Cara Gente Branca se utilizou do artificio da metalinguagem para nos apresentar um dos seus episódios mais poderosos desse volume três, ou seja, tivemos em cena boa parte do elenco jogando Máfia (Jogo do Assassino) como uma espécie de recurso que por meio de sua estrutura se utilizou de um discurso hipotético para explicar o seu próprio código. Bem, devo admitir que ter colocado o principal grupo articulador da Winchester jogando Máfia foi uma ideia sofisticada e muito bem construída, afinal, esse é um jogo que recria uma batalha entre uma minoria informada e uma maioria desinformada, com o acréscimo de um moderador, tudo ficou mais interessante ainda.

Recentemente fomos surpreendidos por quatro incríveis episódios da minissérie “Olhos que Condenam”, da Netflix que, em linhas gerais, narrava a história real de cinco garotos afro americanos acusados de terem estuprado uma mulher branca. A minissérie foi visceral, difícil e as vezes até dolorosa de ser vista, causando comoção até nas pessoas mais calejadas pelos embates da vida. O que vimos no show concebido por Ava DuVernay foi doloroso em níveis inexplicáveis, talvez pela forma racista com que a suposta justiça foi feita, talvez pela forma preconceituosa com que a opinião pública, manipulada pela mídia, decidiu que aqueles garotos eram culpados pelo crime hediondo sem ao menos seguir os tramites e ritos normais que a justiça deveria seguir. Um pouco menos recentemente também pudemos assistir The People v. O. J. Simpson: American Crime Story, primeira temporada da antológica série de televisão American Crime Story, da FX, na ocasião, a premiada produção nos apresentou um caso baseado em fatos reais, onde o famoso e influente ex-jogador de futebol O. J. Simpson foi acusado de assassinar a sua esposa, mulher branca, em 1994.

Cara Gente Branca

As duas séries mostram ambas as pontas do novelo de lã dessa intricada cama de gato. A primeira delas, Olhos que condenam, segue a perspectiva da presunção de culpa indefensável de todo homem negro ao ser acusado de assédio ou abuso sexual quando essa acusação parte de uma mulher branca. Já a segunda série, The People v. O. J. Simpson: American Crime Story coloca em xeque as relações de poder exercidas sobre as mulheres em caso de acusações dessa natureza, quando temos como acusado um homem, rico e influente. Se por um lado, no decorrer do episódio, muitos presumiam que Moses era culpado, a priori, por ser um homem negro, por outro lado, muitos sustentavam a hipótese que ele era inocente por ser um rico benemérito influenciador, um homem cuja reputação não deveria ser questionada diante de quaisquer suspeitas.

O que Cara gente Branca nos proporcionou nesse poderoso episódio foi uma profunda incursão através de diversos ângulos de mesmo caso. Se por um lado tínhamos o inflexível Reggie defendendo ferrenhamente o seu ídolo imaculado, colocando a credibilidade de Muffy sob suspeita, tínhamos uma Joelle disposta a defender a moça acima de qualquer relação que ela possuía com Reggie. Mas a coisa ficou mais intensa ainda ao nos deparamos com versões dispares para o caso envolvendo Muffy e o renomado professor,

É bastante curioso observar a reação da comunidade negra por causa de um suposto crime cometido por um homem negro contra uma mulher branca. O fato é que o professor Moses Brown é uma espécie de novo Messias para muitos alunos do campus – principalmente para Reggie e mais meia dúzia de nerds -, no entanto, o capítulo oito de Cara Gente Branca colocou em xeque não só a sua reputação de ambos os envolvidos na alegação, mas a forma como cada personagem acolheu e processou internamente essa informação.

Cara Gente Branca/Muffy e Brooke

Comecemos com Brooke e o seu comportamento frio, calculista e inapropriado diante da ocorrência. Ela perseguiu o confrontou Muffy na lavanderia na tentativa de se apropriar da história real e pessoal da estudante, sem ao menos se dar conta do drama íntimo que a garota estava passando. Fiquei bem revoltada com a forma como ela praticamente exigiu o chamado ‘furo de reportagem” de algo que tinha acontecido em uma esfera intima de uma outra pessoa. Seja a mudança que você procura, foi a resposta que ela recebeu de uma Muffy bem decepcionada e chateada. Mas irritante ainda foi a forma como Brooke se apropriou da suposta notícia e a espalhou entre os seus pares sociais no campus. Não sei quem a autorizou a espalhar e deliberar sobre uma ocorrência que não lhe dizia respeito e, nesse caso, não é não, ponto final! A recusa não deveria ter um outro sentido, principalmente para ela que aspira em se tornar uma jornalista. Igualmente ao professor Moses, caso Muffy tenha recusado as suas investidas, Brooke não aceitou a negativa por parte da estudante. É como se ela tivesse transformado algo não consensual em algo consensual, a partir da sua necessidade egoísta de se locupletar. Ela agiu da mesma forma que um homem abusador age ao receber um não como resposta por parte de uma garota, ela partiu para o ataque. Fique imensamente decepcionada como o comportamento de Brooke e com a forma irresponsável como ela expôs Muffy.

