Uma temporada final entregue a própria sorte. 

Quem acompanhou as reviews da temporada passada de Boardwalk Empire, sabe que uma das coisas que sempre cobrei da série foi planejamento. Era ele, o planejamento, o único capaz de salvar o programa da inércia dramatúrgica no qual tinha se colocado desde que se livrou de Jimmy, no final do ano 2. Não se sabe exatamente porque, mas o fato é que BE nunca conseguiu seguir num caminho seguro, soando, em alguns momentos, como um programa de temporadas aleatórias, que não conseguia construir uma expectativa.

O planejamento nos proporcionaria, inclusive, uma ansiedade natural por essa que já foi anunciada como a temporada final. Se pararmos para pensar um pouco, vamos perceber que ao contrário do que acontece com a maioria dos shows que chegam nesse ponto, em Boardwalk Empire não é possível vislumbrar o desejo incontrolável de ver “aquele momento tão esperado”, porque a série esse tempo todo, nunca soube construir algo sim. Última temporada na agulha, e não existe nenhuma tensão original para ser explorada.

Vamos ficar aqui só esperando pra saber como os personagens ainda vivos vão morrer. Sim, porque as mortes continuam sendo usadas como catalisadores de ação. Essa premiere tão enfadonha foi um grande exemplo disso. Nada acontecia até que uma morte chocante rasgasse a narrativa… A série ainda está ali, lutando para criar uma atmosfera e traçar analogias, mas há tão pouco material pré-concebido, que o resultado é uma sensação de insuficiência.

Ao pularmos para 1931, inclusive, percebemos que os roteiristas abriram mão de mostrar os eventos do Massacre do Dia dos Namorados, tão icônico para aqueles tempos, e que poderia ter dado pano pra manga. Resolveram, enfim, abordar todos os transtornos da Grande Depressão, com aqueles movimentos já clássicos desse tipo de abordagem: desespero e suicídio. Se não fosse por isso, Margaret continuaria sendo tão inútil como sempre fora, há muito tempo.

Nesse 1931 nós acompanhamos Nucky tentar desbravar novos territórios, tendo Sally ainda ao seu lado. Apesar de termos visto eventos interessantes serem ignorados pela abordagem histórica, faz sentido que por ser a última temporada, eles tenham preferido pular para o período próximo ao fim da Lei Seca. Poderíamos dizer até, sendo bem otimistas, que esse é o maior ponto de coesão da série, que começou falando sobre tráfico de bebidas e termina no momento em que essa realidade é revirada. Esse Nucky do presente será afetado de algum jeito, ainda que nos flashbacks de seu passado, tenha ficado bem claro que ele aprendeu lições importantes sobre dinheiro e sobre manipulação moral.

Também vimos um pouco de Chalky, preso e vilipendiado. A dramaturgia da série é tão bagunçada que a cada ano os personagens parecem ter acabado de começar a primeira temporada de suas existências. Há tão pouca liga entre os eventos que assistir a série agora, sem ter visto os anos anteriores, não atrapalharia em nada o entendimento. Chalky tem um passado, claro, mas ainda não dá pra saber se sua jornada continua explorando evoluções ou se ela vai começar de novo, do nada, como já aconteceu tanto com Margaret, Gillian e Nelson.

Enfim, foi uma premiere quase sem nenhum atrativo. Estava lá escondida no tédio, um senso de servidão bem específico. De Margaret para com seus superiores, de Nucky para com o Comodoro (no passado) e até de Luciano, que pula de uma influência pra outra. Ainda assim, entregue ao marasmo de sua falta de perspectivas, a série tem pouco tempo para reconstruir atmosferas que nos façam nos importar com ela. Ou isso, ou vamos apenas sentar e esperar até o series finale, quando o destino de Nucky terá sido o único apelo restante dessa fria e afetada dramaturgia.

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