Um trecho da música que toca na abertura de Big Little Lies me chamou a atenção: “Você já percebeu? Estive envergonhado por toda a minha vida. Tenho praticado jogos. Podemos tentar esconder isto. É sempre igual. Estou te perdendo. Um dia após o outro”. A canção fala sobre ter que suportar um relacionamento que se esfriou e encontrar forças para sobreviver mais um dia neste cenário de falsidades. E nada melhor do que esconder isso com pequenas (grandes) mentiras. Big Little Lies consegue ser muito mais do que descobrir quem matou quem. As gigantescas mansões do show não foram escolhidas aleatoriamente. Elas são belíssimas fachadas para esconder todas imperfeições familiares. As casas sustentam os muros que dividem a vida dos personagens em dois estados: o público versus privado. Mas de que adianta vender uma vida perfeita para os outros, se internamente você está sendo injusto consigo mesmo?
Celeste é a personagem que mais venho torcendo desde a premiere. Não só pelo fato de vir sofrendo abusos gradativos, mas também pela ótima atuação de Kidman (o que já cansei de elogiar). Ela consegue ao mesmo tempo me fazer rir aliviado ao se defender com uma raquete, e chorar desesperadamente ao ver seu olhar cavando a tão sonhada liberdade. Mas ela só alcança esse ponto ao ver Perry proferir com firmeza: “Você é sortuda por eu não ter te matado”.
Diversos relacionamentos abusivos dispõem de um ciclo cheio de padrões que se repetem até chegar num ponto extremo. A vítima chega a pensar que dentro desses padrões ela conseguirá “consertar”o abusador. Por isso a terapia e por isso o pensamento constante de que tudo aquilo poderia ser restaurado como antes. É importantíssimo para um show desse nível mostrar uma personagem (que representa tantas mulheres que passam pelo mesmo) alcançar um parecer individual de que a pessoa que mais ama pode em algum momento tirar sua vida. E infelizmente isso é uma realidade bem mais próxima do que imaginamos.

O silêncio de Nicole Kidman consegue dizer muito mais do que anúncios institucionais sobre violência doméstica. E somente com a belíssima performance dela que é possível identificar o momento exato que Celeste decide salvar sua própria vida (com a ajuda da terapeuta claro). Não se trata apenas de se distanciar do abusador, mas colocar em primeiro lugar a pessoa mais importante aqui: ela mesma. Reconhecer que existe um monstro na sua família pode ser difícil no início e bastante estarrecedor. Por isso que é essencial se afastar, observar com a cabeça mais limpa e compreender que uma vítima como ela precisa de um lugar seguro no mundo.
Enquanto isso Madeline continua projetando uma vida perfeita para Celeste que só existe na mente dela. Por estar se sentindo tão invisível na sua família e com a distância de Abigail/Ed, ela mentaliza vidas que deram certo ao contrário da sua. Madeline ganhou diversas oportunidades para revelar ao marido sobre a traição com Joseph mas desperdiçou todas. E na contramão de tudo o que acontece é mais especial e chocante ainda. Ao descobrir sobre o projeto secreto de Abigail, ela desmorona. Ao invés de uma terapeuta vemos uma filha sentada num balanço ouvindo todas as frustrações de uma mãe cansada de mentir pra si mesma. A vida dela não é perfeita. E afirmar aquilo em voz alta era tudo que Madeline precisava. Especialmente nesse episódio Reese Witherspoon atingiu todas as camadas possíveis que sua personagem poderia obter e trouxe cores de Madeline que eu nem imaginava. Um trabalho maravilhoso!

