Duas metades muito distintas.

Spoilers Abaixo:

É inegável que a quarta temporada de Chuck não tem a consistência e o nível de qualidade da terceira, até porque essa atingiu a perfeição em seus dezenove episódios, sendo uma das melhores temporadas exibidas na época passada, sem dúvidas. A pressão por audiência e por manter seu nível de excelência acabou fazendo com que os episódios ficassem aquém do potencial da série. Apesar disso, em alguns momentos Chuck conseguiu elevar seu nível e apresentar ao espectador excelentes tramas, quase sempre centradas nos núcleos familiares, extremamente importante na atual era, mostrando que os roteiristas ainda possuem a qualidade de sempre para escrever seus textos. Mas, faltando pouquíssimo tempo para o season finale, Chuck apresenta este Chuck vs. Agent X, que falha ao tentar criar uma atmosfera empolgante, mas consegue ser competente a ponto de preparar o desfecho de seu arco principal.

Preparando-se para sua despedida de solteiro em Vegas, Chuck não tira da cabeça o fato de Ellie ter mentido para ele e continuar trabalhando no computador de seu pai, acreditando que a irmã corre perigo ao fazê-lo. Sarah também compartilha dessa preocupação, mas pede para que o noivo se divirta em sua despedida, que se mostra frustrante no momento em que Chuck, Morgan, Casey, Lester e Jeff descobrem que Devon na verdade planejou a festa em Las Vecas, um parque ecológico em Nevada. Ao mesmo tempo, mercenários contratados por Vivian Volkoff procuram o notebook de Orion e chegam ao parque, colocando os amigos de Chuck em perigo. Descobrem-se então pistas sobre o paradeiro do Agente X, o que leva o Team Bartowski a correr atrás dele.

Nessa temporada temos visto com frequência a divisão do foco dos episódios em duas missões, sempre interligadas intimamente. É uma mudança na estrutura dos roteiros em relação ao que vimos nas três primeiras temporadas, trazendo para o espectador um eficiente ar de novidade. Mas, pela primeira vez, essa tentativa não funcionou como deveria, tornando a primeira metade de Chuck vs. Agent X excessivamente arrastada. Sempre admirei a maneira ágil com que Chuck desenvolve suas histórias, mas dessa vez o roteiro se prende a uma narrativa lenta para contar algo que só serve de introdução para o que vem a seguir. Isso acontece devido ao cuidado que os roteiristas tomam para que a ameaça dos mercenários não divida o centro das atenções com o momento familiar vivido por Chuck.

No entanto, a segunda metade do episódio retoma a fluidez característica da série, ao incluir algo infinitamente mais importante do que os acontecimentos iniciais, entrando mais a fundo no âmbito da trama principal, abordando o sujeito que dá nome ao episódio, o Agent X. Aliás, o dito cujo é um gatilho para os momentos finais da temporada. Nesse ponto o roteiro é perfeito ao informar o espectador apenas o necessário, atiçando a curiosidade do mesmo. O fato de o Agent X ser Volkoff amarra as únicas pontas soltas do roteiro da temporada, que é exatamente a relação entre Orion e o vilão russo (na verdade, inglês), que, apesar de aparentemente inexistente, sempre despertou algumas dúvidas. É importante perceber como os roteiristas tem o cuidado de conferir coesão à história, sem jamais soar como desespero de responsáveis por uma série ameaçada pelo cancelamento.

Se as duas metades do episódio são tão diferentes, um elemento consegue juntá-las de maneira inteligente e irritante. Trata-se da trilha sonora incidental, composta pela música Blow, da Ke$ha. Ao mesmo tempo em que a excessiva repetição da canção causa um certo incômodo no espectador, ela ilustra uma inusitada situação, apoiando-se nas sempre estranhas letras da artista americana. Repare como a música toca nos momentos em que os homens saem para seu momento de extrema diversão, no começo do episódio. Nesse ponto, o episódio manipula o espectador e insere no seu inconsciente exatamente o propósito da música. Depois, prontos para explodir uma casa com uma granada, Blow volta a dar às caras. O motivo? Revelar qual é a verdadeira diversão para Chuck, Casey e Sarah, mostrando que os três nunca conseguirão relaxar com uma vida normal, simplesmente porque isso não é para eles.

Inserido no contexto das histórias, está o lado comédia de Chuck, que dessa vez não funciona como no episódio anterior, mostrando ao espectador muitas tiradas fora de hora, além de um exagero por parte do diretor do episódio na cena em que Devon explica a confusão sobre a despedida de solteiro. O recurso utilizado por ele é anacrônico e enjoativo demais. No entanto, o humor passa muito longe de ser considerado ruim, incluindo alguns momentos especialmente hilários, como a instantânea paixão de Casey pela mãe de Volkoff. Além disso, quando o coronel leva seu alvo predileto para treinar tiro, não há dúvidas que ninguém imaginaria que Bin Laden estaria morto, o que torna a situação de certa forma macabra, mas com um toque inesperado de humor.

Enquanto todas as histórias acontecem, uma personagem em especial aparece de uma maneira especialmente diferente, Ellie. A irmã mais velha de Chuck finalmente toma conhecimento de tudo o que realmente acontece com o irmão, em uma conversa aberta e honesta. Lembro-me de como vi com temor a possibilidade de ela se tornar mais uma espiã da família, mas devo confessar que os roteiristas foram espertos o suficiente para criar uma situação que não se tornasse irritante. A solução é permitir que Ellie e Chuck convivam sem segredos, reconstruindo a família, sem que a garota seja de fato participativa na vida de espião de Chuck. É verdade que os dois ainda descobrirão mais sobre o passado de Volkoff, mas o farão por vontade do pai, o que torna a situação muito diferente. Há tempos sentia falta da união entre os dois, e é esse elemento que os roteiristas tentam trazer de volta com essa investida.

Após discutir todos os pontos de Chuck vs. Agent X, chega a hora de perceber que só faltam mais dois episódios na temporada. E as falas de Casey nos momentos finais do episódio são perfeitas para ilustrar o que está por vir para a série. Se essa quarta temporada envolveu um clima alegre e tranquilo devido ao relacionamento entre Chuck e Sarah e à paz espiritual encontrada por Casey ao se aproximar de sua filha, uma eventual quinta temporada deverá ter uma atmosfera muito mais inquieta e sombria, uma vez que o Team Bartowski pela primeira vez se vê ameaçado de confiar tudo à CIA. Além disso, é impossível que Chuck não se sinta temeroso por se tornar algo parecido com Volkoff. Mesmo que a série seja cancelada os roteiristas mostraram ter criado um cenário em que o season finale poderá servir perfeitamente como series finale. Aliás, é interessantíssima a escolha do nome do episódio final, Chuck vs. The Cliffhanger, claramente uma provocação ao espectador e até aos executivos da Warner e da NBC.

Apresentando um episódio extremamente irregular, Chuck não consegue fazer seu espectador se empolgar com o final da temporada, mas consegue de maneira competente escancarar seus arcos de forma a atiçar a curiosidade. Que venha o season finale.

@GabrielOliveira

Artigo anteriorDesperate Housewives – 7×20: I’ll Swallow Poison
Próximo artigoThe Killing – 1×06: What You Have Left