
“Mr. Sheffield”
Se você leu a fala acima com um tom nasalado, então essa série ainda está fresca em sua cabeça. “The Nanny” foi uma sitcom que estreou em novembro de 93 na CBS, e durou seis temporadas, terminando em junho de 99 com 146 episódios. Essa comédia tinha como produtores executivos a própria protagonista, e seu marido (na época) Peter Marc Jacobson. No Brasil, a série já foi transmitida pela Record e pelo Canal 21, e estava sendo transmitida pelo Canal Sony até pouco tempo atrás.
Fran Fine (Fran Drescher) era a protagonista da série. E o que falar dela? Além da voz, ela também tinha como características marcantes o cabelo (que deu origem a todos os penteados exóticos possíveis), o guarda-roupa (um caso à parte), e as caras e bocas que produzia em quase toda cena.
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A abertura da série, em forma de desenho animado, resumia perfeitamente o plot da série, que era também o episódio piloto. Fran trabalhava numa loja de vestidos de casamento, e namorava seu patrão. Ele tem um caso (que mais tarde saberíamos que se tratava de ninguém mais, ninguém menos, do que Pamela Anderson), e ela então larga o emprego, passando a vender cosméticos de porta em porta.
Até que chega à mansão de um britânico, viúvo, e cheio da grana. Maxwell Sheffield (Charles Shaughnessy) era produtor de teatro na Broadway, e fazia o perfil linha dura com seus três filhos. No piloto, quem abre a porta é Niles (Daniel Davis), o mordomo, também britânico, e um dos personagens mais marcantes da série. Ele acha que Fran era uma das candidatas à vaga de babá enviada pela agência, deixando-a entrar. Rapidamente, Fran enxerga uma oportunidade na situação, e veste o papel de babá “perfeita”.
Para se ter uma ideia geral do que acontece nesse primeiro encontro, temos um currículo preenchido a batom, um abraço pra lá de generoso, e uma invasão na festa de arrecadação de verba para sua mais nova peça, com Fran e seu vestido de lantejoulas vinho, e seus três filhos também, todos engomadinhos.
Falando neles, a pequena se chamava Grace (Madeline Zima) e tinha muitos problemas psicológicos, como dupla personalidade. O do meio se chamava Brighton (Benjamin Sallisbury), era levado e estúpido com suas irmãs. Adorava aterrorizar as babás, e aparece com uma falsa faca cravada em seu peito em sua primeira cena com Fran. E a mais velha se chamava Maggie (Nicholle Tom), a qual era muito tímida no começo, mas depois de conhecer Fran, acabou se tornando bem precoce.
E é nessa festa que a garota dá seu primeiro beijo (em James Marsden, o Scott de X-Men), unicamente por causa da babá, que quase surta na loja onde trabalhava ao ouvir da menina que sua cor favorita era bege. O flagra é dado pelo seu pai, que acaba demitindo Fran.
Mas é Niles, em um de seus ótimos e inúmeros conselhos, quem abre os olhos do patrão, mostrando que aquela mulher era tudo o que aquela enorme mansão precisava. Quem acaba não gostando disso é sua colega de trabalho C.C. Babcock (Lauren Lane), uma típica vilã da Disney (bem parecida com a Cruella Devil, de 101 Dálmatas) que tem uma queda pelo viúvo.
Arrependido, Mr. Sheffield vai à casa de Fran pedir que ela volte. E lá conhecemos outra figura ímpar da série: Sylvia (Renée Taylor), a mãe da babá, que conseguiria ser ainda mais peculiar que a filha. Inocente fomos nós ao vê-la oferecendo uma caixinha de chocolates para alegrar a filha. A partir daquele momento, aquelas mãos nunca mais seriam vistas sem estar carregando algum tipo de comida, em especial uma coxa de frango.

Dessa vez eu resolvi fazer o texto do Baú das Séries com base no episódio piloto porque ele resume muito o que a série foi em todos os seus seis anos: humor em cada palavra, vírgula, interpretação e cena.
Antes de continuarmos, tenho que citar ainda Val (Rachel Chagall), melhor amiga de Fran, e um tanto quanto burra, e Yetta (Ann Morgan Guilbert), avó de Fran, esquecida e ótima com conselhos aleatórios.