A cena do jantar foi bem articulada. Achei ótimo ver a diferença das duplas e como esse choque familiar pode gerar um pandemônio cheio de desconexões. Bonnie trata a questão familiar assim como cuida de suas plantas, paciente e delicada. Enquanto que Madeline (com suas razões) vomita de raiva/susto ao assistir sua família ruir aos poucos. Tivemos também mais espaço de tempo para conhecermos o ambiente que Nathan e Bonnie convivem. Abigail certamente foi atraída pela leveza do lugar para poder arquitetar melhor seu projeto secreto. Os Carlson vivem num lugar que – apesar da falta de muros e estar rodeado de natureza – está sujeito a pequenas intrigas por ainda ter raízes nos formatos familiares tradicionais herdados por Nathan. Se esta família está relacionada ao que acontecerá na festa não sei dizer. Mas a narrativa não exibiria esta confusão em vão…
Jane Chapman, diferente de Madeline, conseguiu desenvolver melhor suas batalhas e sair ilesa (pelo menos por enquanto) de mais confusões. Adorei a cena dela com Renata, principalmente por ter deixado bem claro que a mesma poderia encarnar o clichê das mulheres que assumem o papel de vilãs mas se restringiu apenas em ser uma mãe preocupada com a saúde física/mental da filha. Preciso salientar as diversas camadas interpretativas que Laura Dern fez com Renata e ofereceu cenas que contrapôs muito bem com o auto-controle de Jane. As duas se reconciliando foi ótimo para intercalar com os diálogos da investigação. Ninguém acreditou ao ver as duas “de boa” com tudo. E ninguém realmente acredita que tudo esteja completamente resolvido. Mais um mistério a ser revelado…
E por falar em mistério. Agora que sabemos que o tal Saxon Banks que Jane encontrou não é o estuprador, a lista de suspeitos aumenta (e muito). Em primeiro lugar tempos Perry com seu histórico violento, mas também pode ser Joseph (o amante de Madeline) e até mesmo aquele cara do Píer. Em todo caso esse plot é um grande candidato a ser o grande motivo do homicídio na festa e mal posso esperar para descobrir tudo! Estou terminando de ler o livro e confesso que até o momento das revelações finais teremos muitos twists no caminho…
Estou tão admirado com Big Little Lies que somente uma cena de Chloe e Ziggy correndo livres (inserida no meio do episódio propositalmente) já é suficiente para compreender a sagacidade do roteiro em evidenciar dois mundos tão próximos e distantes ao mesmo tempo. As crianças não ligam para discussões complexas. Ziggy e Chloe não têm noção do que está acontecendo ao seu redor. Afinal eles possuem apenas 6 anos. Ambos visualizam o universo que vivem como um gigantesco parque de diversão e se algo estiver errado a única reação é chorar freneticamente até algo ser consertado. As vezes até agem como pequenos advogados fazendo perguntas com o objetivo de alcançar as repostas que tanto desejam. Os adultos por sua vez acumulam todas as respostas na garganta para no futuro explodir precipitadamente. Infelizmente, o mundo de quem amadurece demais é bem mais frio, incolor e sombrio do que aparenta ser.
Burning Love foi um capítulo que mostrou as primeiras rachaduras da parede que os habitantes de Monterey constroem todo dia. Um muro que está prestes a cair. Tudo isso graças a três protagonistas convictas em enfrentar todos os componentes destrutivos que suportaram até aqui. Elas anseiam por consertar suas vidas ao mesmo tempo em que assistem suas estruturas familiares deslizando pelos dedos como grãos de areia. E na frente delas um mar violento pronto para chocar tudo e todos.
PS1: Com apenas a finale chegando acho inviável fazer o placar de assassino e vítima. Já tivemos motivos suficientes para suspeitar de várias pessoas, alguns mais que outros.
PS2: Madeline brilhou com aquele vestido florido no jantar.
PS3: O que falar dessa trilha-sonora? Um dos maiores presentes que a minissérie me proporcionou. Quem ainda não ouviu “Cold Little Heart” completamente, precisa ouvir. E logo!
PS4: Perry e seu truque irresistível (seguido do acidente) me fez rir demais.
PS5: Estamos perto demais de se despedir dos personagens de Monterey e suas mansões com vidas e mentiras se entrelaçando como flores espinhosas. E que venham todas as revelações!















