Cara Gente Branca não poupou esforças para emplacar a sua dupla premissa, a primeira ambientada nos desejos carnais – Lionel em busca do seu deep end; Sam no seu sexo rápido com Gabe e Joelle em busca de trocas afetivas com um Reggie fluido e escorregadio -, a segunda premissa focou na decepção instantânea para aqueles que idealizam os seus ídolos vivos – a decepção de Sam ao conhecer pessoalmente a cineasta Cynthia Fray/Laverne Cox ficou patente e estampada em seu rosto; a frustração de Coco e Brooke ao perceberem que Moses Brown/ Blair Underwood pode não ser exatamente o que todo mundo pensa que ele é; a furiosa decepção de Kelsey por não encontrar em Brooke a pessoa idealizada por ela para a sua afetividade, enfim, foram muitas decepções originadas na idealização do ídolo perfeito para ser cultuado.

No sétimo capítulo de Cara Gente Branca vimos muito coisa acontecendo ao mesmo tempo, porém, nada se compara a experiência escatológica da introdução de Lionel na festa gay “deep end” no porão da casa da fraternidade. Olha, confesso que fiquei bem preocupada por ver Lionel mais uma vez tentando provar e validar a sua sexualidade. É como se ele tivesse que ser sempre aceito em um clube restrito para que a sua sexualidade seja normatizada e aceita pelos demais. Quando na verdade, tudo que o aspirante a escritor quer é encontrar alguém para uma boa conversa e um bom relacionamento.
A festa esquisita, que mais lembrava uma orgia, não era o que Lionel esperava ou precisava, mas serviu para ajudar o rapaz a se encontrar um pouco mais e para conhecer Michael/Wade F. Wilson, olhos castanhos, aparentemente, uma pessoa que também não pretende atender as expectativas que outras pessoas criaram sobre ele sendo um homem pertencente a uma comunidade gay. É realmente muito complicado quando dentro de uma comunidade especifica as pessoas acabam setorizando, compartimentando e delimitando as aspirações comportamentais dos outros. Lionel, não é somente um rapaz gay, ele é um rapaz gay, ele é jovem, negro, inexperiente e com anseios monogâmicos. Por conta das suas determinações pessoais ele sempre parece um novato dentro de um mundo repleto de pequenas artimanhas inatingíveis para quem não possui uma senha ou uma credencial VIP.

Em um dos seus diversos artigos na internet, Renan Quinalha, Advogado e ativista dos Direitos Humanos, faz uma análise lúcida sobre essa mudança de perspectiva acerca do relacionamento romântico diante dessas novas formas de amar:
“Para o bem e para o mal, a depender da perspectiva, aquele amor romântico da geração dos nossos avós entrou em extinção. Relações monogâmicas e exclusivas vão dando lugar a relacionamentos abertos ou poliamorosos. Aplicativos possibilitam encontros para todos os tipos de finalidades de modo cada vez mais objetivo e direto. A intensidade das interações parece perder em profundidade para ganhar em amplitude, com trocas cada vez mais fortuitas e menos duradouras. Até aí, ninguém deveria ter saudade mesmo do amor romântico dos avós, quando a liberdade individual e a escolha pessoal eram suprimidas por convivências familiares ou imposições externas das quais era impossível de escapar, com uniões que deveriam durar eternamente. No caso dos homossexuais, proliferaram os aplicativos de pegação, substituindo, em grande escala, as outras formas mais tradicionais de sociabilidade e de interação dentro dessa comunidade.”
Quinalha conclui o seu pensamento, após uma longa exposição de motivos, conclamando às pessoas a auto aceitação:
“(…) Você pode e deve se aceitar. Mais do que apenas reproduzir a postura dos que não te aceitam, você deve é lutar para que aceitem. E, para isso, é preciso cara no sol, empatia com seus pares e celebração da memória dos que lutaram para chegarmos até aqui, sem reproduzir os valores machistas e homofóbicos que também te afetam.”
Lionel, para além de referenciais saudáveis, precisa se aceitar e se permitir. Aceitar que seu atual grupo de pertencimento cultua uma vibe diferente da sua, admitir em voz alta que ele é gay, mas não precisa acolher as imposições dos outros como uma cartilha de conduta para a sua própria vida. Gosto bastante de Lionel, por reconhecer nele características muito humanas, de alguém que, como uma flor, desabrocha um pouquinho a cada novo dia. Espero que ele se permita encontrar um amor que lhe aqueça o coração, que beba chocolate quente com ele nas noites frias e que o abrace como ele é, ternamente após o alvoroço de um dia cansativo.

