Viver em sociedade não é uma tarefa fácil. As normas e pressões sociais, além da competição árdua pelo tão prezado “lugar ao sol”, tornam o que chamamos de convívio social numa batalha interminável pelo destaque interpessoal. Procuramos a todo tempo ser diferentes dos outros, mas ironicamente quando achamos alguém que se encaixa em tal característica, nós rechaçamos e os condenamos ao ostracismo e a zombaria. Capitão Fantástico (Captain Fantastic, 2016) é uma fabula que brinca com essa diferenciação social, ao mesmo tempo que apresenta uma narrativa de amadurecimento e aceitação.

Feliz dia de Noam Chomsky em Capitão Fantástico

Ben Cash (Viggo Mortensen) vive fora da sociedade, isolado numa cabana nas florestas do estado de Washington junto com seus seis filhos – Bodevan (George MacKay), Kielyr (Samantha Isler), Vespyr (Annalise Basso), Rellian (Nicholas Hamilton), Zaja (Shree Crooks) e Nai (Charlie Shotwell) – educando as crianças com um misto de socialismo e sobrevivência. Quando a mãe dos garotos, que sofre de transtorno bipolar, se suicida, Ben terá de voltar a sociedade que tanto abomina, enfrentando dilemas que colocarão sua conduta paterna em conflito.

Capitão Fantástico
Capitão Fantástico

A obra de Matt Ross, que escreve e dirige, trabalha muito bem o contexto utópico de viver fora da sociedade, misturando os conceitos do “bom selvagem” de Rousseau e o da “normalização” de Foucault, sem soar elitista e pedante, mas sim tocante e preciso. Com uma crítica a sociedade capitalista, principalmente a americana, o filme cria um panorama daqueles poucos que não se encaixam no processo, naqueles poucos que ousam ir contra a corrente dos pensamentos pasteurizados e regurgitados pela mídia de massa. O que acaba sendo um prato cheio para Mortensen deitar e rolar numa das melhores atuações de sua carreira, com um pai meio hippie, desafiador das normas, que comemora o nascimento de Noam Chomsky como se fosse o Natal, presenteia seus filhos com armas brancas e os faz escalar uma montanha em meio a uma chuva torrencial. Pode soar totalmente bizarro, mas ele consegue passar tanta humanidade e camadas de interpretação que torna o personagem mais que real, o torna crível. As crianças também dão um show à parte, cada uma passando pelo processo de luto e de amadurecimento de seu modo, com destaque para MacKay e os menores Crooks e Shotwell. Kathryn Hahn, Steve Zahn, Frank Langella e Ann Dowd completam o estrelado elenco coadjuvante e quando em conjunto com Viggo, entregam sequências de puro entretenimento de qualidade. As gravações in loco nas florestas e desfiladeiros do estado americano, belamente fotografadas por Stephane Fontaine e a trilha sonora de Alex Somers contribuem ainda mais para o clima construído pela película.

Capitão Fantástico mistura comédia e drama de maneira fantástica, com o perdão do trocadilho. Num conto de crescimento e de choque de culturas, o resultado final é um filme que demonstra que a aceitação do diferente é um processo inexorável, mas que não modifica nossas crenças mais profundas nem nossa visão de mundo ao ponto de descaracterizar nossa criação primária, ao contrário só adiciona ainda mais conhecimento ao caldeirão cultural. É uma batalha de filosofias em que o espectador é o vencedor, ao enriquecer seu acervo de pensamento e expandir suas noções do que é ou não aceitável socialmente. Um dos melhores filmes do ano, com certeza.

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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