Obrigado pela arma, Bobby!
Perigo: spoilers!
“Get me in a room with him.” – Walter White
Desespero. Depois daquela pequena realização em “Box Cutter”, Walt não conseguiu evitar ser dominado pela paranóia e pelo forte sentimento de impotência que permeava a sua vida durante a terceira temporada, trazendo de volta o seu lado amador para tentar lidar com algo mortal – e por ser Walter White, realizou isso escondido sobre mais e mais camadas de problemas superficiais para evitar um existencial, não podendo deixar de fazê-lo sem jogar a culpa para cima de Gus, Mike, Skyler, qualquer um no seu caminho e supostas boas intenções.
O que leva a série ter certa pena do personagem. Essa temporada vem apostando em um forte clima de apocalipse iminente (percebam aquela trilha forte, sombria dominando momentos que antes eram rotineiros) e no meio disso, encontrou um homem que acaba se tornando patético por achar que tem direito a algo em um mundo onde funcionários morrem com estiletes nas gargantas: da suposta posição de poder conferida pela arma do título, tudo que conseguimos retirar é a artificialidade que o pânico faz aflorar em Heisenberg. Ele ainda tem muito a aprender. Ele não sabe tirar a arma do coldre. Ele se atrapalha no telefone com Skyler, com um conhecimento de prevenção criminal derivado de filmes. Ele é retratado pela diretora Michelle MacLaren como uma pessoa minúscula dominada pelo vazio nos espaços ao seu redor, com cada vez mais frequência e frieza no decorrer da hora.
Ele até mesmo termina o episódio no chão.
Mas é o que acontece com os outros personagens que move “Thirty-Eight Snub”. Nesse ponto em sua existência, a série conhece a si mesma e a sua audiência o suficiente para poder deixar Jesse, Hank, Skyler e vários outros somente respirarem, perceberem, reagirem ao terror daquele mundo e ao inevitável final nada agradável que ele terá. É também o ponto na sua existência em que ela não sabe ao certo onde está a linha de chegada, se será daqui a um ano ou dois. Então declara que não existe motivo pra pressa, segue em frente se expandido cada vez mais, aumenta a tensão e se torna uma rede tão bem conectada de eventos e pessoas que quando finalmente cair com o final de Walt, o fará de maneira bem mais aterradora. Imaginem, por exemplo, se a Skyler dessa temporada ainda fosse a mesma Skyler da primeira. Breaking Bad seria praticamente obrigada a reduzir uma figura de grande potencial ao papel de esposa irritante e pastel que vimos e odiamos em várias, várias histórias (sim, Rita Morgan, eu estou falando com você). Ao invés disso, seu crescimento (e decadência) ao seguir os passos do marido já é notável com apenas dois episódios – tudo por causa desse espaço que a quarta temporada está oferecendo.
Para falar a verdade, Skyler até parece ir um pouco além. Walter teria insistido naquela reunião, puxando o dono até o limite por achar que essa seria a postura de alguém como Gus. Ela soube a hora exata de se retirar. Por não ter todos os anos de repressão nas costas, por não ter sido uma professora de colegial obrigada a assistir o melhor amigo enriquecer, por não ter sido ameaçada por alguém como Mike, por não ter sofrido com câncer, por todas essas coisas e mais algumas razões vingativas, Skyler age com uma postura que faria o marido morrer de inveja e se torna uma personagem cada vez mais rica e importante como consequência.
Já o resultado do Efeito Walter White é mais triste com Jesse. Antes apenas indicado, agora ele é real e está transformando um traficante que há poucos meses parecia inofensivo na figura maligna que sempre pareceu evitar, convencendo Skinny Pete e Badger (sempre bom tê-los de volta) a usarem drogas logo quando pareciam estar indo bem, dando festas até exaustão, se perdendo meio que arrastado na dança, guardando o que fez em um pequeno espaço da sua mente e tentando jogar a chave fora… Aqui, aliás, é a grande diferença entre ele e o seu mentor. Walt não tem problemas em tapar os ouvidos e fazer lá-lá-lá-lá, mas Jesse? Depois de encarar a realidade com uma visita de Andrea, tudo que resta para ele é ter um colapso no chão da sua casa, destruído enquanto uma auréola irônica se forma em sua cabeça com as marcas do som.
Destruição essa bem mais dolorosa que a de Walter, por sinal. Nós sabíamos desde o primeiro segundo qual seria o arco do protagonista, mas Jesse sempre teve caminhos abertos – ele poderia morrer a qualquer momento (como planejado na primeira temporada) ou assumir diversas funções e ainda permanecer interessante. Mas Vince Gilligan conseguiu ir além, não só colocando Jesse numa posição complexa como nos fazendo amá-lo. E em seguida nos fazendo chorar ao jogar para ele a verdadeira história trágica de Breaking Bad. Quando Walt mata dois traficantes, aquele é o novo Walt, é aquele homem que vemos e julgamos, cada vez mais enfiado no buraco que criou. Já quando vemos Jesse atirar em Gale, é esse grande e devastador momento, tanto para ele quanto a audiência.
Algo que, no final das contas, nos leva até Hank.
Ambos são homens que tinham os seus respectivos mundos quase resolvidos por um breve período de tempo, ambos caíram, ambos parecem ter desistido, ambos tentam se distrair com longos e complicados detalhes sobre pedras e aparelhos de som… A diferença? Hank tem Marie. Ao contrário de Jesse, ele tem essa maravilhosa pessoa focada em salvá-lo, em tirar esse peso de suas costas e em mandar pensamentos positivos (a intenção é o que conta). Ela tenta estender a mão, mas acaba sendo recusada. Ela tenta de novo, nada. Vibra com alguns passos pelo corredor, comemora com ele e depois… Mais nada.
Aqui nesse ponto, entra outro paralelo: ambos são orgulhosos demais para aceitarem ajuda. Não só os dois, mas todos na série.
E mais que a metanfetamina, balas e estiletes, essa parece ser a grande perdição.
Outras observações:
– Aplausos para a não-aparição de Gus. Adoro como a série está tratando ele como essa figura sobrenatural de poucas palavras.
– Outra coisa que adoro: o design do laboratório, com aquela plataforma que sempre coloca Gus e seus empregados acima de Walt e Jesse.
– Se como vários fãs prevêem Walter for pego por Hank no final da série, isso será vinte vezes mais satisfatório depois desse arco de recuperação para o personagem. Também é interessante notar como ele ajuda a ressaltar toda a destruição do cunhado, primeiro como uma das muitas consequências de viver aquele tipo de vida, segundo com o esmagador impacto pessoal de manter o orgulho no nível mais alto durante um momento frágil.
– O episódio mostra Mike bastante preocupado com o seu futuro na operação de Gus, mas ainda assim ofendido com Walter propondo uma traição. Quanto mais penso sobre, mais seria irreal uma resposta imediata que fosse ou positiva ou silenciosa, e é em tratar com o maior cuidado do mundo detalhes como esse que Breaking Bad vai além da grande maioria das séries atualmente no ar.
– Falando em algo que Breaking Bad faz melhor que todas as outras séries, a fotografia estava novamente impecável durante “Thirty-Eight Snub” – não apenas linda de olhar, mas ajudando as histórias através de cores e novas abordagens. Por exemplo: enquanto a maioria apostaria em uma iluminação típica de boates para passar a sensação de estranheza nas festas de Jesse, Michael Slovis usa uma lógica visual realista, quase que minimalista. Assim, a dor é mais cortante ao ficar a cargo da edição e direção (viu? Aquilo que papai e mamãe disseram sobre trabalho em equipe ainda vale).






















