Woosh, woosh, woosh…
Perigo: spoilers!
“Los Pollos Hermanos:
Where something delicious is always cooking!” – Gus Fring
Se a televisão me ensinou alguma coisa, é que se você guarda um segredo por muito tempo, se você mantém visões sem um apego ao que realmente se passa e ao que você realmente é, a percepção do que é real e do que não é se distorce. De repente, a pessoa que você acordou pela manhã não é a mesma que foi pra cama, e dor e decepção serão jogados nas caras de todos que se encontrarem no caminho de você e das paredes (emocionais, físicas) que você resolveu criar – para aguentar uma dor, evitar uma verdade desagradável ou até mesmo enriquecer.
Mas se essa ideia é vista como ruim por várias outras séries, Breaking Bad faz um argumento convincente a favor dela.
Começando pela sua dupla principal, nós já vimos todos os lados possíveis da equação. Vimos como Walt vê Jesse, como Jesse vê Walt, como Walt se vê, o que ambos pretendem ser, como Jesse se vê… Também tivemos vislumbres do que eles realmente são, sempre contrastando com aqueles que fingem ser. E quando os dois estão assim, lado a lado, é difícil não torcer pela mentira. Quando Walter percebe a si mesmo e ao dano que causou, se torna frágil. Um homem pequeno com medo de tudo, dominado pelos seus caprichos emocionais e em total pânico. Percebam como a mentira que ele tenta criar logo após um momento de clareza (no último episódio) é a de que ele é dono da sua própria vida – algo que não poderia estar mais longe da verdade, como mostra a edição, que corta do seu eu pequeno no laboratório direto para Gus, todo-poderoso e o observando pela câmera.
Já naquele outro mundo, ele é focado. Usa um chapéu e capa e caminha no deserto com a sua própria trilha sonora. Ele é Heisenberg: a lenda que se mantém viva e forte a qualquer custo, sempre um passo a frente do cartel, do DEA e de Gus. Responsável por medidas de poder como a “Full Measure” no título do episódio em questão, e dono de algumas decisões surpreendentemente espertas em retrospecto.
Já Jesse, quando se vê, não sabe o que fazer com a realidade, afastando-a de si que nem no começo da temporada. Como se estivesse preso entre viver com ela ou apenas não viver. Agora, com uma ilusão criada por Mike (a de que ele é vital para a operação criminosa), Jesse se torna vivo novamente. Ele volta a sentir o que acontece ao seu redor, volta a recuperar os movimentos e abandona o seu estado entorpecido – como uma corrente elétrica jogada bem no meio do coração, uma fantasia retorna ao garoto sua preciosa vida.
Boa parte da série se passou consolidando isso, criando as fundações dos desenvolvimentos dos personagens que permitem a eles tais saídas. Aqui em “Hermanos” tudo é reafirmado, mas também ganhamos um pouco do outro lado da moeda – de como essas mentiras podem privar um homem de tudo que o faz real. Das suas emoções e das suas ambições, das coisas que o impedem de se transformar em uma máquina de vingança, fria e calculista.
Quando primeiro conhecemos Gus, lá na segunda temporada, ele era uma figura passageira. Apenas outro big bad para gerar conflitos entre Walt/Jesse, uma leve penetração da série no território mais poderoso do tráfico de drogas. Mas à medida que a mão do destino (ou seja lá como você quiser chamar) começou a esganar a dupla, sua presença se tornou vital – com o fator adicional da ameaça representada por alguém assustador como Gus, toda aquela crise existencial deles ganhava mais peso. Agora, as consequências eram reais. Pior: mortais. E com o tempo, essa sua importância só continuou a inflar. A quarta temporada, aliás, é toda sobre ele. Mesmo aparecendo pouco, todos os personagens ou estão evitando ele, ou falando dele, ou sendo diretamente afetados por decisões dele.
