Todo ator que construiu sua carreira calcada em blockbusters, em um determinado momento vê a necessidade de fazer a transição para o que a indústria considera “atuação séria’’. Enquanto alguns obtiveram êxito ao encontrar esse ponto de inflexão – como Julia Roberts ou George Clonney, por exemplo – outros apenas patinaram em filmes que se consideravam ‘‘relevantes’’, mas que falharam ao trazer a eles o prestígio esperado. Will Smith, infelizmente, está há mais de dez anos inserido no segundo grupo. Alternando entre filmes de ação que já não fazem tanto dinheiro – vide a horrorosa vitrine disfarçada de filme usada para promover seu filho que foi Depois da Terra (After Earth, 2013) – e dramas absurdamente vazios em conteúdo – mas que tentam provar sua importância a cada cena – como é o caso de Beleza Oculta (Collateral Beauty, 2016). Aqui, o astro se aproxima da meia idade como uma caricatura da promessa que foi um dia.
Beleza Oculta conta a história de Howard (Will Smith), um publicitário nova-iorquino que leva uma vida perfeita até o dia em que sua filha de cinco anos morre. Depois da tragédia, Howard entra em depressão e passa a escrever cartas para a morte, o tempo e o amor, algo que começa a preocupar seus amigos. Mas o que parecia impossível, acaba por se tornar realidade quando estas três partes do universo decidem responder, a Morte (Helen Mirren), o Tempo (Jacob Latimore) e o Amor (Keira Knightley).

Pela sinopse, podemos perceber que esse é um daqueles filmes que deixaria até Spielberg constrangido devido a sua obsessão em provocar lágrimas. E se o seu principal objetivo é fazer com que nos emocionemos com a história de Howard, é incompreensível que o longa perca tanto tempo – praticamente toda a sua primeira meia hora – focando na reação de seus três amigos (vividos por Edward Norton, Kate Winslet e Michael Peña) que apenas observam a decadência do sujeito enquanto os dramas pessoais de cada um se desenvolvem. Quando Beleza Oculta finalmente nos mostra mais sobre seu protagonista, a construção óbvia e preguiçosa de Will Smith nos faz desejar que o foco volte a ser o anterior. Absolutamente tudo está errado em Howard: desde sua composição física – como alguém que está sem comer nem dormir direito há dois anos pode manter o porte físico do Pistoleiro do Esquadrão Suicida (Suicide Squad, 2016)? Até suas expressões, já que o veterano ator parece ainda não ter aprendido que fazer cara de bebê chorão e pingar colírio nos olhos não é sinônimo de atuação.
O restante do elenco até se esforça para entregar performances interessantes, mas são sabotados cada vez que precisam abrir a boca. Chega a ser deprimente ver Edward Norton e Kate Winslet, dois dos melhores atores da sua geração, declamando falas que parecem saídas de um capítulo de Maria do Bairro (‘‘Quando eu a segurei nos meus braços, eu não senti amor. Eu era o amor’’). Já Helen Mirren, Keira Knightley e Jacob Latimore se vêem sem saída, diante de personagens que já foram concebidos como representações de estereótipos. E se a idéia de colocar a Morte quase sempre vestindo tons de roxo, e o Amor tons de vermelho, pode soar interessante isoladamente, dentro de um filme que carece tanto de sutileza, esse artifício acaba apenas contribuindo ainda mais para a unidimensionalidade dos personagens.
Provando que nem o próprio filme confia na sua força dramática, ele faz questão de encerrar não apenas com uma, mas com duas reviravoltas que são atiradas ao espectador num intervalo de menos de cinco minutos. Uma delas é extremamente previsível, enquanto a outra nos conta algo que poderia ter sido informado no inicio da projeção e foi ocultado – de maneira bastante forçada – só para a ‘‘surpresa’’ do final tentar provocar o impacto que faltou nas duas horas anteriores. A verdade é que a única surpresa surge caso pensarmos na maneira como aquele jovem carismático e talentoso de Um Maluco no Pedaço chegará aos cinquenta. Nesse ponto, o filme cumpre seu objetivo. Realmente me faz querer chorar.












