Sobre a montagem pós-clássica e como ela resetou o cinema.
Essa é a nova coluna de cinema do Série Maníacos e se continuarmos nesse ritmo vão ter de mudar o nome do site pra Maníacos por Tudo ou algo do tipo. A primeira impressão que você vai ter quando bater os olhos nesses textos é de que eles são enormes, mas eu prometo que se você tiver o tempo e a iniciativa de ler até o fim, vai encontrar algumas coisas interessantes e dignas de reflexão. Eu sei alguma coisa ou outra sobre ambos os lados da concepção de um filme, teórico e prático, e vou botar esse pouco que sei aqui. O propósito dessa coluna vai ser expandir a discussão sobre algumas das pequenas particularidades que tornam os filmes-tema grandiosos e relacioná-las com o cinema contemporâneo como um todo.
Para entender mesmo do que eu estou falando, o melhor é começar logo a conversa, então vamos lá.
Os irmãos Dardenne são um par de cineastas absurdamente talentosos que têm produzido grandes filmes desde os anos 90. Juntos eles já levaram duas Palmas de Ouro e a obra-prima sobre a qual vamos falar hoje, O Garoto da Bicicleta, faturou um Grand Prix – dividido com Era uma Vez na Anatólia –. No que respeita às temáticas em que gostam de tocar, elas giram em torno de outsiders: imigrantes, pobres e, no caso, filhos abandonados. Tudo é tecido a partir de um naturalismo tão cru que acaba por ser difícil de distinguir de um documentário – género onde nasceram os diretores –. Dos argumentos à iluminação utilizada, eles prezam o natural.
Com O Garoto da Bicicleta, os irmãos Dardenne alcançam uma sensibilidade ímpar, ao mesmo tempo em que evitam o sentimentalismo. A narrativa segue Cyril, um menino de 12 anos que foi deixado pelo pai num orfanato. Incapaz de aceitar a dura e óbvia verdade por trás da sua miséria, ele busca o pai e a sua bicicleta perdida. O destino do rapaz acaba por se cruzar com o de Samantha, uma cabeleireira simpática o bastante para deixá-lo passar os fins-de-semana em sua casa. O filme traz a relação entre os dois aos holofotes, à medida que Samantha tenta acalmar a raiva e a tristeza que o pequeno Cyril tem no seu coração.

Mas eu não quero concentrar este texto apenas no filme. Posso já adiantar que ele é excelente e se me estender muito, vou estar transformando em teórico algo que é mágico. Quero falar sobre algo que o tornou muito especial, algo que teve tanto impacto quanto o roteiro: o pace do filme e a montagem que o constrói.
A montagem clássica todo mundo já conhece. Não é preciso se aprofundar muito no assunto, pois não é o que importa aqui. Talvez deixemos a escola de montagem soviética para quando falarmos sobre alguma produção… bem, soviética. Entender que nem sempre se soube que cortes invisíveis tornavam a história mais orgânica ou que o espectador compreendia melhor a cena com um plano geral para introduzir o cenário é o bastante. Temos é de perceber de onde veio a montagem pós-clássica e o que ela trouxe de novo – o bom e o ruim –, e porque a montagem de O Garoto da Bicicleta e outros filmes dos Dardenne os tornam tão reais. E para isto, temos de voltar algumas décadas no tempo e analisar a evolução do pacing no cinema.
Refletindo no Tempo (…)
A MTV (do inglês Music Television) surgiu lá no início dos anos 80 e seria ingênuo da sua parte acreditar que o seu impacto se restringiu à televisão. E embora a história dos videoclipes tenha indícios de formação até nos anos 20, foi com o nascimento do canal norteamericano focado primariamente no formato que eles ganharam – ou melhor, dominaram – a atenção pública.
Os videoclipes traziam pequenas histórias desconexas (muitas vezes misturadas com filmagens das performances dos artistas) e que eram concebidas de uma forma não convencional. Conveniências básicas de captação de imagem, como a Regra dos 180º Graus, eram desconsideradas. Pode-se dizer que, no início, era um género de produção bem experimental, pois englobava uma diversidade de estilos artísticos, como por exemplo a animação.
Porém, a principal peculiaridade dos videoclipes, e a que mais influenciou o cinema, era a sua montagem rápida e frenética. Os planos tinham uma duração média baixíssima, e por consequência, os cortes eram muito mais frequentes e velozes. Isto fez com que o formato trouxesse um pace – ritmo ou tempo e a forma como é tecido numa narrativa – único. E o público recebeu bem a ideia.

