Se você é fã de série e nunca sequer ouviu falar em Twin Peaks: Shame on you!

Spoilers Free:

Antes de Lost e The X-Files sonharem em existir, Twin Peaks já cercava suas tramas de mistérios e pistas a serem decifradas. Os fãs de Twin Peaks foram os primeiros a se reunirem em fóruns para discutir os mistérios da série, ainda nos primórdios da internet. Eu poderia dizer que Twin Peaks é um marco na história da televisão ou qualquer clichê assim, mas vou dizer apenas que depois de assistir Twin Peaks é impossível não enxergar um pedacinho dela em (quase) tudo que nós assistimos hoje.

A série teve um papel importante na evolução da narrativa para a TV. Até os anos 1980 as séries se resumiam a episódios soltos, isolados, a trama começava e terminava em um único episódio e tinha muito pouca ou nenhuma sequência no restante da temporada. Quando Twin Peaks estreou em 1990 a narrativa das séries começava se aproximar do que já acontecia nas novelas, a história era contada em arcos que podiam levar vários episódios para se resolverem. Além disso, as tramas começaram a ficar mais complexas, a acompanhar vários personagens e tramas simultaneamente.

Se qualquer um de nós fãs de seriado assistir Twin Peaks hoje é provável que a trama pareça bem mais simples que a descrição de alguém que tenha visto o seriado nos anos 1990. Nós espectadores aprendemos ao longo dos anos a acompanhar esse tipo de trama e as narrativas das séries ficaram cada vez mais complexas. Coube a Twin Peaks e suas contemporâneas ensinarem um público acostumado a seriados simples de episódios avulsos, a acompanhar narrativas complexas e que exigiam uma dedicação maior do expectador.

Bem, mas sobre o que é Twin Peaks exatamente?

A série começa com o assassinato da jovem Laura Palmer e a chegada do agente do FBI encarregado do caso, Dale Cooper à pequena Twin Peaks. A trama das duas temporadas se desenrola em torno dos peculiares métodos de investigação de Cooper e dos muitos segredos que os moradores da cidade escondem. Tudo isso, claro, recheado com grandes doses de insanidade dos criadores David Lynch e Mark Frost que trazem para trama, anões, gigantes, dimensões paralelas e muito mais (é melhor não spoilar muito).  A melhor definição de Twin Peaks para mim é a de Mark Frost quando ele diz que ela é uma soap noir (novela noir).

Twin Peaks nasceu para ser cultuada. Ótimos diálogos, um grande mistério cercado de pistas que na maioria das vezes só confundiam os espectadores e uma galeria espetacular de personagens. Dale Cooper, o agente do FBI que faz o Mulder de Arquivo X parecer cético – aliás, David Duchovny participou da série travestido de mulher; Bob, o personagem mais assustador da TV e isso não é spoiler – juro que tenho medo de verdade dele; Audrey a adolescente mimada que eu achei que iria odiar e acabou se tornando minha personagem favorita; a Log Lady, ok essa só assistindo…

Por pressão dos executivos da ABC a série acabou revelando o assassino da Laura Palmer na metade da segunda temporada e a Twin Peaks acabou se perdendo um pouco depois disso. A resolução do caso foi perfeita, mas foi muito cedo na trama, a história do assassinato sem dúvida poderia ser explorada por mais algumas temporadas. Frost define com perfeição mais uma vez quando diz que o caso da morte da Laura era a galinha dos ovos de ouro e eles a mataram. Para o bem o para o mal a TV aprendeu sua lição, séries como Arquivo X e Lost seguraram seus mistérios até o último instante possível.  Mas, voltando a Twin Peaks, além da morte da galinha, a metade final da segunda temporada precisou lidar ainda com o afastamento de ambos os criadores do programa evolvidos em outros projetos e a série se perdeu em plots que, se não causavam sono, ultrapassavam todos os limites de insanidade (mesmo para os padrões de Twin Peaks).

Com Lynch e Frost de volta à sala de roteiristas, entretanto, o episódio final foi sensacional, compensou pela queda de qualidade dos episódios anteriores e deu um gosto amargo ao cancelamento. Depois de revelado o assassino o público geral – o americano de 1,70 sabe? – perdeu o interesse e a audiência caiu bastante, mas o final nos deixou com um bom cliffhanger e muita vontade de ver mais Twin Peaks. Ao contrário de muitos leitores traumatizados – pelo menos os que comentaram no Top 5 em que citei a impossível volta de Twin Peaks – eu não acredito que se ela tivesse continuado teria “decepcionado seus fãs como Lost” (palavras dos leitores não minhas, eu nem assisti o fim de Lost). O universo de Twin Peaks tem menos regras que o de Lost. É tudo tão insano que é difícil cruzar a linha do aceitável tanto que não se possa voltar.

Não vou entrar em mais detalhes porque é um sacrilégio soltar spoiler de Twin Peaks. Se você não assistiu e não está assustado com o pouco que revelei, eu recomendo que assista. É o tipo de série que todo o série maníaco deveria assistir, mas ao mesmo tempo não é uma série que todos sabem apreciar.

PS. Importante dizer que como Twin Peaks foi cancelada o final deixa pontas soltas. Se você tem problemas graves ou algum tipo de trauma com essa situação é possível largar a série no episódio em que o assassino é revelado. Ele fecha direitinho a série e não deixa cliffhangers.

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