Cara Gente Branca/Reggie e Joelle

Mais decepcionante ainda foi o comportamento apresentado por Reggie nesse capítulo. Joelle sugeriu que o grupo focasse um pouco mais na diversão, propondo que todos jogassem Máfia, como forma de união e descontração.  Reggie foi um dos mais incomodados durante a introdução do jogo, por ter evocado memórias reprimidas dos acontecimentos perturbadores durante a fatídica festa onde ele teve uma arma apontada para si durante uma desastrosa abordagem policial dentro da Universidade. De fato, um dos momentos mais chocantes da primeira temporada de Cara Gente Branca, foi quando vi a mão nervosa e despreparada de um policial branco do campus com uma arma apontada para Reggie. Em seguida, me emocionei com o choro silencioso de Reggie no chão do seu alojamento, acuado, frustrado e devastado diante da covardia do policial. No entanto, na segunda temporada, percebi que nada pode ser modificado até ser enfrentado e que é somente através desses enfrentamentos que uma mudança verdadeira pode ser proposta. Reggie retirou Sam do seu pedestal imaculado de santidade de onde a adorava silenciosamente e a transformou em um ser humano, mortal e falível como os demais, todavia, restou uma vacância nesse local santificado, que nuca foi ocupado por Joelle, sua namorada. Com a chegada de Moses e a sua própria fragilidade, Reggie não pensou duas vezes, idealizou e personificou a perfeição na figura do professor intelectual e bem-sucedido e o colocou nesse local de adoração fervorosa. Isso obliterou a sua visão e obscureceu o seu julgamento, mas não justifica o fato dele ter defendido Moses e ter questionado o caráter de Muffy. Em casos de acusações de estupro, mais comumente do que imaginamos, se coloca em descredito o caráter de uma mulher e o seu próprio julgamento. É muito comum dizer que a mulher ‘poderia’ estar confusa, que ela ‘poderia’ ter se enganado… uma infinidade de suposições que só lançam margem para que o discurso seja favorável ao homem abusador, relegando a mulher agredida, vítima do abuso, o papel de vulgar, fácil, confusa, mentirosa, alpinista social… Infelizmente, Reggie teve essa postura e, pela primeira vez, eu percebi como Joelle merece um outro tipo de namorado, como ele a coloca em um lugar de inseguranças, vulnerabilidades e pequenez.

Cara Gente Branca/Reggie e Joelle

A aspirante a radialista sempre acha que precisa agradar ao rapaz, ela se coloca em uma posição de sempre estar correndo atrás dele, como se ela não fosse o bastante para ele. Quando na verdade, ela é uma mulher incrível. Reggie chegou a dizer que Muffy esteve flertando com Moses desse o primeiro dia, como se isso fosse justificativa plausível para uma possível agressão sexual. Da mesma forma que Al questionou que, apesar da beleza de Muffy, será que Moses arriscaria tudo por causa de um colóquio sexual? Colocando Muffy como mentirosa. Troy, deu a sua opinião, pouco importante, já que se trata de um homem que manteve relações sexuais com uma professora em um momento passado. Mas o peso que ambas as situações têm no contexto global é bem distinto, já que Troy é homem e Muffy mulher. Essa conversa que Muffy mudou a sua versão é muito parecida com a história de muitas mulheres que acabam retirando a queixa de agressão sexual por conta de intimidação ou das relações de poder exercidas pelos seus agressores.

Ainda sobre Reggie, foi impressionante a forma como Coco o confrontou, deixando claro que não é não! Como Reggie foi capaz de ousar e fazer esse tipo de pergunta a Coco? Como ele foi capaz de sentar-se em frente a Moses, olhá-lo nos olhos e aceitar a sua versão de que foi seduzido por uma aluna, que a recusou, mas que a brancura que não dá trégua poderia impactar no lançamento do seu aplicativo. Moses reduziu toda a história de agressão sexual ao simples fato de que a sua imagem não poderia ser comprometida as vésperas dele lançar um importante aplicativo. Inacreditável!!! Ele poderia estar lançando o aplicativo que iria salvar o mundo do apocalipse, mesmo assim, em caso de assédio ou agressão sexual, ele teria que ser investigado e sofrer os rigores da lei. Mas a pergunta formulada por Joelle fala muito sobre esse assunto: “Porque os homens negros são tão rápidos em defender uns aos outros?”. Argumento que Reggie rebateu usando o princípio dos pontos cegos culturais, caso hipoteticamente Joelle fosse assediada no campus (coisa muito provável de acontecer), será que Muffy, ou qualquer outra mulher branca a defenderia? Claro que Reggie usou um estudo psicológico para comprovar que raça se sobrepõe a gênero quando se trata de sentir empatia dentro do universo feminino em caso de agressão sexual. Achei bem covarde da parte dele usar esse tipo de argumento, porque mais uma vez ele tentou deslegitimar a agressão sofrida por Muffy, ao centrar a sua discussão ao redor da raça, tentando subverter o ponto de vista de Joelle, trazendo-a para a perspectiva de que mesmo que Muffy estivesse dizendo a verdade, a radialista não deveria sentir compaixão ou responsabilidade por ela, por se tratar de uma garota branca.

