“Cai fora da minha casa”.
Com quantas pessoas você lida diariamente, levando em consideração sua família, amigos e colegas de faculdade ou trabalho? É possível que do nascer do sol até a hora de dormir, o número de pessoas com quem você encontrou e trocou algumas palavras pessoalmente não chegue aos três dígitos, e isso em diversos ambientes diferentes. Em A Casa, o novo Reality Show da TV Record, o desafio de convivência é levado ao extremo. São nada menos que 100 pessoas alocadas em um único espaço e se você está achando pouco, elas foram escolhidas para ocuparem uma casa de 120 m² toda estruturada para receber com todo conforto um total de apenas quatro moradores. Isso mesmo que você leu! 100 pessoas em uma casa onde só cabem 4 criaturas. São quatro camas, quatro toalhas, quatro porções de comida, material de higiene suficiente para quatro pessoas e apenas dois banheiros para ser dividido por 100. Passar por todo esse perrengue pode compensar no final, já que o participante que aguentar os três meses de programa pode conquistar um prêmio de até R$ 1 milhão. Mas não é porque há pouquíssimo espaço até mesmo para dormir que os moradores da casa precisam passar por tanta privação, já que eles têm à disposição uma mercearia onde podem adquirir mais itens de almoço, jantar, material de higiene e até mesmo de mais conforto, como cobertores e pizzas. O único problema é que tudo o que eles consumirem além do que lhes é oferecido pela produção diariamente, é descontado do valor do prêmio final. E é aí que entra a escolha de Sofia a ser tomada coletivamente: é melhor gastar parte do dinheiro garantindo as mínimas condições de necessidades básicas para todos na casa, mesmo sabendo que o valor vai diminuir consideravelmente, ou passar pelos perrengues de fome, frio e limitações na higiene pessoal para que o prêmio permaneça alto, ainda que somente uma pessoa vá sair como vencedor?
A produção do programa faz questão de dificultar essa decisão, colocando valores altos em cada item. Cada kit extra de almoço ou jantar para quatro pessoas, por exemplo, custa R$ 2 mil, enquanto bebidas ou doces saem por R$ 1,5 mil. Até mesmo a água utilizada para banhos e limpezas é cobrada. Se o limite de 440 litros for ultrapassado (uma média de consumo diário de quatro pessoas), cada litro seguinte de água utilizado custa R$ 4,00. O programa é exibido às terças e quintas-feiras, depois das 22h30 – sim, porque a Record ainda mantém um velho hábito de sempre atrasar a programação em alguns minutos. Apresentado por Marcos Mion em sua primeira experiência em um reality desse tipo, o formato de A Casa é uma novidade não só para o público brasileiro, mas praticamente para o mercado internacional. Antes do Brasil, apenas a emissora holandesa RTL 5 exibiu a versão original, denominada Get The Fuck Out Of My House. A Alemanha também prepara a sua edição para ser exibida em breve. Explicadas as regras, é hora de relembrar o que a Record ofereceu aos telespectadores nos dois primeiros episódios de A Casa.
Elenco

Os 100 participantes brasileiros formam um mix interessante de personas e esse é um ponto em que a Record sempre tende a acertar: a escolha de elenco dos seus realities (saudades A Fazenda de Verão). No início ainda sabemos pouco dos participantes, o que é um diferencial importante de outros realities, mesmo os que trabalham com anônimos. No BBB, por exemplo, na semana que segue entre o anúncio dos futuros brothers e o início do programa, já sabemos praticamente tudo sobre a vida e segredos dos confinados. Aqui o máximo que sabemos é o nome e a profissão, além do número que constantemente carregam pendurado no peito e que ajuda o telespectador a identificar seus favoritos e odiados (sim, os dois primeiros episódios já dá motivos para amar e, principalmente, não gostar de alguns participantes).
E tem de tudo: de pescador a empresário, passando por artista circense, dentista, guia turístico, youtuber, cosplayer, advogada, bartender, ex-atriz de Chiquititas que hoje é professora de pilates, ex-ator pornô que hoje se apresenta como massoterapeuta, enfim. No fim das contas, saber pouco dos participantes é um estímulo para que nos concentremos nas personalidades e nos acontecimentos da casa.
