Um maluco no pedaço.

Perigo: spoilers!

“Since when do vegans eat fried chicken?” – Hank Schrader

Uma das coisas que eu sempre amei sobre Breaking Bad é como ela sabe brincar com as nossas expectativas sem soar manipulativa. Na segunda temporada, por exemplo, passamos diversos minutos encarando estranhas imagens em preto e branco. Um olho boiando na piscina. Um ursinho de pelúcia. Pessoas com trajes suspeitos. Vários carros, um verdadeiro caos ao redor da residência dos White.

O raciocínio mais lógico era de que Walt finalmente começou a pagar pelas escolhas que fez – que o cartel voltou para se vingar ou que um traficante resolveu tomar medidas drásticas para deter a ascensão meteórica de Heisenberg. Nada disso: era um avião. Era o seu julgamento de fogo, vindo direto dos céus. Ninguém esperava, mas ainda assim… Todos esperavam. Grandes surpresas são escandalosas, boas surpresas são bem pensadas, brilhantes surpresas são tudo isso e se encaixam perfeitamente em retrospecto – no grande esquema da segunda temporada, nenhuma peça se moveu em falso. Estava tudo ali na tela, na lenta deterioração de Walt e em como culminou com aquele acidente. “737 Down Over ABQ”.

Recurso/habilidade presente em cada segundo de “Shotgun”, outra hora maravilhosa de televisão e outra deliciosa surpresa nessa série cheia de deliciosas surpresas.

Na verdade, não uma surpresa em si. Breaking Bad não executa o que se dá entre Jesse e Mike como uma surpresa, e por isso funciona tão bem.  Por isso e por usar como combustível mistério, espalhando por todo o episódio um tremendo senso de perturbação. Qual é o objetivo aqui, com todas essas coletas? Jesse vai sair vivo (mesmo que o perigo seja real e Breaking Bad uma das únicas séries verdadeiramente imprevisíveis, o arco do seu relacionamento com Walt não teve uma resolução), mas nunca fazemos ideia de quando e como ele vai sair. Tudo é calmo, e ainda assim, estranhamente tenso –  como disse acima, a abordagem da série está centrada em manter aquilo dentro da sua realidade, não destoar ou conquistar pelo choque.

Aqui ela também faz outra coisa interessante. Nos episódios anteriores, ficamos meio que alheios ao ponto de vista de Jesse. Observamos a sua destruição com aquela fascinação de zoológico. Simpatizamos pelo que sabemos do personagem. Mas só fomos colocados na sua posição agora, quando Mike pega a pá, tira a areia, abre a caixa e retira o dinheiro, como se tivesse todo o tempo do mundo. Estamos inquietos, pois Jesse está inquieto. Devemos estar abalados, pois Jesse está abalado. Essencial para o episódio no qual os seus instintos de sobrevivência finalmente voltam à ativa.

E então seguimos. Temos uma daquelas belas montagens aceleradas (que se tornaram uma espécie de assinatura da série), Jesse faz as perguntas que todos estávamos perguntando e Mike dá as respostas que todos estávamos esperando de alguém como ele. Uma surpresa acontece quando Jesse precisa improvisar para parar o maníaco da espingarda com o carro, mas em geral, a trama aqui é básica: coletas. Mike, Jesse, um carro pelas ruas de Albuquerque e a chance do garoto bancar o herói pela primeira vez em um bom, bom tempo.

O que nos leva à grande sacada do episódio, que pega essa trama básica e distorce no gênio criminoso de Gus. Você poderia marcar esse seu plano como convoluto demais – exclusivo de uma realidade televisiva onde lógica funciona de uma maneira levemente diferente. Mas Breaking Bad faz por merecer isso. Não só construindo em direção a esses planos, como os tornando gratificantes. Tudo aqui é baseado em algo já estabelecido: Gus sempre foi um maravilhoso estrategista, dois, três passos a frente dos outros e fã de soluções não-ortodoxas. Mike sempre adotou “Não Pergunte” como mantra. Jesse sempre teve um forte senso de sobrevivência, não importa o quão entorpecido ou afastado.

Não existe contradição. Encaixa-se tão bem que a minha cabeça quase se soltou e deu um “Ahhh” de satisfação com o resultado. Lógica exaltada, e ainda assim, perfeita.

