Bem-vindo à reta final da quarta temporada de Chuck.

Spoilers Abaixo:

Em uma temporada com 24 episódios, é perfeitamente natural que uma série seja obrigada a exibir histórias que não têm conexão com a trama principal da temporada, os chamados fillers. A quantidade de episódios dessa natureza exibidos durante o ano é um dos fatores que podem causar maior irritação no espectador, que muitas vezes se sente enganado ao nunca ser agraciado com alguma evolução na história. Contudo, existem diversas maneiras que os roteiristas podem encontrar para que esses fillers não fiquem perdidos no restante da temporada. Uma delas é produzir o que costumo chamar de um “falso filler”, quando o roteiro estabelece uma ligação, mesmo que mínima, com a trama principal. É isso que Chuck vs. The Muuurder faz, conseguindo divertir seu espectador ao mesmo tempo que cria a ponte para o final de sua temporada.

Após conseguir desarmar uma bomba nuclear com gotas de suco de maçã, Chuck é premiado por Beckman com a liderança do Team Bartowski, passando a chefiar o Projeto Intersect, escolhendo potenciais candidatos para receber o super-computador. Ao escolher seu preferido, logo descobre que esse fora assassinado dentro da base, criando uma investigação em torno do crime. O problema é que logo se descobre que aquele não seria o único assasinato, criando caos dentro da base, colocando a perigo a liderança de Chuck. Enquanto isso, Ellie continua a pesquisa sobre o trabalho de seu pai, preocupando Devon, e Morgan luta para recuperar Big Mike, sequestrado pelos rivais da Large Mart, como forma de vingança por Jeff e Lester terem roubado o porco da loja, Kevin Bacon.

Após o término do episódio anterior, apontei minha preocupação com o futuro da série com a possibilidade de Ellie ser aproveitada no mundo da espionagem. Por enquanto meus temores ainda não se confirmam, embora a última cena do episódio os tenha reacendido. Apesar disso, darei um voto de confiança, principalmente pelo fato de o arco explicar uma das únicas pontas soltas em Chuck, que é exatamente o foco da pesquisa de Steve Bartowski, jamais abordada em nenhum momento. Talvez esse seja o planejamento dos roteiristas para fechar o ciclo da série, uma vez que os riscos de cancelamento crescem a cada semana, motivados pela queda da outrora estável audiência. Se a entrada da última Bartowski nesse mundo continuar a ser abordada dessa maneira, teremos bons momentos. Mas isso não significa que os roteiristas não estejam realmente passando por um período de seca de ideias. O que é crucial para o bom desenvolvimento desse arco é como os responsáveis pela série contornarão esse problema.

Mas o foco principal do episódio não é Ellie e sua mais recente pesquisa. Chuck e seu primeiro contato com a liderança recebem praticamente todo o destaque, e o resultado não poderia ser mais produtivo. Os roteiristas conseguiram que a série fugisse um pouco de sua fórmula sem perder a essência, brincando de série policial por um episódio, mas mantendo o bom humor e as trapalhadas de seu protagonista. Apesar disso, descobrir o assassino jamais rouba a cena, permitindo que Chuck se destaque e prove que o personagem atingiu o ápice de sua evolução, conduzindo a investigação com muita coragem, apesar dos pequenos erros. Além disso, em momento algum a série se leva a sério, sempre investindo no humor característico dessa, que funciona muito bem com a estrutura do episódio ao criar situações divertidas, como a série de planos em que ocorre a seleção dos candidatos.

Aliás, a estrutura de Chuck vs. The Muuurder é uma excelente alternativa encontrada pelos roteiristas para a falta de um arco que mova a série. Com a opurtunidade de criar um episódio que destoe dos demais, Josh Schwartz e Chris Fedak não desenvolvem uma história avulsa, mas mostram para o espectador que é possível produzir uma episódio dessa natureza sem que soe como “mais do mesmo”. É verdade que esse foco não tenha produzido uma trama vistosa, mas é uma excelente base para o já citado desenvolvimento do protagonista.

Quem também recebe grande destaque nesse episódio é Morgan, dessa vez longe de missões de espionagem. É inegável que o núcleo de Buy More tenha perdido grande parte da importância no momento que Chuck passou a fazer parte do corpo da CIA como agente, servindo apenas como alívio cômico em alguns episódios. Aqui, o roteiro se aproveita da dinâmica entre Morgan e Big Mike, que sempre traz cenas divertidas, para traçar uma subtrama dentro da loja, fato que não ocorria há algum tempo. E isso é feita de maneira muito competente, trazendo de volta uma esquecida rivalidade para aliviar os momentos mais tensos ocorridos mais embaixo, dentro da base. Aliás, até nesse tipo de coisa Chuck se utiliza de hipérboles o tempo todo, fazendo com que um sequestro se torne uma coisa extremamente natural e saudável.

Aproveito a análise da trama da Buy More para comentar sobre o parelelo traçado pelos roteiristas entre Chuck e Morgan. Ambos passam por desafios em suas lideranças, e, embora a situação vivida pelo primeiro seja infinitamente mais perigosa que a do amigo, ambos precisam tomar decisões dificeis. Chuck sempre teve a característica de unir as subtramas de seus episódios sob um determinado tema, conferindo maior coesão ao roteiro, que sempre tem a oportunidades de criar esses paralelos, passando para o espectador a mensagem pretendida de maneira mais simples, sem grandes invenções.

Após todas as tramas internas serem encerradas, o roteiro, em seus minutos finais, se estabelece como o “falso filler” a que me referi no começo do texto. Ao ligar os assassinatos ocorridos na base com Vivian Volkoff, Chuck vs. The Muuurder abre o arco que provavelmente encerrará a temporada e inicia a reta final desta, utilizando-se de um caráter puramente introdutório, despertando o interesse de seu espectador justamente pela falta de maiores informações. Há três episódios ficou claro que Vivian seria a nova vilã da temporada ao tentar se vingar de Chuck e da CIA, mas só agora a trama é melhor desenhada, e mostra claramente que a intenção de Vivian é puramente pessoal, o que abre um leque de opções para os roteiristas. Nesse ponto os roteiristas conseguem mostrar que ainda conseguem produzir boas histórias.

Com um episódio que serve de ponte para os momentos finais da temporada, Chuck consegue inovar seu formato sem que o episódio pareça com um de outra produção. Por enquanto, a série mostra que ainda consegue produzir bons episódios. O problema é que a pressão por audiência só aumenta.

@GabrielOliveira

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