Quando Blindspot se dedica a seus personagens.

É fato sabido que, nos dias de hoje, procedurais puramente focados em “casos da semana” são artigo raro. Hoje, com o espectador casual cada vez menos presente devido à existência de ferramentas como DVR, Netflix, Hulu e outros, é natural que o desenvolvimento de personagens e arcos mais longos se tornem mais atrativos. Blindspot é um procedural dessa nova era, apegando-se a uma premissa instigante para criar uma história de mistério. Partindo desse princípio, episódios como Scientists Hollow Fortune não agregam grande coisa, mas outros como Erase Weary Youth são de extrema relevância para o universo da série.

É interessante que os dois episódios, embora sequência um do outro, sejam completamente diferentes entre si, tanto do ponto de vista narrativo quanto de estrutura. Scientists Hollow Fortune conta com um caso da semana comum, e se importa muito pouco com o arco central de Blindspot. Mesmo assim, é uma qualidade da série, e do roteiro de Alex Berger, nunca deixar sua trama principal de fora, inserindo alguns comentários aqui e ali, e reavivando a memória de Jane através de alguns gatilhos mentais, ainda que os flashbacks da série ainda sejam extremamente invasivos. Nesse caso, entretanto, são necessários, já que a abruptidade traduz bem a velocidade com a qual as memórias retornam ao cérebro dela.

Exceto por isso, contudo, o episódio não se sai muito bem ao explorar o mistério sobre a origem de Jane. Os primeiros minutos se baseiam em uma nova missão para ela, que consiste em trocar a caneta de Mayfair por uma aparentemente idêntica. Blindspot escapa convenientemente da pergunta sobre como Oscar sabe qual é a caneta usada pela diretora do NYO, mas isso pode ser perdoado desde que a série simplesmente não se esqueça disso (talvez tenham outra fonte dentro do FBI, por exemplo). Parece bobagem, mas é comum em séries focadas em mistério começar a derrapar em detalhes aparentemente inofensivos, e de repente seus roteiristas se veem com uma bola de fios impossível de desembaraçar, o que acaba por prejudicar o andamento da história.

Já o caso de Scientists Hollow Fortune é consideravelmente interessante. Blindspot tem se saído bem em variar suas tramas, evitando transformar cada episódio em histórias formulaicas e repetitivas. Se em Cease Forcing Enemy vemos a equipe do FBI envolvida em um sequestro de avião na Turquia, aqui os vemos perseguindo experimentos militares não autorizados, envolvendo a mesma substância utilizada para remover as memórias de Jane. É verdade que a série não chega a esclarecer se há ou não conexão entre Charlie e Jane, já que Kurt mata o ex-soldado antes que alguma conclusão pudesse ser tirada, mas até aqui Martin Gero tem conseguido não transformar seus casos em algo puramente aleatório.

O que nos leva a Erase Weary Youth, que simboliza um marco em Blindspot. Primeiramente por não perder tempo com alguma investigação que tenha origem nas tatuagens de Jane, e sim se aproveitando do desfecho da história que vemos em Evil Handmade Instrument, que culmina na descoberta da existência de um agente duplo no FBI. A partir daí, a série nos coloca em um ambiente fechado para poder desenvolver seus personagens de maneira definitiva. Até mesmo Zapata e Reade ganham seus momentos, ainda que o relacionamento do último com Sarah Weller seja algo consideravelmente repentino, e que Chris Pozzebon não consegue aproveitar corretamente.

Tudo no episódio é criado para gerar tensão. Isso inclui a série de perguntas feitas na fase do polígrafo, quando a montagem acerta em diversificar os personagens que respondem às perguntas. Dessa vez, Blindspot não nos deixa no escuro, e basicamente sabemos as respostas de todas as perguntas. Isso nos faz saber quando cada um está mentindo, e quando fatalmente o polígrafo registrará inconsistências. É essa “honestidade” que Erase Weary Youth traz que contribui com isso. Assim, quando Mayfair, Zapata e Jane são marcadas, isso não é nenhuma surpresa. Sabemos que Tasha tinha problemas por conta de seu envolvimento com Carter, e que Jane é de certa forma responsável pela morte do diretor da CIA.

É justamente esse fato que faz com que Jane desconfie dela mesma. É também o motivo de não hesitar em matar Fischer, já que sente a necessidade de proteger um segredo que ela não sabe se a prejudicará em algum momento futuro. Quando Oscar diz que isso prova que ela é um deles, é mais uma tentativa de jogar com o psicológico dela, já que ela de fato fora forçada a agir dessa forma por não saber em quem confiar, uma vez que não pode confiar nem nela mesma.

Isso também justifica o fato de que, nesse momento, Reade e Mayfair também já não tem tanta confiança em Jane como antes. Blindspot constrói isso de forma inteligente, sem que isso aconteça repentinamente. Pelo contrário, a desconfiança é mera consequência dos fatos esclarecidos em Erase Weary Youth, que envolvem a falta de um álibi de Jane para a suposta morte de Carter. Além disso, o que Jane diz para Oscar é verdade. Ela é, de fato, uma agente dupla. O fato de não estar envolvida com os russos é mera coincidência, nesse caso.

É claro que Blindspot não vive apenas de Jane. A série também busca explorar tramas para todo os seus personagens relevantes. Isso inclui a história de Kurt com seu pai. Embora não tenha valor para as tramas centrais, a reaproximação dos dois é importante para o agente, uma vez que o tridimensionaliza e cria uma importante vulnerabilidade, que é escancarada quando ele grita para Sarah que “não pode proteger a todos”. Novamente, a conveniência dessa revelação é questionável, mas ao menos a série consegue se sair bem com isso, criando uma intensa carga dramática para um personagem que parecia muito ligado ao seu trabalho.

O mesmo se pode dizer de Patterson. Pela quantidade de diálogos envolvendo o estado emocional dela fica bastante evidente que, em algum momento, ela irá sucumbir ao luto e à culpa e isso se transformará em um problema. Mesmo que o excesso de diálogos torne a situação mais previsível, isso é uma boa maneira de evitar que a personagem seja mostrada em estado emocional perfeito por várias semanas até que em um episódio o problema aconteça. Nesse aspecto, Gero tem feito um ótimo trabalho, evitando que os dramas pessoais de seus personagens se percam para que o caso da semana ganhe maior destaque. Isso se aplica desde Jane e Kurt até Zapata e Reade.

O que pode não tornar Blindspot o melhor drama da TV aberta, mas cria uma história sólida e interessante. Mesmo não perdendo seu lado procedural, consegue manter sua narrativa contínua o suficiente.

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