Gabe também precisa aprender a aceitar a sua nova condição, caso contrário, vai se arrepender por ter preenchido o formulário de subsídio se utilizando do ínfimo percentual indígena no seu sangue. Não é como se ele estive mentindo, no entanto, ele está se utilizando de uma ancestralidade nunca reivindicada para usufruir de benefícios financeiros. Há algo de desonesto nisso tudo, já que ele sempre pertenceu a camada privilegiada da sociedade e após meia hora de falência financeira ele optou pelo falso pertencimento em uma sociedade nativa americana que ele sempre ignorou. Creio que Sam não vai gostar muito dessa decisão de Gabe, mas as consequências serão oriundas das ações dele.
Creio que a reação de Sam não será das melhores, levando em consideração o nível de decepção extrema que ela teve ao visitar Cynthia Fray, uma mulher fria, distante e superficial. Bem diferente do que ela idealizava. Sei que Sam não sabe ao certo o que está fazendo com o seu documentário, mas ela esperava que a renomada cineasta fosse mais intuitiva e lhe desse algum tipo de conselho válido. Mas isso não rolou!!! Outro fato estranho foi a conversa que Sam teve com Reggie, quase me lembrei da época em que o rapaz era extremamente apaixonado pela aspirante a cineasta. Caso se confirmem as suspeitas que recaem sobre Moses, sinto que Reggie vai ter uma grande decepção. A conversa entre Sam e Jerry foi muito esclarecedora e serviu de gatilho para que a estudante tivesse uma ideia que eu já havia ventilado em um texto anterior: está tudo conectado!!!
Dentro dessa perspectiva de decepções e expectativas, Brooke ouviu uma conversa entre Coco e Muffy, sobre um suposto abuso cometido por Moses, da mesma forma que vi os olhos de Sam brilhando ao revelar a Lionel que descobriu que Chester é o seu alter ego, vi o lampejo curioso espargindo dos olhos de Brooke. Creio que a estudante de jornalismo não vai ter a devida paciência para apurar os fatos e talvez acabe caindo no conto da fake news, se atolando ainda mais em descredito. Aliás, adorei a quebra de quarta parede de Brooke no finalzinho do episódio, olhando diretamente para câmera e para nós.
Faltando apenas três capítulos para o final do seu terceiro volume, Cara Gente Branca aposta todas as suas cartas na falibilidade do ser humano, que o arrasta para fundo do poço, fazendo-o chafurdar em águas turvas e enlameadas, mas ao mesmo tempo o projeta para a superfície mais plana e próspera que se pode desejar.
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Conhecendo mais da Universidade Winchester e outros pontos do episódio:
Vanjie, também conhecida como Miss Vanjie ou simplesmente Vanjie, é o nome artístico de José Cancel, um artista norte-americano conhecido por competir na décima temporada do RuPaul’s Drag Race.
Laverne Cox é mais conhecida pela personagem Sophia Burset, na série Orange Is the New Black, que lhe rendeu uma indicação ao Emmy Awards na categoria Melhor atriz convidada numa série de comédia. Laverne se tornou a primeira transexual a ser indicada a essa categoria.
Robert Mapplethorpe foi um fotógrafo estadunidense, conhecido pela sensibilidade no tratamento de temas controversos e no uso do preto e branco na fotografia, especialmente no uso do nu artístico como tema principal do seu trabalho.
Nyota Uhura é uma personagem principal da série americana de ficção científica Star Trek e dos seis primeiros longas-metragens de Star Trek para o cinema, interpretada pela atriz Nichelle Nichols, primeira atriz negra a protagonizar um beijo interracial com o seu colega de cena William Shatner. A atriz Julienne Irons também interpretou a tenente Nyota Uhura em Star Trek Phase II. No ano de 2009, a atriz Zoë Saldaña assumiu o manto na fase liderada por J.J. Abrams.





