Também ajuda que enquanto o roteiro se move nesse novo tom, o visual acompanha em ritmo implacável. Temos o retorno do deserto e lentamente partimos da sua isolação para lugares mais calorosos, a insistência da diretora Michelle MacLaren em enquadrar Jesse e Mike juntos, por mais separados que estejam durante a ação, e alguns belos reflexos ao clímax de “One Minute” na cena com a arma título – realçando mais uma vez a relação Jesse/Hank (lembrada em cena anterior, aliás) e como momentos semelhantes podem significar coisas diferentes para homens diferentes.

Tema também presente na trama de Walt, por sinal. Enquanto a “abdução” de Jesse acaba levando ele a retomar um pouco de foco na vida, o seu mentor continua em pânico. Já começamos o episódio sendo jogados dentro do seu carro em alta velocidade, desesperado e afoito, alheio quanto a qualquer tipo de conhecimento e impotente quanto ao que fazer. Depois, resignado a ter que esperar o final de tudo, ele se reúne com Skyler. Compra o lava-jato. Comemora. Pela manhã, tem um momento no qual se conecta com o filho. A esposa volta a comandar a sua vida e a definir coisas.

Mais uma vez, enjaulado. O tão poderoso Heisenberg que criou na sua mente, preso ao cúmulo: jantar de família com piadas sem graça.

Assim, a estupidez toma conta. Orgulho não permite que Walt fique ali sem fazer nada, com Hank tirando o seu título de rei e dando para uma figura cômica como Gale. Ele manda ver no vinho, constrói a coragem para um longo discurso sobre como o cara que mandou matar não seria capaz de tamanha perfeição, jogando o holofote pra cima de si. Clássico, clássico Walter White. Se ele se deixa misturar com Heisenberg no decorrer da hora (pegando a arma e partindo pro escritório de Gus), aqui nessa cena final ele está 100% puro. 100% como o homem detestável que se tornou no decorrer da série.

E Skyler é a primeira pessoa a ver isso sem qualquer tipo de distorção. Para Marie, conversa chata sobre trabalho. Para Hank, estranho, mas um lado dele ainda acha absurdo imaginar Walt como algo além do que aparenta. Para Walter Jr, apenas mais uma distração no caminho até o maldito carro. Já Skyler… Ela sabe exatamente o que há de errado com ele. Sabe exatamente o que está causando isso. Se sente atraída por esse choque de personalidades dentro do marido, pelo pai de família ainda presente em Walter White, e pelo poder que traz como Heisenberg. Porém, quando o vê fazendo aquilo, agindo como um animalzinho ferido, destilando seu veneno tolo e comprometendo todo o complicado esquema que armou… Compartilha, sem uma gota de ilusão, a nossa repulsa. Entende sem criar mentiras ou construir paredes emocionais ou criar explicações, se afundando com ele cada vez mais no processo.

Afinal de contas, é um casamento.

Para o bem ou para o mal. Até que a morte os separe.

Outras observações:

– Perfeição nos detalhes: Gus ainda faz questão de tirar o lixo do Los Pollos Hermanos.

– Pago ALTOS DÓLARES por uma cena na qual Mike chega pro Gus e diz: “I got the shotgun, you got the briefcase. It’s all in the game though, right?”.

– Em setembro, não percam o crossover da década: Walter White em Cougar Town. Mais metanfetamina, mais câncer e dicas sobre como arrumar um título melhor. Em troca… Penny Can chega a ABQ!

– Enquanto Gus tenta tornar Jesse um aliado, Mike começa a perceber que algo não está certo com todos esses segredos e conflitos. Não ficaria surpreso se dentro de alguns episódios ele considerasse um pouco mais o que Heisenberg teria a oferecer como possível chefe.

– Caso você não tenha visto, Breaking Bad foi renovada pela AMC. 16 episódios, que muito provavelmente serão divididos em duas temporadas finais (a serem exibidas em 2012 e 2013). Achei a decisão perfeita, em todos os aspectos. Não é muito para não esticar os limites de uma realidade como a de Walter, mas também não é pouco para ficarmos com o sentimento de que algo está faltando – e também se encaixa perfeitamente com os planos do criador.

– Semana passada eu reclamei um pouco sobre a trilha da série. Nessa, ela voltou com força total: adoro como coloca um leve barulho de correntes batendo no fundo durante as cenas do deserto, adoro “1977” sendo usada tanto na montagem de Jesse quanto na de Walter, e mais em relação ao próprio som, adoro como fez de Albuquerque uma cidade viva mesmo quando estávamos dentro do carro ou de um galpão abandonado, com alguns ruídos peculiares vindos de fora e de dentro do carro. Simplesmente sensacional.

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