E não demora muito para que eles já comecem a revelar como vão se comportar no programa. Na hora de adentrar o recinto, a excitação inicial típica do início de qualquer reality show também se faz presente e a multidão começa a desbravar os espaços da casa num clima de festa. Mas o fato de ter tantas pessoas dividindo o mesmo espaço logo cria tensões e parece servir como catalisador para mal-entendidos, que em cerca de meia hora de convivência já dão lugar às primeiras tretas. Seja porque a cesta de frutas foi toda consumida em minutos por alguns participantes, seja pelo sumiço precoce de um rolo de papel higiênico, que ao que parece é um dos itens mais valiosos e disputados da casa.
Os velhos bons costumes ensinados desde os tempos da pré-escola perdem espaço. A voracidade com a qual os participantes tentam não só conhecer a casa, mas garantir os melhores espaços fazem com que o diálogo perca espaço e as negociações fiquem pra hora do aperto. Sorte de quem conseguiu garantir espaço em uma das quatro camas ou de quem já escondeu uma porção grande do papel higiênico, item responsável pelo primeiro embate da casa. É quando o protagonismo e a liderança de alguns participantes já começam a ficar mais claros. O nº 41, Maurício, já levanta a voz querendo saber quem pegou o papel higiênico, já conquistando a antipatia de algumas das participantes. Enquanto isso, o nº26, Alex Lopes, já assume a cozinha para si, se autointitulado o cozinheiro da casa. Os primeiros comentários entre os participantes já começam a aparecer, mostrando que a junção daquelas 100 personalidades diferentes tem tudo para não dar certo.
O jogo começa

E para tentar botar um mínimo de ordem na bagunça, Marcos Mion é presença constante. Ajudando a explicar os pormenores do programa tanto para os participantes, quanto para o público. O jogo começa quando o apresentador manda cada um dos participantes escolher outros cinco que eles gostariam que chegassem à final. A votação é indispensável para definir os rumos do jogo. O vencedor foi o nº 92, Junior, que foi eleito o primeiro Dono da Casa, enquanto a nº7, Carol, ficou em segundo lugar. A função do escolhido é administrar o dinheiro e os gastos durante a semana, além de ser também aquele que vai escolher um ou mais participantes para abandonar a casa.
Mas a função também tem as suas regalias. O Dono da Casa tem direito a uma suíte onde pode levar até três pessoas para dormir e um banheiro que só ele pode usar. O quarto ainda oferece ao líder uma cesta com alguns poucos alimentos (um cacho de uvas, um prato de queijos, alguns bolinhos, biscoitos e garrafas de chá gelado). Num ímpeto de espírito democrático e ainda movido por um certo clima de animação pelo início do programa, Junior faz questão de anunciar que a comida extra seria dividida entre a casa toda. Mas nem só de festa vive o Dono da Casa. Sem consultar o resto da casa, Junior decide inicialmente por uma gestão extremamente econômica e na primeira compra adquire apenas um kit de higiene, um kit de jantar e três kits de almoço. Lembrem sempre que quase todos os itens da casa são multiplicados para quatro pessoas. Ou seja, um jantar que seria para quatro pessoas, terá que ser dividido entre 100. O valor total da primeira compra foi de R$ 10 mil.
Que comecem os perrengues

A pouca compra de comida não demora a ser refletida no humor e mesmo no bem-estar físico dos participantes. No decorrer do primeiro dia, eles já sentem que os próximos três meses podem ser mais difíceis do que imaginavam. Na hora de dormir, mal há espaço para caminhar, com o chão gelado totalmente ocupado, sem espaço nem mesmo para esticar as pernas. A água para banho e higiene, também limitada começa a demandar alternativas como banhos em dias alternados. O Dono da Casa até então festeiro e brincalhão já começa a fazer uso de uma voz mais autoritária e, até mesmo, ameaçadora. “Quem não conseguir respeitar as normas da casa vai ficar sem banho e sem comida. Não vai respeitar por bem, vai respeitas por mal”, brada Junior.
