Chasing Life, assim como seus personagens, tem medo de se arriscar.
“O que você faria se não tivesse medo?”, pergunta a banda norte-americana Barcelona em Drop Everything, enquanto embala o pedido de casamento de Leo a April. A resposta não vem na música e nem em qualquer outro lugar, afinal, tal pergunta é a típica metáfora de autoajuda, aquelas que você usa para incentivar um amigo a fazer aquilo que a razão, por si só, não autorizaria ou, ao oposto, não se inclinaria a fazer se não fosse aquele fagulho de esperança que nos conforta quando todo o resto se mostra impossível. Medo de perder as pessoas que ama, de perder as coisas que ama, de perder os lugares que ama, medo de se perder por estar com medo, medo de não ter forças para lutar e “perseguir a vida”. Alguns dos nossos medos, frente aos de April, se parecem tão triviais e injustificados (e realmente os são!) que não há como não se pensar o quanto deixamos de ganhar ou viver por pequenos percalços cotidianos, que são um grande nada se comparados às seis semanas de vida que April teria se não enfrentasse uma nova quimioterapia. Então, se até agora, o material promocional de Chasing Life estampava o certeiro “Cancer sucks”, hoje, podemos dizer sem medo e com razão: Cancer son of a bitch (todos os créditos à Emma).

De qualquer medo, digo, modo, April sabe que as possibilidades não são absolutas – até porque se o fossem a percentagem dada pela Dra. Susan para a volta do câncer de April teriam se confirmado – sabe, também, que há inúmeros fatores envolvidos para se alcançar a cura, sobretudo o modo como o paciente encara o diagnóstico e o tratamento, e o principal: ela possui inúmeras pessoas e motivos para lutar e vencer a leucemia. É uma esperança com dois pontos positivos: as pessoas são a razão e sua base para viver. Não importa o que April faria se não tivesse medo, mas sim, e aqui me valho, mais uma vez, de outra música da trilha sonora (brilhante!) de Chasing Life, que sempre acerta o tom sem pieguismos sem sentido, This Woman’s Work da Kate Bush: “Eu sei que você ainda tem muita força sobrando!”. Nós sabemos que tem, April.
Mas vamos, finalmente, aos fatos do último episódio dessa temporada. Primeiro, gostaria de deixar claro que nada me surpreendeu nesta final e escrevo isso por duas razões: primeiro, porque levei duas “spoilerzadas” na cara, uma na semana que se passou e outra há quatro meses e, segundo, e para que não haja dúvidas, nem da parte de vocês e nem da minha (e pensei bastante sobre!), de que mesmo se eu não os tivesse visto o episódio não teria sido nada impactante ou, ao menos, instigante. Quantos aos spoilers, eu sei, eu também li o texto que falaram do assunto aqui no site, e o problema é meu! Mas era o promo da própria ABC Family, e uma promo que se preze não tem o gran finale do episódio nela, apenas instiga o público e o faz querer ver o episódio para que nele tudo seja esclarecido. Ok, admito que Chasing Life nunca foi de ficar deixando a gente de boca aberta por algum acontecimento, alias, ela ganhou seu espaço no meu coração pela leve mistura exata entre drama e comédia, mas, vamos lá pessoal, uma season finale não é qualquer episódio. Quero me emocionar e me surpreender ao mesmo tempo, afinal são longos três meses até o retorno, eles precisam me dar motivos para que eu fique ansioso nesse meio tempo, e não lançar as principais cenas em propagandas por aí. Para terem uma ideia, a promo que chamava o público para a nova temporada, lançada em Dezembro de 2014, exibia pequenos lances de todos os episódios que iriam ser exibidos, inclusive a cena em que April quebra aquela sala a machadadas. Como eu adivinharia? Enfim, vejam a prova do crime:
“Eu sou tão estúpida, pois, realmente, achei que poderia vencer isso.”
“Você quer se casar comigo?”
Sendo assim, partindo-se do pressuposto que, independentemente de todos os indícios que a série dava, eu já estava ciente da volta da leucemia de April e já tinha até visto cenas do momento, tentei enxergar a sua profundidade e captar a representatividade daquilo tudo e, nos dois primeiros parágrafos desta review, tentei expressar o meu ponto de vista. A cena em que April digladia consigo mesma naquele quarto, golpeando as paredes e desabafando com a Dra. Susan foi o ápice de manifestações de seus sentimentos em toda a série, norteado não só pela impecável atuação de Italia Ricci, mas também pela mistura das mais dolorosas sensações que a personagem poderia estar sentido, capitaneadas pelo medo e pela frustração. Tudo se repete, assim como na summer finale, mas agora o câncer é mais agressivo e April terá que lidar com mais uma perda: ela não trabalha mais no Boston Post.
