Cloak em Dagger finaliza bem sua primeira temporada, mas precisa acelerar mais seu ritmo se quiser permanecer viva.
Uma verdade inquestionável é que, independente da emissora, séries da Marvel gostam de tomar um bom tempo antes de começar a desenvolver sua trama recorrente. O simples ato de movimentar seus personagens de um ponto A para o ponto B, sentimental e não geográfico, já configura um trabalho longo e que demanda paciência. Com Marvel’s Cloak and Dagger não foi diferente. Na verdade, a primeira temporada da série teen da Casa das Ideias no Freeform foi exatamente como o esperado, aproximando seu ritmo ao de suas irmãs mais velhas, Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage, Punho de Ferro e Justiceiro. Contudo, a série ainda foi além e conseguiu fazer algo que eu honestamente não esperava, a ousadia de brincar com recursos narrativos diferentes para contar a história de Tandy e Tyrone.
Em seu penúltimo episódio, Back Breaker finalmente começa a movimentar seus personagens em direção ao fim do jogo, ou ao mais próximo possível de um fim em uma season finale. Neste caso, ambos os nossos protagonistas terminam em um padrão repetitivo de ações ruins, desta vez potencializadas pela dor e também pela falta de perspectiva. Quando começamos a série tanto Tandy quanto Tyrone encontravam-se em um estado de ausência, da falta de controle e também de esperança. Com o despertar de seus poderes novas oportunidades surgiram, mas o que você é quando finalmente alcança o que queria?
A pergunta levantada é respondida através de atitudes de completa vulnerabilidade. Tyrone, após conseguir finalmente a prisão do homem responsável pela morte de seu irmão, não consegue enxergar na reação de seus pais a recompensa que ele almejava. Após tantos anos se culpando e assumindo que também era culpado, não ser celebrado como o herói de sua história e da redenção de seu irmão mais velho é simplesmente um percalço que Tyrone não consegue visualizar como passível de vitória. É uma barreira que ele não pode transpor, independente de quão longe seus poderes o levem.
Já Tandy, confrontada pela imagem que ela construiu do pai e aquela que testemunhou no sonho de sua mãe, não vê motivo para continuar lutando. Ela então assume uma forma bem mais próxima daquela que a personagem mantinha no começo da série, mas com uma ajuda “sobrenatural”. A “vampira” emocional que antes existia retorna, dessa vez conseguindo se alimentar dos sonhos daqueles que ela escolhe como vítima, quer seja para satisfação ou para uma lição, como ela faz com Mina ao absorver o sonho da então amiga para mostrar para ela como ela se sentia, a tirando do pedestal de felicidade que Tandy não conseguiu encontrar para ela e sua mãe, tão pouco para o “bom nome” de seu pai.
O episódio também fez um ótimo trabalho com O’Reilly, ao colocá-la como uma sobrevivente de uma situação traumática, apenas para, mais uma vez, ser colocada em uma posição de vulnerabilidade e injustiça. Gosto da maneira que Manto e Adaga reforça sua posição como questionadora de rótulos e desafiadora, especialmente em questões como raça e gênero. Contudo, o padre Delgado não conseguiu tanta atenção assim do roteiro e terminou um pouco mal explorado. Sabemos de seu vício com o álcool e que ele causou a morte de algumas crianças, mas após tanto tempo ausente o final termina não compensando tanto quanto o roteiro tentou expor.

Também gosto da maneira que Cloak and Dagger utiliza recursos narrativos diferentes em seus episódios, abusando de ferramentas como sonhos, alucinações e flashbacks, para construir sua história e envolver seus telespectadores na mitologia de Nova Orleans. Apesar de efetivo, contudo, a produção ainda não conseguiu realmente oferecer tudo o que pode ao redor da cidade. Existiu um esforço interessante em Collony Colapse, mas o foco se manteve nos “pares divinos”, apesar de ter esboçado uma história mais abrangente para a mítica figura da cidade inabalável.
Collony Colapse, o último episódio da já renovada Manto e Adaga, é finalmente a realização de uma produção que bebe da fonte de histórias em quadrinhos e tem, em seu núcleo, a origem de um casal de super-heróis. Usar a explosão e a onda de loucura causadas pela Roxxon foi uma ótima maneira de entregar para a vilã da temporada uma ação. E mesmo que não tenhamos conhecido nenhum verdadeiro vilão personificado do lado da empresa corrupta e perigosa, ver seu efeito sobre a cidade, a terceira personagem central de Cloak and Dagger, valeu a pena.
O episódio também brincou com a possibilidade da morte de um dos personagens, mas criou seu próprio twist para o destino do “par divino”. Três receberam a marca no braço, Tandy, Tyrone e O’Reilly. Contudo foi a policial quem morreu, mas não causou a “cura” de Nova Orleans e tão pouco deixou o mundo dos vivos, mas se tornou na anti-heroína conhecida como Mayhem (já provocada nos pôsteres da segunda temporada da série). O recurso, porém, foi bem utilizado e entregou a antecipação necessária para um bom season finale. Claro, ninguém realmente acreditou que Tandy ou Tyrone morreriam, mas não é a morte em si, mas sim a trajetória delimitada até que essa seja possível, assim como as cicatrizes que ela deixa. Por enquanto, porém, nossos heróis estão a salvo.
Com uma temporada de estreia muito competente, apesar do ritmo inconsistente por boa parte da temporada, uma que optou por unir seus personagens tema apenas no sétimo episódio, Manto e Adaga criou sim uma boa entrada no mundo de produções live action da Marvel. Discutindo temas relevantes e com recursos diferentes do o que a Casa das Ideias já fez – não levando em consideração Legião (que é da Fox e agora da Disney também), a produção teve coragem de ousar quando eu nem ao menos estava esperando. O futuro se abre para nossos personagens, com uma amiga se tornando possível inimiga, Tandy finalmente em direção de uma vida mais centrada e Tyrone, completamente longe do seu ponto de partida. Estou ansioso pelo trabalho que os roteiristas farão na próxima temporada e acredito que agora que nossos heróis estão juntos, tudo deverá melhorar consideravelmente daqui para frente.
Ester eggs e outras informações
– Foi possível ver a participação do Stan Lee, mas em forma de quadro. Na casa do homem que Tandy “rouba” no começo do non episódio temos uma arte inspirada em Andy Warhol com o rosto do patriarca da Marvel.
– Mayhem, originalmente Brigid O’Reilly, foi criada em 1983 e teve seu debut em Cloak and Dagger #1. Nas histórias em quadrinhos O’Reilly, também uma detetive, foi morta enquanto investigava a indústria farmacêutica que deu os poderes de Manto e Adaga, por um policial corrupto de sua corporação. Manto a encontrou e a prendeu em sua escuridão enquanto Adaga tentava salvá-la. Dessa tentativa nasceram os poderes de Mayhem, uma espécie de gás verde com poder paralisador.
– Tyrone usou seus poderes para “engolir” o policial que matou seu irmão, um poder que ele já manifestou nos quadrinhos e que transporta suas vítimas para uma dimensão de medo e terror (quem assistiu Agent Carter sabe do que estou falando).
> FEAR THE WALKING DEAD, uma série OUSADA! feat. Alycia Debnam Carey e Colman Domingo!
– Sejamos honestos, o verdadeiro par divino da primeira temporada foi O’Reilly e Tyrone. Sorry Tandy!






















