Uma oportunidade rara para falarmos de política no mundo das séries.

Criada por Aaron Sorkin e exibida pela NBC de 1999 até 2006 o drama político sobre a Ala Oeste da Casa Branca, o centro nervoso do governo federal dos EUA, faturou 26 emmys durante a sua trajetória, entre os quais estão quatro emmys de melhor série e sete emmys para melhores atuações, e várias outras dezenas de nomeações para o Emmy e nomeações e vitórias em outras premiações, compondo o que é certamente um dos currículos mais impressionantes da televisão.

Depois do seu fim a série ainda é reverenciada por críticos e considerada por muitos como uma das melhores séries de todos os tempos. Na minha lista The West Wing perde apenas para The Wire, por isso não posso evitar comparar as duas. The West Wing foi idolatrada por uma larga base de fãs e reconhecida pela crítica durante a sua produção enquanto que The Wire encontrou o seu devido lugar no altar de séries apenas depois do seu fim, e agora as coisas se inverteram com The Wire sendo a figura recorrente como a melhor ou uma das melhores séries de todos os tempos em várias listas sobre o assunto, e The West Wing, embora ainda tida em alta conta, quase nunca ocupando uma posição superior ou similar a The Wire. Há algumas explicações para isso, uma é de que The West Wing possuiu muito mais episódios e como consequência muito mais espaço para errar. Tramas descontinuadas ou subaproveitadas, desaparecimento de personagens, a saída de Sorkin do comando da produção e quedas na qualidade de posteriores temporadas fizeram parte da jornada da série que também conta com o negativo fator de ter começado forte demais e nunca ter conseguido se superar a não ser talvez pela última temporada que apresentou uma dinâmica diferenciada do restante da série. Mesmo assim The West Wing a semelhança de The Wire fez algo extremamente inteligente e único e deixou um espaço ainda a ser preenchido na televisão.

O que faz de The West Wing algo grandioso é a forma como ela consegue ensinar política e entreter ao mesmo tempo. Altamente didática a série é uma das poucas ou talvez mesmo a única série da qual possa se falar que a experiência de a assistir equivale a experiência de assistir a uma aula com um grande professor, e similarmente ao que acontece na sala de aula para o pleno aproveitamento do conhecimento exposto na série é necessário que o telespectador realize pesquisas e estudos por conta própria. Isso é verdade principalmente para nós estrangeiros que se a assistirmos com a devida atenção e diligência podemos vir a acumular um conhecimento sobre a política americana que é maior do que aquele que o americano médio possui. É claro que pela importância dos EUA para o mundo não só do ponto de vista econômico e geopolítico, mas também cultural com a política interna dos EUA determinando tendências na política do Ocidente, o aprendizado sobre os EUA não deixa de ser um aprendizado sobre política em geral e sobre o mundo também. Então embora contenha personagens muito carismáticos, a razão da minha adoração pelo show é a sua aula sobre política que nos permite criar inúmeros debates e conversações sobre diversos temas.

Diferentemente de outros dramas políticos de qualidade como Boss e House of Cards a série não é protagonizado por um grupo de personagens com nenhum escrúpulo que utiliza todos os tipos de crimes para alcançar e/ou manter o poder. The West Wing é uma história política com a política como algo positivo como o meio pelo qual a sociedade se organiza para debater e solucionar os problemas que a afligem e não como algo negativo como uma forma de oprimir os mais fracos, daí a série ser protagonizada por idealistas, os tipos de pessoas que idealmente formariam a elite política e burocrática de todas as democracias modernas.

Inicialmente os protagonistas são o presidente democrata Josiah ‘’Jed’’ Bartlet (Martin Sheen), o chefe de gabinete e melhor amigo do presidente Leo McGarry (John Spencer), o assistente do chefe de gabinete Josh Lyman (Bradley Whitford), o diretor de comunicação da Casa Branca Toby Ziegler (Richard Schiff), o assistente do diretor de comunicação Sam Seaborn (Rob Lowe), e a secretária de imprensa da Casa Branca Claudia Jean “C.J.” Cregg (Allison Janney). Embora tenham diferentes trabalhos todos eles assessoram o presidente e trocam opiniões entre si sobre os temas com os quais eles se defrontam em seus trabalhos na Ala Oeste. E todos os atores são no mínimo competentes com destaque para Martin Sheen, Bradley Whitford e Allison Janney.

O show foi caracterizado por seus diálogos rápidos, inteligentes, sagazes e humorados, algo que por sua vez se tornou uma característica de Aaron Sorkin que já declarou se importar mais com os diálogos do que com qualquer outra coisa em seus shows, e no caso de The West Wing há que se destacar o fato de que tais diálogos eram proferidos pelos personagens enquanto eles caminhavam apressadamente pelos salões da Casa Branca, o que servia para dar a sensação de movimento e até mesmo urgência para o que na ausência de tal manobra seria um show estático e chato de assistir devido aos seus personagens estarem restringidos a uma mesma locação pela maior parte da série.

O presidente e a Casa Branca retratadas na série são democratas e liberais e a exceção dos dois primeiros anos a série esteve o tempo todo sendo transmitida durante os anos de governos de Bush e do Partido Republicano, e os autores se aproveitaram disso para transpor vários dos problemas que a administração Bush enfrentou para o show onde podíamos ver os mesmos problemas sob uma perspectiva democrata.

Uma coisa interessante de se fazer ao acompanhar The West Wing nos dias atuais é comparar a realidade da série com a realidade atual. Tendo se passado há mais de uma década vários dos problemas apresentados foram parcialmente resolvidos ou de alguma forma mudaram de configuração.

Não há muito mais o que se dizer exceto que The West Wing é uma obra-prima televisa que vai muito além do papel tradicional de uma série e entrega um show que é formado por personagens excepcionalmente relacionáveis, mas cujas estrelas são os ideais e os diálogos políticos que ensinam e divertem ao mesmo tempo.

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