Uma transição que vai ganhando em intensidade.
A cada semana fica mais claro que a segunda temporada de Better Call Saul visa estabelecer uma transição para seus personagens principais, de mocinhos com ética questionável para vilões ameaçadores. Claro, conhecemos Saul Goodman e Mike Ehrmantraut no contexto subvertido de Breaking Bad, onde, os víamos como boas pessoas por conta do fenômeno da identificação utilizado brilhantemente por Vince Gilligan. Mas se há algo de fato bom nos dois personagens isso pode ser visto em Better Call Saul. O primeiro ano da série tem como objetivo principal estabelecer relações e construir um universo. Agora, no entanto, é hora de tratá-los com o destino que já sabemos. Isso pode ser visto nos dois primeiros episódios da temporada, mas ganha contornos claros em Amarillo e Gloves Off.
A começar por Mike, cujo desenvolvimento até aqui vinha sendo pautado mais em seus conhecimentos sobre como acobertar crimes e buscar discrição. Em Amarillo, ele é finalmente desafiado a rever seus conceitos e aceitar trabalhos que prevejam mais violência, ao invés de simplesmente ameaças e inteligência. Para garantir melhores condições à vida de sua neta, ele decide que precisa dar um passo além. É interessante que Better Call Saul traça um paralelo entre a situação de Mike e o que motiva Walter White a seguir a mesma vida alguns anos depois. Mais do que isso, a série faz questão de mostrar que ele sabe que Stacey está mentindo quando diz ter ouvido tiros, e está apenas se aproveitando da boa vontade do sogro. Mesmo assim, Mike não hesita em buscar uma vida melhor para Kaylee.
No entanto, ele ainda é movido por um código de honra que será perdido ao longo dos anos. Ao ser chamado por Nacho para se livrar de Tuco Salamanca em Gloves Off, o roteiro de Gordon Smith mostra Mike hesitante sobre o êxito do projeto, impondo restrições a todo momento, em uma atitude típica de alguém inseguro com uma situação, contrapondo-se ao personagem que conhecemos que encontra soluções para qualquer problema envolvendo gangues, carteis e crimes em geral. Note que, mesmo quando finalmente aceita o trabalho, propõe fazê-lo usando um rifle, tornando o crime o mais impessoal possível, já que não teria que ter qualquer contato com a vítima. Mesmo assim, quando se encontra com Lawson (o mesmo que venderá uma metralhadora e uma .38 a Walter White dali a alguns anos), vê o traficante de armas se referir várias vezes a “alvos fáceis” enquanto faz seu discurso de venda, tornando Tuco cada vez mais humano aos olhos de Mike, o que o faz desistir do trabalho.
O que acontece depois é consequência do torto código de honra dele. Inteligente, consegue convencer Nacho que matar Tuco seria um má ideia (o futuro mostrará que ele está certo). O que nos leva ao momento em que ele praticamente implora para que seu alvo o bata para que seja preso e suma do mapa por alguns anos. Ali, o diálogo com Nacho é preciso. Por muito menos trabalho e muito menos dor, Mike poderia ter ganho o dobro do dinheiro. Esse é provavelmente o ponto de inflexão que fará com que o personagem deixe de ter toda a cautela que tem, se realmente quer que sua neta tenha uma vida melhor que a atual, já que Stacey é visivelmente uma aproveitadora.
É claro que, ainda que a narrativa seja sublime como de costume no que tange à personalidade de Mike, tanto Amarillo quanto Gloves Off tem alguns problemas na forma com a qual essa é conduzida. No primeiro episódio, Better Call Saul busca com enorme desejo criar tensão no espectador ao esconder o nome de quem procurara Mike para o serviço. Possivelmente tentando criar a expectativa de vermos Gus ou outro personagem importante, a série se esquece que, àquela altura, a única pessoa que chamaria Mike que poderia fazer sentido seria Nacho.
