Achando a relação entre Mad Men e vasos sanitários.

Spoilers Abaixo:

Com o passar do tempo, percebe-se como comédias são capazes de ampliar seus temas e os sentimentos dos personagens como um modo de apresentar novas situações para compor seus episódios. O grande desafio desse pensamento é associar as características das pessoas que fazem parte daquele universo sem extrapolar ao ponto de atingir uma região irrisória. Fazer isso de um modo adequado nos leva a excelentes momentos de pura comédia, o que Bob’s Burgers comprova com um divertido e sentimental “O.T.: The Outside Toilet”, episódio que reforça o quanto essa animação vem crescendo nesse estranho mundo em que as comédias da tevê aberta seguem uma direção contrária.

Essa ampliação citada se faz presente na obsessão de dois dos personagens principais por objetos inanimados. Tecnicamente, o vaso sanitário que vale milhares de dólares tem valores mais antropomórficos, mas o humor das atitudes de Gene diante dele é retirado a partir do estado de suspensão de descrença para onde o roteiro nos leva. Aliás, esse é o grande trunfo do episódio, possuir um roteiro capaz de transformar toda a bizarrice em algo comum para aquele universo. Ele faz isso passando tranquilamente por todas as etapas necessárias para tal objetivo. Logicamente, a primeira é a decepção. Durante todos os episódios, vemos como Bob’s Burgers normalmente joga essa inocência de Gene em piadas pontuais. É esse tipo de construção que faz com que a piada onde o personagem derruba seus bebês no início seja tão divertida, confirmando como a série é feliz ao fazer o público sentir pena de seus personagens. Em seguida, vemos como a montagem atribui um caráter repentino para a história ao acelerar exageradamente o processo, mas vemos como a excelência do roteiro é capaz de subverter isso com a paródia de E.T. the Extra-Terrestrial.

A situação ganha contornos incríveis com as conversas entre Gene e seu novo melhor amigo. Os diálogos entre o bebê Belcher e um inspirado vaso sanitário dublado por John Hamm remetem perfeitamente a uma lógica que se adequa ao personagem. Ele é aquele que menos recebe atenção quando observamos como ele normalmente se posiciona apenas como um puro coadjuvante e o roteiro aproveita-se dessa característica para criar uma história onde sua solidão é o foco. Voltando para a estrutura da narrativa, observa-se como a próxima etapa é esse elo entre os dois melhores amigos. Os erros dos comandos de voz não são usados além da conta, um clichê bem administrado que dá espaço para a colocação de uma trilha sonora que aproveita o quanto esse contexto é apropriado para a comédia.

Esse tipo de honestidade em relação a Gene é excelente para nos levar até o peculiar clímax do episódio. Max Flush mostra-se como um antagonista bem construído por possuir um mistério bem elaborado em relação a sua figura. É interessante ver ainda como o personagem não precisa ser necessariamente engraçado, considerando que o humor retirado a partir dele é feito graças ao modo como os outros personagens o veem. Essa é outra característica admirável da série, que consegue sempre posicionar bem até mesmo seus personagens secundários para que eles não roubem o holofote nem tenham piadas ruins por não ter desenvolvimento.

O modo como a sociedade vê Bob quando ele está com o terno torna-se interessante porque é exatamente um enredo secundário com o objetivo de completar a trama principal, um fato que não é exagerado em nenhum momento. Esse segmento é feliz ao manter-se o mais simples possível, fazendo as piadas básicas que estabelecem aquela imagem de Bob para que ele e Linda possam contribuir com a narrativa na metade final do episódio. Um momento particularmente divertido é o deboche com Mad Men logo no início, combinando com a presença futura de John Hamm para zoar Bob e seu novo contexto.

Mesmo mostrando-se bastante sagaz nos atos iniciais, é evidente que “O.T.: The Outside Toilet” atinge um nível superior quando os dois segmentos atingem a maturidade necessária para que eles possam se juntar. A inocência de Gene ao esperar que o vaso sanitário possa voar é o início de uma série de piadas sensacionais auxiliadas por uma perseguição fabulosa. O tom emocional e relevante da pequena história é mudado a um nível excelente nesses momentos, sendo reduzida ao máximo para que a loucura tome conta. Louise derrubando Max mostra-se como a despedida adequada para o personagem, considerando a sagacidade da pequenina.

Ao abrir espaço para a bizarrice que atribui contornos mais hiperbólicos que são apropriados para a paródia com o famoso filme de Steven Spielberg, “O.T.: The Outside Toilet” permite-se o contraste perfeito visto no desfecho, que ironiza todo o amor de Gene. Além de retornar ao momento em que o vaso não retorna a declaração de Tina (que, aliás, é uma das ocasiões essenciais do episódio por fazer com que o vaso se comporte como um verdadeiro personagem), vemos Gene voltar a sua posição de solidão que vimos inicialmente. Essa é uma condição perfeita para a criança iludida que foi o foco de mais um ótimo episódio de Bob’s Burgers, cheio de piadas recorrentes divertidas por brincar com o universo da série (a discussão sobre o nome de Bob) e referências a outras obras (“Wow, Don Draper’s kind of fat this season!”).

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