Isso é poder suficiente para conseguir colocar ordem em um mundo caótico, mas vem a um preço. Tudo em Breaking Bad, aliás, vem com essas longas etiquetas. “Sangre por sangre”, como o próprio coloca.
Aqui, a fatalidade é Max. E enquanto eu não tenho problema algum com esse ponto da trama em si – afinal, faz sentido existir um parceiro no passado de Gus –, soa sim um pouco conveniente pelos paralelos que cria e pela simpatia que tenta obter de maneira tão rápida e tão fácil. É um elemento muito limpinho para esclarecer as motivações de Gus, muito apropriado até. Mas não é um acidente ou um erro. A estrutura ao redor dele é brilhante, por sinal: dos detalhes nos diálogos de Gus com Tio ao momento logo no início do episódio onde ele menciona um amigo que morreu antes da hora, tudo se executa através da excelência da escrita de Breaking Bad. A decisão, infelizmente, sai como se fosse muito própria da ficção. Um pouco falsa. Mas ainda assim, demonstra os altos níveis de competência e comprometimento da série.
E se tive alguns problemas com essa parte em si, o resto do episódio é perfeito em definir a visão de mundo daquele homem a partir das consequências, que são muito mais interessantes do que a causa em si – seja na eloqüência com a qual ele escapa das garras da polícia ou na sua preocupação crescente, é fascinante observar esse personagem. Vê-lo executando sua vingança de anos, mantendo uma mentira e tentando evitar que as suas barreiras emocionais se rachem (como na conversa com Walt)… O olhar marcante do Giancarlo Esposito simplesmente hipnotiza, atravessando com meras inclinações de profundidade todos os preços que Gus teve que pagar para ter o que tem. Para se manter vivo sem ceder aos impulsos Walter Whitescos ou aos delírios viciados de Jesse.
Mas até quando isso pode durar? Até onde todas essas mentiras e jogos vão valer a pena?
Com sorte, saberemos no final da temporada. E seja pelas mãos de Hank, do cartel, de Mike ou de até mesmo Walt Jr, mal posso esperar para descobrir a resposta.
Outras observações:
– Gosto de Andrea pelo que faz com Jesse, mas não tenho certeza se gosto dela como uma personagem… Cai um pouco naquela categoria de personagem objeto que eu mencionei na review passada. E já que estamos falando dela, curioso como a Emily Rios fez parte de três das melhores temporadas do ano até agora.
– Muitas cenas fortes nesse episódio, como a interação entre Walt e outro paciente e a interrogação de Gus, tão atolada de gente e superficial como era de se esperar para alguém que é amigo da polícia. Sempre bom termos uma visão externa desses personagens e suas situações, mesmo que seja apenas para manter perspectiva.
– Interessante como a série está transformando a investigação de Hank em uma jornada pessoal do personagem contra Gus, não algo que envolva a polícia, carros da SWAT, evidência e toda aquela burocracia. Da maneira atual, a situação é mais tangível – e Breaking Bad é sempre melhor quando dá pra sentir perigo correndo por cada cena.
– Breaking Bad repetindo o nervosismo do Walt é um daqueles pontos temáticos que nunca cansa, principalmente quando apresentado através de ideias tão divertidas quanto Hank pedindo a ajuda dele – o que não só proporciona a esperada conversa com Gus, como esclarece um pouco o que Hank sabe sobre a verdadeira identidade de Walt: porra nenhuma.
– Não gosto do visual daquele longo flashback, com um exagerado amarelo cortante, muito alongado e óbvio em sua tentativa de passar a ideia de tempos melhores que rapidamente acabam. Mas pelos deuses de Kobol, só perfeição define o som durante o momento: o leve cantar dos pássaros no fundo de toda a conversa, o silêncio que se dá assim que Max é assassinado, e aquele abafado em todas as ameaças ditas por Tio e Don Eladio segundos depois, se focando apenas na dor de Gus e na semente de vingança que está sendo plantada em sua mente. Brilhante.