Com as reais condições de sobrevivência no programa sendo desveladas, a segunda manhã na casa já começa com as duas primeiras desistentes: a nº 15, Gabriele e a nº74, Sarah, além da nº22, Samanha, que toma a mesma decisão horas depois. Para os outros 97 membros que ainda resistem, a votação que elegeu Junior como o Dono da Casa volta a ter importância no fim do episódio piloto, quando é revelado que os 50 menos votados correm o risco de serem eliminados pelo líder. E a repercussão dos resultados já são mote para a desistência de mais alguns participantes, com o nº100, Will e o nº 80, Danilo.
O clima de oba-oba definitivamente terminou e a falta de comida suficiente para suprir as necessidades nutricionais de todos os participantes já traz os primeiros impactos. Na suíte particular, Júnior reitera a decisão de não gastar mais com alimentação, enquanto saboreia um prato de queijos. Isso mesmo, o queijo da cesta presente no quarto do Dono da Casa que no início do programa ele prometeu dividir com a casa toda. E nesse ponto, a edição do programa colabora para vilanizar um dos atuais protagonistas, mostrando diversas vezes um discurso impositivo e até mesmo contraditório de Junior, tratando de forma diferente os mais próximos dele. Um exemplo claro é quando ele proíbe que qualquer alimento seja levado a quem estivesse passando mal, alegando que muitas pessoas estavam apenas fingindo para conseguir mais comida. Isso aconteceu depois que a nº53, Bárbara, ofereceu um pedaço de pão aos nº44, Patrick, enquanto a ajuda médica o socorria, depois de desmaiar de fome. Minutos depois o próprio Júnior oferece alimento para um dos seus amigos, o nº 99, Vini, que também está fragilizado pela subnutrição. A equipe médica, contudo, acaba decidindo pela retirada de Vini do reality, sendo ele a sexta baixa do programa.
Virando o jogo

Depois de tantos perrengues, a produção do programa mostra que a ajuda também pode vir, dando aos participantes a oportunidade de recuperar parte do dinheiro gasto. Em uma prova onde o Dono da Casa escolheu dez pessoas para participar, eles tiveram que criar uma fila com 600 peças de dominó e depois derrubá-las em sequência, tudo isso em até 45 minutos. Caso houvessem perdido a prova, mais R$ 10 mil seriam descontados.
Passada a prova, passadas mais tretas e passadas mais discussões acaloradas, chega o momento da eliminação. Mion anuncia o fim do primeiro ciclo semanal do programa aos participantes, não sem antes dar uma espécie de bronca nos moradores da casa, por conta das questões de convivência. “Eu tô vendo vocês pintarem um quadro de sofrimento. Que se baseia em ‘eu vou tirar do próximo o que eles precisam pra sobreviver pra ele passar mal a ponto de ter que sair da casa e eu ainda chamo ele de fraco’. Quem garante que você não vai ser o próximo? E sinceramente, tô começando a achar que nenhum de vocês vai chegar até lá”, foram as palavras do apresentador. De fato, embora aja entraves como a falta de espaço e de privacidade, muitas das adversidades que os participantes enfrentam são escolhas deles próprios, além da administração do Dono da Casa.
Dada a lição de moral, chega a hora do Dono da Casa sortear quantas pessoas ele deve expulsar do programa. Entre três fichas numeradas com 1, 2 e 3, Júnior puxou da sacola o número 1. E ainda que tivesse passado por conflitos com diversos outros participantes, a eliminada escolhida por ele foi a nº62, Lauriane, sob a justificativa cliché de falta de afinidade, já que ainda não havia notado a presença dela na casa. Antes de ser expulsa, Lauriane devolveu o argumento, afirmando que tinha entrado para um jogo de resistência, e não para um jogo social. “Ele é o tipo de pessoa que o caráter não me agrega, não tinha porque falar com ele”, disse se referindo a Junior.
Com o atual Dono da Casa já salvo da eliminação na semana seguinte (mais uma regalia um tanto desnecessária), os dois primeiros episódios de A Casa já são uma promessa de um programa empolgante durante os seus cerca de 75 minutos de transmissão a cada episódio. Os conflitos entre os participantes tendem a se intensificar, aliados a uma edição ágil e pertinente em dar um contexto geral da situação da casa, mesmo com tantos participantes envolvidos. Por trás da direção, mais uma vez Rodrigo Carelli (também responsável por Power Couple, A Fazenda e a épica Casa dos Artistas) mostra o porquê se tornou uma das principais referências no gênero no país. Até agora, nenhuma das pessoas a quem eu mesmo convenci a dar uma chance ao reality se arrependeram de ter visto os primeiros episódios e isso é muito influenciado pela agilidade na edição e a capacidade da produção em criar situações próprias para o desenrolar de conflitos.
