Bill e Barb, a relação especial que chegou ao fim.

Spoilers Abaixo:

Desde o começo da série a relação entre Bill e Barb é a que mais se aproxima de um casal na teoria. Como Nicki e Margene nunca foram muito estáveis quanto a suas posições matrimoniais, sempre coube a Barb dar o apoio necessário a Bill em seus momentos difíceis, por isso não há trama mais interessante nessa temporada do que a decisão de Barb de se divorciar de Bill. Se no começo a razão da desunião seria a adoção de Cara Lynn por Nicki e Bill (que deveriam ser legalmente casados), agora a questão passa a ser doutrino-religiosa, já que Barb acredita que recebeu o sacerdócio divino e tem direitos iguais ao de Bill aos olhos da hierarquia mórmon, e claro que Bill não aceita isso de forma alguma. Barb chega até a procurar a mórmon vanguardista Renee Clayton que acredita na igualdade entre homens e mulheres em respeito às responsabilidades e conceitos propostos por Joseph Smith (com direito à volta da mãe de Barb, sempre muito bem interpretada por Ellen Burstyn), mas Bill é inflexível a esse fato. Como bem mostrou o fim do quinto episódio, isso é uma coisa que Bill não pode oferecer à esposa, então de uma forma clara Barb mostra que dessa forma ela também não teria mais nada a oferecer a Bill.

Se a série fosse somente sobre esse “ritual de passagem” de Bill e Barb seria o suficiente, até porque também tivemos a participação de Nicki, que se mostrou totalmente contrária à ideia de Barb continuar a cuidar ativamente dos assuntos domésticos (posição que a personagem sempre sonhou em estar por completa submissão a Bill), e até Margene, que divide o horrível plot da venda no esquema da pirâmide com suas engraçadas intromissões inocentes nas conversas alheias. Mas não, já que agora é hora de falar do show de horrores que foram essas aberturas de novas storylines românticas que infelizmente correm o risco de permanecerem na série até o fim.

Cara Lynn e seu professor de matemática: embora seja interessante a visão determinista da série com a nossa heroína, já que ela saiu de um ambiente em que se casaria à força com um homem mais velho e longe de lá acaba se apaixonando exatamente por um homem mais velho (e me surpreende Nicki estar completamente cega a essa possibilidade), esse romance veio de uma forma abrupta (alguém mais viu o beijo citado por ela ou eu tenho memória ruim?), mal desenvolvida e cheia de clichês, como se a série quisesse somente implantar essa ideia sobre a preferência amorosa da personagem sem nenhum desenvolvimento profundo.

Ben e Rhonda: A forma como Heather saiu da série foi muito grotesca e mal-feita, e o pior é que os roteiristas da série fizeram isso pela inércia de provocar um romance entre ele e Rhonda, que não tinha nada para fazer na série e agora tem. Lógico que é sempre bem-vinda uma cena onde a “inocente” mórmon faz uma performance no antigo cassino de Bill (coincidência ou reaproveitamento de cenário?) só de roupas íntimas, mas aonde vai levar esse romance banal e sem futuro, e o pior: quem se importa com isso?

Alby e Verlen: como eu havia dito, os roteiristas não perderam tempo e nem gastaram a criatividade criando mais um conflito homoerótico para Alby, agora com o interesseiro marido de Rhonda. Alby contratou Verlen para matar Don, o sócio de Bill, e embora não tenha atingido sua meta, Verlen mostra que realmente está disposto a tudo pelo dinheiro de Alby, em uma cena que mostra claramente a posição desesperadora em que ele se encontra. Se ele soubesse o que a esposa anda aprontando…

E aqui também cabe um adendo que eu percebo desde a quarta temporada, que é a maneira fraca e subjetiva que a série trata o tema da homossexualidade na religião mórmon. Alby está longe de ser aquele personagem cheio de camadas e com tamanha intensidade como se viu, por exemplo, em David Fisher de “Six Feet Under”. Entre a contenção dos sentimentos e a divisão de airtime com vários (vários!) personagens, Alby nunca chega a demonstrar alguma reflexão sobre sua sexualidade e como isso afeta sua vida e seus atos, e agora isso se repete em seu romance com Verlen, e ficou ainda mais evidente com a participação de Ellen Burstyn que condena com veemência Renee Clayton antes de mais nada, por seu lesbianismo, e a certeza de que isso não será refletido posteriormente na série confirma mais minha teoria.

Mas ainda existe outro fator relacionado a isso que é de que desde a primeira temporada existe uma correlação entre a luta de Bill para conseguir legalmente a aprovação do casamento polígamo com a luta pela legalização do casamento gay. Para quem não sabe, os criadores da série Mark V. Olsen e Will Schefer são companheiros há muito tempo, e por isso essa correlação sempre fora apontada, mas veja os danos que a criação de um personagem ruim causa: nesse exato instante na série, mesmo que eles insistam em negar, a luta de Bill no senado vem se mostrando errônea em sua concepção pela agressividade dele como político, e pela necessidade constante de salientar de que está nessa empreitada pela simples certeza de que suas convicções políticas o guardam de qualquer julgamento “humano” (o triste fato de que se Bill não fosse tão fanaticamente religioso, talvez não estaria dando a cara à tapa de uma maneira tão corajosa). E agora, como os criadores da série farão essa ponte entre o conteúdo da série e esse tabu da sociedade, se a única força que faz Bill seguir em frente é a mesma força que luta abertamente CONTRA o casamento gay? Aonde foi parar a redenção doutrinal de Bill após o magnífico episódio “Come, Ye Saints” da terceira temporada que mostrou para o polígamo que sua fé estava extrapolando os limites do razoável? Veremos como eles irão sair dessa enrascada.

Artigo anteriorAudiência da TV a cabo: 13/01/11 a 17/02/11
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