Era quando eu não tinha TV a cabo e ligava no Canal 21 para me divertir com esses episódios. A série tinha grandes trunfos, e por isso é lembrada até hoje. Um deles era conseguir juntar tantos personagens carregados (no melhor sentido da palavra) e fazê-los interagir de uma maneira bem leve. Niles não era só um mordomo; ele se intrometia em cada conversa da casa, escondido atrás de uma planta ou porta, ou escutando os telefonemas em outro aparelho. Ele também foi o responsável por juntar a babá e o patrão, não só para fazê-lo sair da viuvez, como também para infernizar a vida de C.C.. Ela era uma vilã, mas se comportava como “Tom e Jerry” ao contracenar com o mordomo.
Pela profissão de Sheffield, a série conseguia trazer muitos famosos para aquela mansão. Pessoas como Jay Leno, Ray Charles, Elton John, Whoopi Goldberg, Rosie O’ Donnel, Elizabeth Taylor, Chevy Chase, Billy Ray Cyrus, Bette Midler, Hugh Grant, David Letterman, Donald Trump, Celine Dion, e Ray Romano foram muitas das celebridades que passaram pela série.
Muitas vezes a quarta parede era quebrada e Fran, Niles e outros do elenco conversavam ou pensavam alto com a gente, olhando para a câmera. Citações aos Beatles, a paixão declarada de Fran por Barbra Streisand, a rivalidade de Maxwell com o outro (e verdadeiro) produtor teatral, a frieza de C.C. em momentos emotivos, a obsessão de Val e Fran por roupas, e as diversas piadas de judeus apimentavam ainda mais o texto da série.
Todos os personagens eram peculiares e bem aproveitados na série. Fran literalmente deitava e rolava, na mesa do patrão, no sofá da sala, na mesa da cozinha, enfim, em qualquer lugar. Sua mãe arrancava piadas com seus comentários sinceros, mas também arrancava comida das mãos das crianças. E como não se lembrar de seu apartamento, com o sofá e vários itens da sala plastificados? Seria loucura minha lembrar alguns episódios, porque muitos deles foram memoráveis (isso eu deixo para vocês, nos comentários).
A série termina com Fran e Mr. Sheffield casados e com gêmeos e de malas para a Califórnia, juntos de Grace, Maggie se casa e Brighton vai com ela para a Europa, e C.C. e Niles terminam casados, numa cerimônia durante o parto de Fran.

“The Nanny” tinha um humor que ia do doce ao marcante em segundos. Ela teve treze indicações ao Emmy e duas ao Globo de Ouro, mesmo competindo com inesquecíveis concorrentes da década de 90, mostrando que não seria esquecida tão facilmente. A série teve uma audiência estável, terminando com índices de audiência, na casa dos 10 milhões, semelhantes ao do primeiro ano. Teve versões produzidas em países como Rússia, Turquia, Argentina, Grécia, México e Chile. Até aqui no Brasil uma versão estava para estrear no começo desse ano, mas o projeto foi arquivado.
Em 2004, o elenco se reuniu para um especial de uma hora. Cenas nunca vistas foram ao ar, e os atores contaram o que estavam fazendo naquela época. A reunião foi na casa de Fran, na Califórnia. Somente Niles não esteve presente, por compromissos teatrais na época.
Para quem não sabia, a história da personagem foi baseada na própria vida da atriz. E sua atual série, Happily Divorced, também é, e conta a história de uma mulher que descobre estar casada com um gay, 18 anos depois. Eu não conheço essa série, mas soube que a atriz Renée Taylor (mamãe Sylvia) fez uma participação na série, como melhor amiga da “atual” mãe de Fran. E ainda fiquei sabendo que outra mãe, a do Chris (“Todo mundo odeio o Chris”) também está no elenco. Quem a assiste pode confirmar se eu não estou falando asneiras.
Enfim, o humor negro de Niles, os métodos de ensino nada ortodoxos de Fran, a cafonice de Sylvia, a maluquice de Yetta, a semelhança de Maxwell com Pierce Brosnan, e a maldade de C.C., fizeram da série um produto inesquecível. Eu não sei quanto a vocês, mas eu sempre me lembrarei daquela voz irritante quando encontrar um “Mr. Sheffield” escrito por aí.