É preciso lembrar que ao longo do tempo e das gerações, os nossos períodos de concentração (ou attention span, para os familiares com a língua inglesa) têm constantemente diminuído. Os spots publicitários com que somos bombardeados são construídos a partir da lógica de que o consumidor precisa ter o seu interesse conquistado em pouquíssimos segundos (dentro de um limite de menos de 30). Ano passado um estudo científico promovido pela Microsoft chegou à conclusão de que, graças aos smartphones, os nossos períodos de concentração tornaram-se menores do que os de um peixinho-dourado. Desde os anos 2000, este período caiu de 12 para 8 segundos – mas a capacidade de efetuar diversas tarefas ao mesmo tempo melhorou, diga-se de passagem –.
Com estas informações em mente, não é difícil entender porquê a indústria do cinema foi quase que monopolizada por películas fundamentadas no estilo MTV – ou, oficialmente, montagem pós-clássica – de se montar. O espectador comum de hoje sente-se entediado e ultrajado ao ver um filme montado antes desta filosofia surgir, de modo que filmes com pacing habitual para à época sejam vistos como ‘lentos’.
O adjetivo ‘lento’, aliás, tornou-se onipresente no vocabulário de muitos espectadores, bem como os seus sinônimos. Quem nasceu a partir dos anos 80 foi condicionado, desde pequeno, a acreditar que filmes com uma ASL (average shot lenght) acima de 4/6 segundos já resultam numa produção arrastada. Com isso, o padrão cinematográfico contemporâneo foi cimentado em cima de um corte atrás do outro, videoclipes de 2 horas de duração.
Já viram ‘A Paixão de Joana D’Arc’ do Dreyer? É um filmaço que me tocou pra caramba. Tem 1 hora e 50 minutos de duração e foi lançado em 1928. O filme é do estilo mais teatral possível e acaba num piscar de olhos. O plot não é muito vasto e já começa com a prisão da protagonista, então se tivesse sido filmado hoje, além de inferior – talentos como o do Dreyer não se encontram em qualquer esquina –, o pacing da montagem pós-clássica provavelmente teria cortado metade do filme. Daí a gente teria falando que o filme não tem história, igualzinho o pessoal que conseguiu assistir ‘Mad Max: Estrada da Fúria’ e dizer que ‘o filme não tem roteiro’. Não sabia que roteiro era sinônimo de história complexa (ou história, sequer) e muito menos que Mad Max alguma vez foi conhecido pela sua escrita.

Não é como se a montagem pós-clássica não tenha as suas vantagens – como a maior facilidade em contar histórias não-lineares e compostas por múltiplos núcleos –. Você pode achar que é mais prático ter um personagem saindo de um espaço e entrando no outro com um corte para poupar toda a caminhada, e em alguns casos posso concordar com você. A melhor coisa sobre ela é a sua mera existência, que abre espaço para tipos de filmes montados de formas distintas.
Eu não gostaria de viver num mundo em que a gente só tem filme com a montagem dos do Béla Tarr, porque ia faltar variedade. O estilo da montagem, no fundo, não interfere na qualidade da obra ou no talento do cineasta por trás dela. Mas do ponto de vista geral, essa maldita filosofia dos mil cortes está por trás de algumas das piores partes da linguagem cinematográfica de hoje.
Você não precisa ir atrás de filmes ‘de arte’ – outro termo bobo que surgiu com as gerações pós-MTV, como se o cinema tivesse deixado de ser uma arte – para notar isso, os próprios filmes de ação estão servem como evidência. Quando aparece uma sequência de ação que não tenha 30 cortes em 15 segundos de projeção e que te permita ver as coisas se desenrolarem naturalmente, o público age como se tivesse encontrado um diamante numa poça d’água. Pô, a poça só está lá porque o público pediu!

(…) sobre os Sintomas de Hoje.
Para os que ainda têm em mente dúvidas sobre a relevância disso tudo para a excelência de O Garoto da Bicicleta, é fácil entender, se separarmos algumas sequências do filme. Para evitar arruinar a experiência de quem ainda não viu o filme (e que deve ver!), vou mencionar apenas algumas sequências do início.
a. Quando Cyril tenta escapar do orfanato, logo no início do filme, ele falha. Nós acompanhamos toda a sua tentativa, e quando ele parece desistir e na verdade está fingindo para enganar os adultos, o filme nos permite apenas observar por 10 segundos. Depois destes 10 segundos, ele volta a correr. Nós tivemos uma experiência completa: vemos Cyril tentar, falhar, esperar e tentar novamente, exatamente como teria ocorrido se estivéssemos presenciando a cena na vida real. Com a economia dos cortes e a maior duração de cada plano, o blocking – controle da posição e movimento dos atores – torna-se também mais fluído. E só ajuda nós testemunharmos a revolta completa de Cyril: ele começa o filme no telefone tentando falar com o pai, depois briga com o adulto e foge. Temos ainda 8 segundos de Cyril lutando contra os adultos para se livrar e escapar. Não é que a sequência não tenha cortes, é o timing deles que impressiona.
b. O plano que cobre o sono de Cyril tem cerca de 30 segundos. Isto tem dois efeitos: aumenta a nossa percepção aos detalhes (esta é uma das pouquíssimas cenas em que o menino não veste vermelho, pois quando dorme a sua serenidade infantil é visível e o seu ódio perde espaço) e dá mais poder à música (que é um artifício inédito no trabalho dos diretores) e ao silêncio posterior. O timing orgânico do momento permite ao espectador encontrar e processar informação adicional sem a necessidade de diálogos.
c. O plano em que Cyril espera pela resposta no interfone tem, novamente, cerca de 30 segundos, antes mesmo de termos a primeira fala. O rapaz tenta recuperar o fôlego e não há qualquer outra ação em tela durante meio minuto. E ao permitir que isto aconteça, nós entendemos o seu alívio ao ouvir uma voz humana ao fim de tanto tempo e temos uma noção do tamanho do seu desespero por quanto tempo ele está disposto a esperar. O timing te ajuda a entender o que é importante para os personagens e para o mundo em que eles vivem.