Dentre o público, alguns comentários reclamavam da presença perceptível de cinegrafistas e operadores de boom (aquele microfone gigante) entre os participantes. A aparição desses elementos, contudo ajudam a criar o clima de baderna que inevitavelmente ocorre com a junção de tantas pessoas que não se conhecem em um espaço tão pequeno para elas. Marcos Mion também se mostra um nome acertado para conduzir os trabalhos. Por mais que se note um exagero do entra e sai do apresentador na casa, Mion é um apresentador que não se leva tão a sério e consegue ser uma voz respeitada pelos seus “malucos favoritos”, seja na hora da brincadeira, seja na hora de ser mais enfático. É quase como um irmão mais velho de todos aqueles participantes, embora sua chegada sempre seja celebrada pelos participantes com gritos de “O Papai Chegou”.
Apesar de todos os conselhos dados por Mion, notícias anteriores ao início da exibição de A Casa já davam conta de brigas mais intensas, inclusive com participante ameaçando outros com uma faca. Num jogo onde a convivência é levada aos limites, resta-nos acompanhar quais instintos humanos ainda serão provocados ao longo dos três meses de privações.
Destaques da primeira semana de A Casa:
- Junior (nº 92). Primeiro Dono da Casa, viu sua popularidade ir do alto a baixo enquanto fazia uma administração bem controversa do dinheiro que, até o momento, ainda é coletivo.
- Alex (nº 26). Tomou à frente a cozinha da casa, com uma gestão dos alimentos bastante rígida e controladora, o que também foi motivo para desentendimentos com alguns participantes.
- Maurício Bezerra (nº 41). Primeiro participante a levantar a voz para questionar sobre o sumiço do papel higiênico e a despertar a antipatia de vários outros participantes. Ficou como o responsável pelo creme dental da casa e ainda participou de uma ceninha de DR depois de uma primeira tentativa de relacionamento amoroso da casa com Carol (08).
- Bárbara (nº 53). Levantou a voz contra o desperdício de comida que acabou congelada, além de argumentar com Junior contra a assistência às pessoas que estavam passando mal de fome.
- Ellen (nº 58). Desistiu no terceiro dia, mas não sem antes fazer o Dono da Casa refletir sobre a maneira como estava administrando o dinheiro e os suprimentos. “Pensa mais na alimentação da casa. Não é por mim porque eu já saí. Eu no seu lugar não me sentiria bem. Saber que várias pessoas estão passando mal por causa da minha administração”, disse a Junior.
- Luana (nº 18). A bartender foi uma das figuras mais comentadas depois de se oferecer como a pessoa ideal para administrar os produtos de higiene, já que achava banhos demais desnecessários e não costumava tomar banho.
Pontos positivos de A Casa:
> O Dono da Casa elimina os participantes dizendo uma frase de efeito que promete ficar na memória dos telespectadores. “Cai fora da minha casa” deve se tornar tão impactante como o “Você está demitido” de Roberto Justus em O Aprendiz ou “The tribe has spoken“, de Jeff Probst em Survivor.
Pontos negativos de A Casa:
> O discurso machista e preconceituoso de alguns participantes, depois que Junior sorteou Vini para acompanhá-lo em uma das regalias do Dono da Casa, uma massagem relaxante. Houve quem dissesse na casa que ele deveria ter limitado o sorteio apenas às mulheres.
> A falta de legendas em alguns dos diálogos captados com câmeras abertas deixaram algumas das frases ditas pelos participantes incompreensíveis.
> Minha Série Vs. Sua Série feat. Aline Diniz
No fim das contas, A Casa pode não agradar a faixas de público que evitam o exagero de conflitos e discussões, pois é basicamente nos atritos entre os participantes que o programa se baseia para montar seus episódios. Ainda assim, a nova aposta da Record mostra que o gênero dos reality shows não se esgotou e ainda pode render situações de convivência empolgantes de serem acompanhadas pelo público.