Já Gloves Off apresenta um problema que se desenha ao longo da narrativa. Em geral, flashforwards em cold opens são extremamente invasivos. No entanto, Better Call Saul o desenha muitíssimo bem ao utilizar a condição física de Mike para mostrar que aquilo se passa em um momento futuro. Mas ao longo do episódio essa projeção começa a tornar desfechos óbvios e os fazem perder impacto. Além da previsibilidade natural de sabermos que Tuco não morrerá, a ideia de Mike se torna evidente a partir do momento em que ele começa a falar com Nacho sobre seu plano, fazendo com que tudo perca grande parte do impacto.
Uma vez concluída a história de Mike, falemos então de Jimmy. Amarillo e Gloves Off combinam para a elaboração do protagonista como um advogado que não se importa com regras. A começar pela cold open do primeiro, que se passa no Texas. Ali, seu discurso não chega a ser ilegal, mas ele leva outras pessoas a perguntarem sobre o assunto, além de ter que subornar um motorista. Exatamente por esse motivo, não revela essa cena quando questionado por Chuck. De novo, Better Call Saul busca usar Kim como contraste com o irmão de Jimmy, mas dessa vez de forma ligeiramente diferente. Scott Winant, que dirige Amarillo, usa o mesmo traveling de câmera que vemos em Cobbler, mas para mostrar que a advogada, dessa vez, desaprova a técnica de Jimmy, muito por conta do que o namorado vez para livrar um cliente da cadeia.
Então, Jimmy resolve apelar para a televisão (algo que fará com frequência como Saul Goodman), usando os mesmos moleques de quando usou a mídia para interesse próprio em Hero. Nesse ponto ele ignora qualquer regra para atingir seus resultados, já que tem escapado impunemente desses desvios de conduta (lembra-se do interruptor em Switch?), e, quando é finalmente confrontado por isso, não quer que Kim fique sabendo de seu fracasso. Aliás, o plano em que Jimmy conversa ao telefone com Cliff enquanto a namorada assiste pacientemente a um filme é fantástico, em que Winant usa a parede que separa a sala do corredor como um limite também emocional entre os dois, simbolizando o isolamento que Jimmy cria.
Mas, quando vê que Kim é prejudicada por suas ações, Jimmy vai defendê-la. Nesse aspecto, é interessante perceber algumas situações simples. Primeiro, que seu primeiro reflexo ao quase ser demitido é procurar a namorada. Além disso, quando ele vai até a HHM, note que ele não se preocupa em mentir para o zelador, e o faz tão naturalmente que sequer percebe estar descumprindo mais regras para conseguir entrar no prédio.
Eis que chegamos a seu conflito com Chuck. Desde o começo da temporada, Better Call Saul tem buscado antagonizar o mais velho McGill como uma forma de estabelecê-lo como o grande motivo para que Jimmy não possa ser o advogado que sempre sonhou. E isso parece claro em Amarillo, quando ninguém questiona seus métodos para conseguir novos clientes, e ele ainda assim decide estender o assunto para que isso seja explicado, como se não se conformasse com o fato de que Howard compactua com essa metodologia de “o fim justifica os meios”.
No entanto, Gloves Off mostra que o ressentimento de Chuck vai além do fato do irmão ter estudado à distância e não ser um “advogado de verdade”. Quando Jimmy vai à sua casa confrontá-lo, ele simplesmente diz ao irmão que o problema no comercial não está na imagem que isso passa para o escritório, e sim no fato de que ele o fez passando por cima de seus chefes. Better Call Saul tem sido sólida nesse aspecto, mantendo-se consistente com a mensagem que pretende passar para seu espectador, e usa Chuck como voz da razão ao não permitir que o personagem aceite o acordo proposto por Jimmy, ainda que jamais pudesse ser pego por isso. É exatamente essa a mensagem de Gloves Off. Não importa se há chance de ser pego ou não, infringir as regras é errado em qualquer situação.
Mas é claro que Jimmy não vai ouvir. Mike já não ouve. Walter White não ouvirá. Nesse universo, seguir as regras é exceção.














