorrido à Abolição da Escravidão no Brasil, por intermédio da assinatura da Lei Áurea, em 1888, o governo não ofereceu estruturas para que os escravos pudessem, de fato, serem inseridos com dignidade na sociedade. Com isso, muitos foram “despachados” para a cidade de Barbacena, em Minas Gerais (MG). Tivemos a participação de outros atores comentando sobre Colônia, pessoal. Não deixem de assistir!;

p.s.06: Making of 02: É muito diferente assistir os bastidores em cores, afinal de contas, assim como Ristum disse – em diversas entrevistas -, não tem como Colônia não ser em preto e branco. Nesse viés, a produtora de conteúdo audiovisual Km 70, por meio da apresentação do repórter Kiko Mollica (Cinejornal), em um vídeo publicado no Instagram oficial da empresa, nos apresenta parte das gravações dessa série tão especial. Na conversa, Augusto Madeira (Ninguém Tá Olhando), intérprete de Juraci, destacou que os enfermeiros, naquela época, não tinham formação acadêmica, muito menos o cuidado com o outro, tendo um comportamento análogo ao de “carcereiros”, no lado negativo de violência, é claro. Já Hélcio Alemão Nagamine (O Escolhido), o diretor de fotografia, contou detalhes da rodagem das cenas, tanto as de dia, quanto as de noite. Está bem interessante: assistam! 

REVISÃO GERAL
Nota:
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colonia-1x07-trevasA cada novo episódio, ‘Colônia’ comprova que a violência manicomial foi triste, desumana e bárbara em todos os seus aspectos. O telespectador fica incomodado, sendo quase impossível não chorar em meio a tantos maus-tratos planejados.