“34, 59, 20, 106, 36, 52.”

O momento mais icônico de Breaking Bad talvez seja a cena do “I am the one who knocks!”, lá da quarta temporada. A frase (e até o discurso todo) são facilmente “citáveis”. Sem falar que são imediatamente reconhecidos como sendo de Breaking Bad: estampam camisetas, trailers, reuniões de fãs. Soam bem. E a escrita da coisa toda é de uma impecabilidade tão grande com o espírito da série que, independente dos créditos do episódio em questão, se torna impossível não atribuir ao Vince Gilligan. Esse momento é 100% Breaking Bad.

Mas o que eu acho mais engraçado é como o espírito dessa cena totalmente se perdeu na memória coletiva. Galera: “I am the one who knocks!” é um discurso sobre impotência. Gus estava fazendo o Walter de capacho durante todo esse período da quarta temporada. O “tão poderoso” Heisenberg se sentia enjaulado (tema principal da quarta temporada, vale lembrar) e precisava de um discurso desses para se auto afirmar. “I am the one who knocks!” foi o mais próximo que Walter White chegou de olhar no espelho. De olhar e falar “Hoje no recreio o valentão não vai mais roubar o meu dinheiro do lanche”. Foi um momento patético, e ele valeu justamente por isso.

E se considerarmos que isso foi no sexto episódio e que o valentão só foi morrer SETE episódios depois… É, nada fodão. Ou legal. Ou super épico, cara. Um momento fantástico para a série, sim. Mas por motivos completamente diferentes.

Eis o verdadeiro Momento Fodão da história Breaking Bad, se você estiver procurando por um:

“Someone has to protect this family from the man who protects this family.

Não tenho dúvida de que algumas pessoas vão assistir “Buried” e reclamar da Skyler. Não tenho dúvida de que isso não fará o menor sentido.

No fundo, o que movimenta o episódio acaba sendo esta ideia: o que você faz quando te colocam contra a parede? Cada ação de cada personagem reflete perfeitamente a jornada deles durante a série. As mudanças através de experiência acumulada. O cansaço.

Walter preserva o seu dinheiro. Afinal de contas, o seu Império – mesmo tendo sido abandonado, passado – continua a ser sua maior fonte de orgulho e vaidade, e não tem nada que Walter valorize mais do que isso. Essa é a sua reação.

Jesse foge da realidade. Ele torna vazio qualquer sentimento. Ele se desfaz de todo o dinheiro sujo que ganhou. Deixa que o prendessem. E é interrogado como se essas coisas não estivessem acontecendo. Essa é a sua reação.

Hank para e pensa. Isso é um sinal de mudança, aliás. Lembrem como Hank era impulsivo no começo. Alguns meses e dois primos mexicanos depois, as coisas são bem diferentes. Dean Norris interpreta isso como se o fardo emocional estivesse mais no fundo. Na superfície, ele mostra só o cansaço de Hank. Visivelmente cansado e pressionado – mancando, com a barba por fazer, os olhos baixos. Mas ele nunca perde o foco investigativo que sempre teve. Veja a voracidade com a qual ele interroga Skyler, na cena crucial do episódio. Ele mal consegue conter a raiva, e, sim, tem várias emoções ali. Mas não à mostra. Hank tem uma noção de dever cívico muito forte para isso. O medo dele é, na verdade, em destruir a carreira de uma vida com a solução do caso de sua vida. E essa é a sua reação.

(Hank machucaria a família para prender Walter. Já Walter não machucaria a família para ficar livre. Que contraste lindo da honestidade de um e da hipocrisia do outro… Por enquanto).

Skyler é um caso especial. Vejam os outros e o que eles preservam. Dinheiro, orgulho, trabalho, um senso de moralidade. No caso de Jesse, o nada – esse sentir do nada, que só faz acumular culpa.

Skyler se diferencia por ser a única pessoa no episódio que realmente se preocupa com outra pessoa. E, em um nível menor, Marie também. Não é por nada que elas protagonizam a cena mais crua de “Buried”, lutando pela Holly na sala de estar dos White. Marie sente uma espécie de nojo compreensível por Skyler ao saber da grande notícia.

E é essa sensação dela que faz a transformação de Skyler ser o ponto principal da corrupção que Breaking Bad quer ressaltar. Cada obstáculo do qual Walter se livrava para criar o seu império era mais um que ele colocava no caminho de Skyler. Um peso ridículo de grande.

E se a capacidade de adaptação do Walt é asquerosa, a de Skyler se prova cada vez mais louvável. Essa, talvez, seja a mais importante de todas. Com quem Skyler vai cooperar? Com o psicopata que venceu Gus Fring (e tantos outros), ou com algumas provas circunstanciais de um familiar?

Uma das coisas mais abomináveis sobre o protagonista é o seu gênio. Ao ver Hank tão… Passional… Tão á flor da pele com o caso… Skyler não consegue imaginar alguém que tenha o sangue frio e cálculo para se equiparar aos de Heisenberg. Alguém a altura, e alguém capaz de fazer qualquer coisa para evitar fracasso. Parte desse episódio é sobre o mito de Heisenberg. Ele vive através da Lydia, que perpetua a estrutura do império, mas não a qualidade de seu produto. Ele vive através de histórias, e Huell bem sabe delas. E ele vive através dos seus efeitos em quem nem sabe dos detalhes. Ele vive através de uma Skyler, presa no escanteio.

Mas não é sobre como as situações conspiram contra os personagens. É sobre como e O QUE eles fazem para sair delas. E Skyler é uma das únicas da série que confere a si mesma esse poder de ação. Walter força e acha que o tem. Hank não consegue vê-lo. Jesse não quer.

E a outra parte do episódio é sobre como esse mito é falso. E sobre como só Skyler sabe disso.

Essa ação dela, então, se torna mais difícil. Mais difícil por ser mais incerta e com consequências mais desastrosas. Mas também porque estamos falando de família. Hank é família.

A decisão não podia ter sido outra. Olhe com quem ela vive. Agora, Skyler vai precisar destruir família para proteger essa família. Estamos chegando ao final dos círculos.

Outras observações

– Todd continua psicopaticamente cavalheiro. Isso aí, Todd.

– Assassinato em massa é legal e tal, mas as ações de Lydia parecem inconsequentes. Quer dizer, aqueles irlandeses têm um chefe, certo? E com vingança sendo muito presente em Breaking Bad, fico a leve impressão de que não vai ficar só por isso.

– O primeiro a fazer piadinha com “bancos de areia” volta dez casas.

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