Quem controla o passado, controla o futuro. Quem controla o presente, controla o passado.
– George Orwell
Certa vez eu li um pequeno texto enquanto estava em um aeroporto aguardando o horário para embarcar no avião, não sei dizer de quem era a autoria do manuscrito, mas lembro perfeitamente o seu nome ‘Não seja vítima do seu passado’; eu também me lembro que em um dos seus trechos tinha algo escrito mais ou menos assim: Pense na lição que aprendeu, nas descobertas que fez, no que sentiu e como solucionou, sempre buscando a melhoria nos dias atuais. Não se vitimize em relação ao seu passado e não se envergonhe pelo que aconteceu ou pelo seu desempenho diante de algumas situações que tiveram desfechos ruins, pois viver é isso, uma desconstrução constante com objetivo de construir mais. Analise tudo que sempre te ocorreu e tire o melhor do pior. Lembrei desse manuscrito enquanto assistia The Game’s True Nature sexto episódio de Black Earth Rising. Kate e o seu novo escudeiro, o informante das catacumbas, agora nomeado de Florence Karamera (Emmanuel Imani), retornaram a Ruanda, terra que os encanta e assombra ao mesmo tempo. Descobrimos que, tanto Kate quanto Florence guardam um passado em comum, ambos são sobreviventes do massacre, adotados por outros países e em busca da sua própria história. Mas antes de falarmos sobre essa incursão ao solo africano, precisamos entender em que pé está toda essa conspiração, precisamos falar sobre a tentativa de assassinato de Alice Munezero e sobre as manipulações feitas por David Runihura.

A mãe de Kate foi morta em uma emboscada em frente a um dos tribunais mais respeitados do mundo, mostrando que não há limites que não possam ser quebrados por aqueles que conspiram contra a ordem vigente. O encontro entre Kate e Alice Munezero no restaurante transcorria tenso, mas dentro do esperado. Em algum momento da conversa eu percebi que aquela mulher não estava muito bem, algo havia atingido a articuladora em cheio. Atentaram contra a vida de Alice usando um dos mais antigos recursos dentro do ramo da conspiração, o envenenamento. Por sorte, Alice é uma mulher muito traquejada e acostumada a ter um alvo em suas costas, ao perceber a tragédia iminente a mulher correu para o banheiro com a intenção de se livrar do que tinha acabado de ingerir, por uma fração de segundos e graças a intervenção de Florence a mulher não morreu. Creio que Patrice Ganimana orquestrou todo esse atentado para eliminar Alice, já que ele sabe que ela é capaz de desarticular todos os seus planos. Não confio muito no marido de Alice, sei que ela entregou para ele a sua apólice de seguro, um gravador com um material que pode mudar o rumo dessa história, mas levando em consideração o fato dele ter aceitado um carro de presente de forma suspeita, não sei até que ponto ele é o guardião mais adequado desse material. Da mesma forma que não sei se confio em David como guardião do arquivo Ganimana.

