
Eu poderia dizer que foi a melhor série da minha vida. Poderia afirmar que amei cada minuto, cada segundo das cinco temporadas. Poderia até mesmo dizer que amo incondicionalmente Denny Crane e que defenderia até a morte Alan Shore. Poderia chegar ao ponto de dizer que tudo não passou de um sonho e que nada foi real de tão fantástico que foi a série. Mas nada disso seria o bastante para expressar o quão Boston Legal foi especial não só para mim, como para milhões de fãs (órfãos) espalhados pelo mundo inteiro. Como bem afirmou Denny: “Sou tão bom que nem eu acredito”.
A série, que estreou em 2004, era um spin-off de uma série de grande sucesso lá nos EUA, chamada The Practice. Nunca cheguei a assisti-la (me penitencio aqui a locar e assistir todas as temporadas até o fim deste ano), mas definitivamente não me fez falta alguma ao assistir (e me deliciar) com os fantásticos advogados da Crane, Poole & Schmidt e os (bizarros) casos da semana.
Vocês já devem está se perguntando do porque tanto “puxa-saquismo” da minha parte com esta série? É muito simples. Boston Legal conseguiu dar ao gênero jurídico americano não só uma aula de como se elaboram boas histórias e excelentes personagens, como também soube dosar quase a perfeição momentos de pura comédia com situações de dramas pessoais e a famosa tensão, tão comum aos julgamentos de tribunais. Todos os méritos, portanto, ao criador da série David E. Kelley.
Esta série não seria (tão) memorável e brilhante, contudo, se não fosse por dois inesquecíveis personagens: Denny Crane (interpretado por William Shatner, o eterno capitão James Kirk de Star Trek) e Alan Shore (James Spader, famoso por filmes como Wall Street e Stargate).
Denny é o mais famoso advogado de Boston, especialmente por nunca ter perdido um caso, como ele gosta de repetir a todo o momento (“Nunca perdi, nunca perderei”). Ele é “maluco” (“Meu pênis tem Alzheimer”), engraçado, machista, republicano (“Fale o que quiser dos republicanos. Defendemos nossas convicções mesmo estando totalmente errados”), homofóbico (“Not gay, not guilt”), patriota (“Nós somos americanos, somos vencedores, é a nossa cultura”), elitista (“Odeio pobres. Não podem pagar os honorários”), narcisista (“Sou Denny Crane. Até o som do meu nome me fascina”), mas um excelente amigo e companheiro de todas as horas. Como quase não morrer de tanto rir com as declarações de Denny para a imprensa antes e depois dos julgamentos? Como não começar a pensar que eu também deveria andar com uma arma (ou com seis, como Denny)? Como não querer terminar aquele longo dia de trabalho sentando em uma varanda bebendo um bom uísque e conversando com seu melhor amigo (eu dispenso o charuto)? Como não se encantar e admirar aquele personagem gordo e pirado, tão carismático e polêmico?
Claro que Denny não seria tão fantástico se não fosse graças a sua “alma gêmea”, Alan Shore. Ele é o personagem que deu origem a série, já que proveio da última temporada de The Practice. Alan é antiético (“Sou um homem de princípios… ou não. Depende da situação”), arrogante (“Eu sei que sou bom”), cínico (“Quando se aprende a fingir a sinceridade, ninguém mais segura você”) e mulherengo (“Eu não abraço minhas clientes, às vezes as apalpo, mas abraçar nunca”) como Denny, mas é acima de tudo um excelente advogado, capaz de agir muitas vezes ilegalmente, ou para conseguir um veredito favorável ou para simplesmente ajudar seus clientes.
Toda série memorável, no entanto, precisa de mais do que apenas dois astros: ela precisa de bons atores que contracenem com eles sempre que possível na mesma grandeza. Para tanto, a série contava com atores como Candice Bergen (Shirley Schmidt), Mark Valley (Brad Chase), Rene Auberjonois (Paul Lewiston), Christian Clemenson (Jerry Esperson), Tara Summers (Katie Lloyd) e Gary Williams (Clarence). Sem contar, as mais que especiais participações de astros de outras séries ao longo das cinco temporadas.
Um dos aspectos muito interessante em Boston Legal eram os casos jurídicos e os temas que a série tratava. Os marcantes, sem dúvida, eram os que envolviam homicídios, mas os casos civis sempre traziam um elemento bastante peculiar sobre a sociedade americana, abordando os mais variados temas como racismo, homossexualidade, liberdade de expressão, imigração, tortura, entre outros assuntos tão atuais quanto polêmicos. Além de evidenciar, como Denny já afirmou certa vez, que “julgamentos não são sobre fatos. Tudo se resume a emoções”.
Se saudades matassem, sem dúvida, meu endereço atual seria o cemitério da minha cidade, mas o que nos resta apenas é relembrar os bons momentos, especialmente ao lado daqueles que gostamos. Boston Legal conseguiu se tornar um desses bons momentos e será durante muito tempo uma boa pedida de diversão para aquele dia em que você e seus amigos estiverem reunidos. Eu e Denny Crane aprovamos!