Foi difícil acompanhar a moralidade e personalidade imutáveis de April prevalecerem, mais uma vez. O senso de justiça chega a beirar o absurdo. Não sei como funciona a legislação americana quando o assunto é estabilidade no emprego, mas, aqui no Brasil, o câncer de April não geraria a chamada estabilidade provisória, a qual April ficaria afastada pelo tempo necessário para o tratamento e ao retornar não poderia ser dispensada no prazo de 12 meses. Por quê? Porque a doença de April não é decorrente do trabalho que ela exerce. Mas lá, pelo que Raquel deu a entender, ela tinha um direito que lhe assegurava a permanência no trabalho, independente dos cortes de pessoal efetuados pela empresa, e indisponível, isto é, ela não poderia renunciá-lo em prol do benefício do empregador. A corrupção psicológica feita por Raquel geraria uma indenização certeira aqui no Brasil. Mas, o que realmente me deixou sem palavras, foi ela se abdicar do seu sonho, sobretudo após dar notoriedade nacional ao jornal, visando o bem de Danny, aquele que tentou de todas as formas derrubá-la no episódio passado, porque ele produzia mais matérias que ela e, portanto, traria maiores benefícios para o Post. Um completo festival de incoerências, ainda mais sabendo que April se garante como profissional e jamais iria concordar que Danny poderia contribuir mais e melhor. E agora, o que esperar da nova temporada? Uma nova redação, com novos personagens ou um best seller autobiográfico de April? Veremos.
Eis que April volta para a rotina hospitalar, não sem antes fazer sexo, ou melhor, agendar uma derradeira noite de amor com Leo. Nesses momentos, é notório o crescimento pessoal de ambos os personagens, mas, precipuamente, de Leo. O personagem experimentou uma crescente pessoal, que estacionada em uma imaturidade inconsequente pueril, resvalou em uma depreciativa tentativa de aceitação e autoconhecimento e desembocou em um adulto ciente das suas vontades, seja declarando-se publicamente para April, seja passando um dia no spa com Beth, seja assumindo que o grupo que eles participam fornecem “substitutos de sexo”. Não sei se Leo “é” assim, mas ele “está” assim ou pelos tentando ser assim. Ele tem/tinha aquela mesma inconsequência deliciosa de Natalie, mas permeada por uma insegurança que o deixa menos atrativo ou confiável, talvez por isso ele não me cative tanto. Bom, seja #Lapril ou #Aprilnic (é isso mesmo produção?), April estará bem acompanhada.
Enfim, Chasing Life termina sua primeira temporada com um liame narrativo muito característico: quando não se apoia nos triângulos amorosos dos personagens (aqueles que eu discorri em reviews passadas, lembram?), está fixado no plot principal que é a doença de April. Foi isto, basicamente, na primeira parte da temporada e, agora, se repetiu na segunda. Terminamos a summer season com April no hospital e terminamos a season finale com April no hospital; April escolheu ficar com Leo antes e, agora, de novo. Até George voltou, pessoal! Só que, na primeira vez, tudo era novidade e hoje parece mais uma espécie de déjà vu. Em resumo, a criatividade se mostrou limitada, engessada, pois a série decidiu apostar no que deu certo e se fechou no próprio círculo. Quais caminhos serão seguidos na próxima temporada que não sejam passageiros, mas sim definitivos e mudem o rumo da série? Por ora, não consigo enxergar nenhum. E vocês?
P.S.1: Sou #TeamDominic, confesso! Vejo uma química incrível entre eles, além deles terem uma história totalmente independente da doença de April, e, por isso mesmo, sempre verei a disputa com Leo como uma espécie de concorrência desleal, uma espécie de Friboi x Carnes do Tio Jão.
P.S.2: E as marcas dos catéteres da quimioterapia em April e Leo? Tão simbólico!
P.S.3: April decidiu por “deixar estar” sobre o lance entre Natalie e Dominic. Não concorda nem discorda, só vai deixar acontecer. April, você não tinha outra alternativa! É aceitar para doer menos. Bola pra frente.