Cara Gente Branca/Coco e Muffy

Ainda tivemos, no âmbito da brincadeira coletiva, embates bem distintos, como o fato de Coco ter sido a primeira assassinada hipoteticamente no jogo e a descoberta de que todos teriam algum motivo para matá-la. É impressionante o fato de que em todos os supostos assassinatos propostos, Sam sempre foi a primeira opção para ter cometido os crimes. Mesmo quando a vítima do momento foi Reggie. Até mesmo Clifton/Erich Lane sugeriu o nome de Sam como provável culpada, fazendo Joelle sussurrar que a amiga é muito boa em se esquivar das culpas. Creio que em uma futura temporada, caso a Dona Netflix não cancele esse show, Joelle e Sam ainda terão que acertar os ponteiros do seu relógio da amizade. Tanto é que as duas foram executadas no jogo, após uma votação promovida por Kelsey, nova moderadora da brincadeira coletiva. Troy colocou Lionel como o assassino do jogo, Clifton lançou o véu da dúvida sobre Al, levantando o debate sobre a dúvida identitária que atormenta o estudante de Psicologia, já que nos Estados Unidos ele é considerado negro, apesar de sua origem latina, Creio que Al terá que abraçar as suas origens em algum momento dessa temporada, única forma dele reconhecer e se apaziguar com a sua ancestralidade. Outra que está andando nas pontas dos pés é Kelsey, desde a forma estranha com que o seu iniciante relacionamento com Brooke finalizou.

O episódio teve alguns cortes de cenas e algumas sequências muito bem elaboradas, como a cena na lavanderia e a cena no dormitório de Joelle. Ambas apresentaram um jogo de câmera bem complexo, apesar da agilidade das cenas. Sem contar com a riqueza na iluminação e na trilha sonora. Outro aspecto muito interessante foi o fato de Coco ter conseguido almejar o seu objetivo, atingir a marca de principal aluna do intransigente Professor Queensfield, mas ao perder a recomendação dele, algo ficou muito claro para ela, não basta usar os critérios étnico raciais ou de gênero como marcas a serem deixadas na história, muitas vezes, é necessário usar um plano mais elaborado quando não se tem o subterfugio do privilegio de nascença, como a lembrou o seu ficante. Coco as vezes, apesar do seu caráter questionável, consegue representar a voz do espectador em várias dimensões, digo isso, porque na sequência final ela provou o ponto defendido por Joelle, que independente das questões étnico raciais, é possível existir empatia a partir do gênero. Ela demonstrou muita compaixão diante da situação de Muffy, consolando-a, mantendo o seu segredo e estando ao lado da garota, até acho que, apesar das diferenças, Muffy teria feito o mesmo se o fato tivesse ocorrido com Coco.

Com apenas mais dois episódios para concluir a sua trama nesse volume três, Cara Gente Branca, apresenta uma abordagem diversa sem perder o foco narrativo e a sua essência. O capítulo oito foi corajoso e maduro ao abordar temas tão complexos como assédio e agressão sexual, abuso de poder, questões étnico-raciais e de gênero, machismo, liberdade de imprensa, ancestralidade, ponto cego cultural e pertencimento.

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Conhecendo mais da Universidade Winchester e outros pontos do episódio:

Misty Copeland – é uma dançarina de balé americana do American Ballet Theatre, uma das três principais companhias de balé clássico dos Estados Unidos. Em 30 de junho de 2015, Copeland tornou-se a primeira mulher afro-americana a ser promovida a dançarina principal nos 75 anos de história da ABT.

Jogo da Máfia – também conhecido por vários outros nomes, como Jogo do Detetive, Jogo do Assasino, Killer Detective, Wink Assassin, Murder Wink ou Murder in the Dark, Lonely Ghost, Killer Killer, Lupus in Fabula. Ele é um jogo de salão onde um jogador secretamente selecionado é capaz de “matar” os outros, piscando para eles, enquanto os jogadores sobreviventes tentam identificar o assassino.

Abuso sexual e Estupro nas Universidades Americanas – Essa questão é tão séria nos Estados Unidos (no Brasil também), que o governo americano em 2014 tornou o assunto uma questão governamental. Para lidar com o problema, o governo montou um grupo de trabalho que, após meses de investigação, apresentou um relatório com o objetivo de fornecer às universidades ferramentas para combater os abusos sexuais. As medidas incluem realizar pesquisas para determinar locais de incidência nos campus das universidades e também ajuda a prevenir o problema e enfrentá-lo quando acontecer.

REVISÃO GERAL
Nota:
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