Nos últimos anos temos visto um crescente número de produções cinematográficas baseadas em animes e mangás. Apesar de alguns bons resultados, como Rurouni Kenshin, acabamos por lembrar mais dos fiascos, como Full Metal Alchemist, ou as versões ocidentalizadas de Dragon Ball e Death Note. Bleach, felizmente, está mais próximo do primeiro exemplo.
O filme é baseado no mangá criado por Tite Kubo, lançado em 2001, e que conta a história de Ichigo Kurosaki, um estudante colegial que consegue ver e interagir com espíritos. Assombrado por um trauma de infância, o jovem tem sua vida completamente mudada ao encontrar a Ceifadora Rukia Kuchiki, que lhe transfere os poderes de um Ceifador, passando-lhe também a missão de transitar almas e purificar hollows, criaturas espirituais monstruosas e de grande capacidade destrutiva.

Claro que mais pra frente a história se desenrola de maneira muito mais complexa, mas é interessante observar como o roteiro de Daisuke Habara conseguiu captar a essência de Bleach. Em menos de duas horas, o filme conseguiu condensar um considerável número de episódios/capítulos, claro que fazendo as necessárias modificações para melhor se adequar ao formato, mas sem deixar de lado a idéia central, ou o que realmente importa. Por conta disso, alguns personagens e situações de certa relevância acabaram subaproveitados ou ignorados, mas é compreensível, visto que a solução para um problema desses, seria um considerável aumento na duração da obra. Porém, como é comum nesse tipo de adaptação, achei que o ritmo ficou um pouco mais acelerado do que deveria, podendo deixar o espectador que não conhece a obra original, um pouco confuso, ainda que seja bem didático em suas explicações.

Falando em personagens, a maioria foi muito bem adaptada e caracterizada, sem ficar parecendo cosplayers de luxo. Porém o mais surpreendente foi a boa atuação do elenco, que conseguiu ser bem sucedido na tarefa de adaptar os personagens para algo mais próximo de nossa realidade. Sota Fukushi encarna um Ichigo bem humanizado, sem todo o ar de badass que o protagonista possui no anime. Com uma competente performance, Sota entrega carisma e uma dose de ingenuidade, que logo fazem com que nos afeiçoemos ao personagem. Já a Rukia de Hana Sugisaki se sai muito bem nas cenas mais cômicas, chegando a lembrar bastante a personagem no anime. Porém, deixa a desejar quando uma carga mais dramática é exigida. Quanto ao restante, não há nenhum grande destaque, talvez com exceção do competente Yôsuke Eguchi, que dá vida ao pai do protagonista. As atuações nesse tipo de filme costumam ser exageradas e caricatas, o que pode causar estranhamento em alguns. Porém Bleach consegue dosar satisfatoriamente esse quesito, mesmo que vejamos uma ou outra atuação nesse tom.

A direção de Shinsuke Sato é correta, e com boas decisões. Fotografia e trilha sonora, um dos maiores destaques do anime, também funcionam bem aqui, apesar de não trazerem nada de surpreendente. Porém os maiores destaques foram sem dúvidas, os efeitos, e as coreografias de luta. Considerando que o filme teve um orçamento pífio, de pouco mais de três milhões de dólares, a equipe de efeitos visuais faz milagres, principalmente nas cenas envolvendo os Hollows. Até mesmo em cenas mais iluminadas, as movimentações das enormes criaturas ficaram bem feitas. Claro que com o orçamento que foi disponibilizado, alguns efeitos não chegam a ficar perfeitos, mas nem de longe comprometem, ou te desconectam do filme. Já as cenas de luta são cativantes e realmente passam a sensação de estarmos assistindo a um anime. Destaque absoluto para a batalha contra o Grand Fisher, e o duelo entre Ichigo e Renji (Taichi Saotome).

O Live Action de Bleach não é nenhuma obra-prima, longe disso. Mas provou que é possível ser bem sucedido na difícil missão de adaptar um shounen. Comparando, eu diria que me senti assistindo a um filme da Marvel: divertido, despretensioso e com ótimas cenas de ação. O final em aberto pode frustrar alguns, mas obviamente há planos de fazer uma seqüência, ou até mesmo duas, para poder fechar o arco da Soul Society (que aliás, nos foi apresentada em um breve vislumbre noturno, e posso dizer que achei no mínimo, surpreendente). O filme teve um desempenho bem abaixo do esperado nas bilheterias japonesas, porém há a esperança de que consiga um bom resultado com a distribuição global pela Netflix. Eu particularmente gostaria muito que essas sequências acontecessem.




