As coisas levam o seu tempo fora das telas, elas não aparecem já feitas. Não quero com isso dizer que se um personagem tem de ir do ponto A ao B a pé você deve mostrar a sua caminhada de 43 minutos, mas ajuda ter uma noção de exatamente quão longe é o ponto B para compreendermos o esforço. Os Oito Odiados, por exemplo, foi considerado ‘arrastado’ pelo grande público e em momento algum eu tive qualquer problema com o pace ou a duração do filme. Muito pelo contrário.
O melhor de tudo é que o pace não faz o trabalho todo sozinho, ele é acompanhado por uma série de decisões que tornam O Garoto da Bicicleta um filme mágico e natural ao mesmo tempo, como:
O uso das cores primárias na organização dos cenários e figurinos, que dá um tom fabulesco à esta história que os próprios Dardenne descreveram como uma espécie de conto de fadas. Os dois rapazes que antagonizam Cyril no filme vestem azul, e quando ele está sob a influência de Wesker, deixa de usar a sua característica camiseta vermelha para usar uma camiseta azulada com listras pretas.
O enquadramento dinâmico, que enquadra o que é importante no momento e depois reestrutura o quadro, sem cortar, para incluir ou excluir algo. Por exemplo: quando Samantha e Cyril conversam no orfanato, temos um single da Samantha e depois a câmara move-se para a direita, transformando o Cyril na única pessoa no frame. Isso dá um ar documental ao filme. A única cena em que consigo imaginar uma cobertura mais protocolada é a do carro, mesmo pelo pequeno espaço, e mesmo assim os planos parecem mais orgânicos do que o habitual.
Pra fechar (…)
Seria errado da minha parte afirmar que a montagem pós-clássica é defeituosa por si só, pois o próprio filme dos Dardenne não aplica precisamente uma montagem clássica. Não, ela ainda segue alguns conceitos que surgiram mais tarde. E também não quero passar a impressão de que é raro encontrar hoje um filme que trate o seu pacing da mesma maneira que os Dardenne fazem nos seus filmes, pois é bastante comum no núcleo de cinema independente. Na verdade, é mais improvável encontrar um filme com pace frenético dentro do cinema ‘artístico’ (de novo, que conceito imbecil!) do que o contrário.

Mas o que quero fazer é trazer alguns filmes de que eu gosto bastante e falar sobre o que os torna especiais. Isto não necessariamente quer dizer que estes pontos que os tornam marcantes são únicos dentro do cinema. O cinema ainda hoje é vasto e excelente, e apesar de infelizmente ter se tornado a mais banalizada e deturpada forma de arte – ao ponto de termos redundantes como ‘filme de arte’ nascerem –, é preciso ser muito cínico pra dizer que ele já não presta.
A gente tem um montão de obras-primas dos últimos anos pra falar aqui e O Garoto da Bicicleta é a primeira delas.
Mas e aí, o que você achou do filme?
Enquanto isso, no indecifrável epílogo da mente…
– Sentia falta de botar isso no final dos meus textos, como eu fazia nos flashbacks de Lost.
– As imagens dos textos nunca vão ser aleatórias, vou tentar sempre colocar os meus planos preferidos dos filmes.
– Eu adoraria falar sobre o cinemão clássico aqui. Pô, o que eu não daria pra poder fazer um textão de 10 páginas sobre Vá e Veja ou Aurora, mas infelizmente esses filmes são tidos como nicho. Aliás, digo ‘nicho’ porque não quero reconhecer a existência daquele pessoal que chama de ‘hipster’ ou ‘intelectualoide’ quem vê filmes do gênero, né? Então vou tentar me restringir ao período a partir dos anos 2000, que trouxe vários filmes tão excelentes quanto os que eu citei algumas frases atrás.
– Queria dar um parabéns pro Aaron, que acabou essa semana a primeira temporada do Oscar Maníacos. A cobertura foi ótima e gostei de ver alguém falar sobre uma diversidade tão grande de festivais aqui no Brasil.












