Mesmo com uma temporada recheada de apostas (boas ou nem tanto) em convidados especiais e maior desenvolvimento de personagens secundários, a finale da segunda temporada se concentra no que faz Broad City ser a série que é: a amizade entre Ilana e Abbi.

Assim como diversos outros episódios dessa temporada, o finale ecoa e evoca o último episódio da primeira temporada. Em St. Mark’s, é a vez de Ilana comemorar o seu aniversário: mesmo não tendo direito a um jantar elegante em um restaurante caro ou a uma crise alérgica dramática, toda a comemoração é muito divertida. Grande parte do episódio consiste em apenas acompanharmos as duas amigas conversando, sobre tudo e qualquer coisa, por uma versão meio realidade alternativa de Nova York, na região da rua St. Mark’s Place. A caracterização do local se distancia muito do que achamos nos comentários que descrevem a região na internet e podemos perceber mais uma vez o preciosismo da série em estabelecer um background recheado de detalhes incríveis: da linda moça fazendo xixi no meio da rua à mulher que pega a comida que acabou de derrubar no chão e continua comendo. E aqui cabe os parabéns ao roteiro que nos deixou ter um gostinho a mais da vida desses passantes quando Ilana se envolve na dramática ligação de um estranho e realizou a minha vontade de saber mais sobre os figurantes tão intrigantes da série.

Para comemorar o 23º aniversário da amiga, Abbi planeja uma noite especial para Ilana – vinho e presente escolhidos para a ocasião e uma reserva sob o nome Lil’ Wayne em um restaurante de comida chinesa – só para ter seus planos frustrados. Ao terem que sair do restaurante mesmo antes de comer para evitar aquele tipo de casal intenso (que todo mundo já quis evitar), um rapaz de rua rouba o presente de Ilana e leva as garotas por uma cena de perseguição que acaba (surpreendentemente) em uma brownstone super charmosa. Descobrimos que o “rapaz de rua” é Timothy (mais um veterano de The Wire, Leo Fitzpatrick), um homem de 34 anos, que mais parece um garotinho mimado e ainda vive na casa dos pais ricos, e acompanhamos a sequência constrangedora de confronto entre ele e sua mãe rica cliché (ou seja, inteligente e linda, mas viciada em vinho e remédios), incrivelmente interpretada pela incrível Patricia Clarkson. “Do you think I like this? My only son, having to lie to my friends about what my son does with his loser, loser, loser, loser, loser, loser, loser, loser, loser life. Loser, loser.” – um dos pontos altos do episódio, com certeza.

Depois de toda essa aventura, Ilana e Abbi acabam jantando no chão de uma pizzaria meia boca, aproveitando o presente da aniversariante – que não poderia ser mais Ilanesco: um edredom branco, com a estampa de um homem negro, pelado, deitado de bruços – e conversando sobre os feitos do passado (coisas do tipo “I finally masturbated above the covers, without my eyes being closed. That was a really big… journal entry”) e os objetivos para o futuro (ou coisas do tipo “I wanna see a mangina from behind, I haven’t seen it in years”). Essa cena transpira um companheirismo tão natural que nem parece ser roteirizado, o que provavelmente vem da relação real das atrizes, e marca o retrato da amizade entre duas mulheres um tanto quanto inovador. Sem se basear em rixas, sem se envolver em brigas, sem apostar na histeria, Abbi e Ilana têm um relacionamento que foge dos clichés dos personagens femininos, se aceitando, se apoiando e se encorajando. E como é justamente a relação das duas a essência da série, Broad City configura como um tipo raro de comédia da positividade, assim como Parks & Recreation. Não que a gente também não ame a falta de escrúpulos e o egoísmo de Selina Meyer, em Veep, por exemplo. Mas é extremamente recompensador assistir à comédias que nos inspiram, além de nos divertirem.

Fazendo uma retrospectiva, nós nos sentimos muito orgulhosos por ver todos os personagens crescerem e se desenvolverem tão bem nessa segunda temporada mais madura. E queremos que a terceira temporada venha com ainda mais atores convidados, mais piadas surtadas e mais do universo surreal de Ilana e Abbi. Até lá.

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