Apesar de ter sido acolhida pela Inglaterra desde tenra idade, Kate busca o seu pertencimento étnico-racial, ela não se encaixa. A filha de Eve sabe muito pouco sobre o seu local de origem ou sobre a sua própria história. Finalmente, após muitos ajustes, Kate foi para Ruanda, não só em busca de evidências jurídicas que comprovem que aquele tribunal é capaz de julgar um criminoso do quilate de Patrice Ganimana, mas também ela busca respostas que possam preencher a imensa lacuna em branco da sua própria vida. O momento em que Kate entrou na igreja foi simplesmente devastador, emocional e sufocante. Igualmente a ela, eu me senti tocada profundamente pela lembrança das centenas de pessoas que foram mortas ali, que tiveram os seus corpos violados pelo esquartejamento, sendo deixados para a putrefação e o esquecimento naquele local que deveria ser sagrado e intocável. Ela foi às lágrimas, eu também. Ela chorou copiosamente, eu também! Aquele lugar era uma igreja, aquelas pessoas que se diziam representantes de Deus na terra tinham a obrigação moral de proteger e consolar aqueles desvalidos abrigados sob aquele teto. Ao contrario disso, criaram uma verdadeira armadilha para aquelas criaturas desprovidas de sorte. Levou 22 anos para que os bispos de Ruanda enfim pedissem perdão pelo envolvimento da Igreja Católica no genocídio do país africano que matou quase um milhão de pessoas, na ocasião do massacre, alguns padres, clérigos e freiras chegaram a matar pessoas que tinham procurado refúgio em suas igrejas. Em uma carta aberta publicada em 20 de novembro 2016 a igreja reconhece que compactuou com crimes de ódio e que fez distinção entre hutus e tutsis.
“Pedimos perdão por todos os males cometidos pela Igreja. Pedimos desculpas em nome de todos os cristãos por todos os erros que cometemos. Lamentamos que tenha havido membros da Igreja que violaram seu juramento de fidelidade aos mandamentos de Deus… Perdoa-nos pelos crimes de ódio no país na medida em que nós odiávamos nossos companheiros por suas origens étnicas. Não mostramos que somos uma família, mas sim que nos matamos entre nós…”

Entra em cena um novo personagem, não que nós já não o tivéssemos visto em cena antes tentando mante Kate viva, só que agora, o enigmático rosto do informante das catacumbas não só ganhou um nome e um sobrenome, Florence Karamera, como também ganhou uma história. Que na verdade é uma história tão triste quanto a de Kate. Por sorte, Florence esteve presente tanto no momento em que Kate chegou em Ruanda e passou mal dentro do carro, como durante a sua ida a igreja do massacre. O rapaz compartilha da mesma dor que a filha de Eve; ele também é apenas um peão dentro desse jogo de xadrez. Florence ainda acumula um agravante muito maior, ele é um hutu, portanto, está do lado errado da história e sente-se culpado por tudo de ruim que aconteceu no seu país de origem. O rapaz trabalha para Eunice Clayton (Tamara Tunie) e a sua principal missão é manter Kate a salvo. Acho interessante como o elenco de apoio dessa série é muito habilidoso e, mesmo o ator Emmanuel Imani que eu imaginei que não teria uma participação tão efetiva na trama, mostrou uma expressão carregada de drama e desconforto ao ser confrontado por David. Senti a agonia e a culpa nos olhos do rapaz ao ser lembrado que a sua etnia foi responsável por um dos maiores massacres que Continente Africano já presenciou. Posso não concordar com os métodos de Florence, mas compreendo que ele foi cooptado pelas milícias ainda criança e depois de adulto ele foi levado a se juntar a organizações escusas americanas com finalidade pouco legal e ética.
Achei interessante a analogia feita pelo político para Michael sobre Alice e Bibi, comparando-as a Maria, também conhecida como Maria Stuart, Rainha da Escócia e Elizabeth I, rainha da Inglaterra e da Irlanda. Ambas eram primas, viviam em meio a conspirações e golpes políticos. Elizabeth, era enérgica e autoritária, temendo conspirações, aprisionou Mary Stuart, sua rival que orquestrou uma tentativa de assassinato contra ela e mandou decapitá-la em 1587. Sinto que algo muito sério ainda vai acontecer entre as irmãs Alice e Bibi, talvez os acontecimentos futuros mudem a configuração política de Ruanda e dos países com interesses afins.
> SMALLVILLE, uma série que me MARCOU!
Faltando apenas dois episódios para finalizar a sua temporada, Black Earth Rising nos entregou um capítulo extraordinário, com uma excelente fotografia, uma trilha sonora eficiente e algumas reviravoltas que mudaram mais uma vez o rumo da trama.















![Black Earth Rising 1×08: The Forgiving Earth [Season Finale]](https://seriemaniacos.tv/wp-content/uploads/2019/02/Black-Earth-Rising-1x08-218x150.jpg)