No meio da dificuldade está a oportunidade
O que você faria se pudesse voltar ao passado para consertar seus erros? Com base nessa pergunta e na citação de Albert Einstein que abre o texto, a série Being Erica constrói toda sua belíssima narrativa, permitindo que caiamos de amor por esse universo logo no piloto.
Canadense em todos os seus aspectos, a série teve sua estreia em 5 de janeiro de 2009, contando a história de Erica Strange (Erin Karpluk – Life Unexpected), uma mulher de 32 anos que se encontra desempregada, solteira e é vista pela família e pelos amigos como uma grande perdedora. No auge de seu fracasso, a protagonista é abordada por um terapeuta chamado Dr. Tom (Michael Riley – Flashpoint) e recebe um convite para participar de uma terapia um tanto estranha, mas que promete resultados garantidos: após fazer uma lista de todos os arrependimentos de sua vida, a cada sessão, a personagem voltará no tempo e poderá corrigir seus arrependimentos e aprender com eles.
Apesar de se utilizar da ferramenta de viagens temporais para construir sua narrativa, pensar que se trata de uma série de ficção científica é um ledo engano. Being Erica é muito mais que voltar ao passado e construir realidades alternativas. A proposta da série é permitir que a personagem faça uma profunda reflexão sobre suas atitudes e como elas afetam sua vida e a de seus próximos. Voltar ao passado e reviver os momentos através da “Tardis” do Dr. Tom é apenas um artifício para promover uma profundidade muito maior que a série propõe.
Dando nome à série, Erica Strange pode ser uma das personagens mais cativantes que a televisão mundial já criou. Por ser totalmente humana, ela comete erros dignos de condenação social e acertos dignos de adoração. Sua origem judaica é bastante explorada no decorrer da série. É bem legal para os curiosos de plantão porque é possível aprender bastante sobre essa religião e sua cultura. Em vários episódios, Erica participa dos eventos que o judaísmo celebra, tais como o Chanuká (o natal judeu) e o Bris (a circuncisão dos meninos bebês). Mas isso é apenas um adicional da série. Um plus para um programa que já é tão rico ficar ainda mais interessante. No decorrer das suas 4 impecáveis temporadas, é muito perceptível a forma que essa terapia nada convencional afeta a personalidade de Erica. Se, no piloto, deparamos com uma balzaquiana atrapalhada e perdida, essa mulher é completamente diferente da trintona que encerra o series finale, com tanta segurança e compostura. Esse crescimento é a proposta do trabalho do Dr. Tom, que prometeu resultados garantidos antes de iniciar o tratamento.
Por falar em Dr. Tom, aí está um dos personagens mais ricos que eu já conheci. O cuidado dos roteiristas ao desenvolver Tom Hexlar é emocionante e admirável. No começo da série, chega a ser possível comparar o terapeuta com alguma espécie de deus, com todas as habilidades de manipular o tempo e de lidar com as confusões da protagonista. A partir de algum momento da segunda temporada, houve uma necessidade de humanizar esse personagem para que fosse possível aproximar Erica do que ela precisaria ser no futuro (não entrarei em detalhes para não dar spoilers). Para tanto, foi necessária a aparição da Dra. Naadiah (juro que é assim que escreve), a terapeuta de Dr. Tom. Quando isso acontece, somos apresentados ao passado do quase todo-poderoso, que inclui dois relacionamentos desfeitos e uma filha problemática. Essa relação conturbada com a unigênita é muito utilizada no decorrer da série como base de comparação com o relacionamento entre ele e Erica. Isso porque, através da proximidade entre os dois, Dr. Tom acaba vendo em Erica uma semelhança muito grande com sua filha Sarah (Tatiana Maslany – Orphan Black). E, honestamente, acho que essa é a coisa mais bonita dessa série. O cuidado que o terapeuta tem com sua paciente. O amor incondicional pela Erica. E é um amor puro, que não tem absolutamente nada de carnal ou de paternal. Ele simplesmente deseja o melhor para ela. Ele a ama como sua paciente. Como se ela fosse sua paciente preferida. E esse amor pode ter rendido uma das cenas mais emocionantes da série, quando os dois se despedem após a última sessão.
No âmbito familiar, apesar de todo o drama que acontece entre os Strange, Erica consegue todo o amor e apoio que pode receber de seus amados. Sua origem judaica, como falei anteriormente, é bastante trabalhada nesse núcleo. Gary, o pai, é um rabino que nunca deixou de amar Barb, de quem está separado quando a série começa. A história do relacionamento dos pais de Erica acontece devagar e sempre, sendo trabalhada de uma forma muito doce e gostosa de assistir. Leo, o filho mais velho, só aparece nas viagens do tempo, já que, quando a protagonista começa a terapia, já perdeu o irmão há alguns anos. A caçula Samantha forma uma dupla linda com Erica, já que as irmãs passam por todas as adversidades que duas meninas podem passar dentro de uma família. Seu relacionamento destrutivo com Josh, o personagem mais escroto que já vi na televisão, destoa com a cirurgiã bem sucedida que ela é fora de casa. Tudo muito bem orquestrado e trabalhado. A família Strange tem uma química que vai além do DNA. Todos os dramas e as comédias funcionam perfeitamente quando esse núcleo aparece na telinha.
Um dos grandes baratos de Being Erica é a excelência em trabalhar os núcleos da série. Já que se trata de uma série sobre terapia, é muito importante que todos os aspectos da vida da protagonista sejam desenvolvidos. Enquanto ela lida com as fortes personalidades de Julianne e Brent no trabalho, ela conta com o auxílio luxuoso de duas grandes amigas de infância: Judith e Jenny. Diametralmente opostas, as meninas ocupam os lugares de Id e Superego para Erica. Enquanto Jenny é toda porra-louca e festeira e problemática, Judith ocupa um lugar de referência de estabilidade. Com uma carreira bem sucedida e uma família bem estruturada, a advogada está sempre lá para abraçar Erica em momentos de dificuldade.
Eu não estaria sendo justo com Being Erica se não dedicasse um parágrafo inteiro a Julianne. No desenrolar dos 4 anos da série, a personagem ocupou diversas funções para o desenvolvimento da história. Interpretada pela brilhante Reagan Pasternak, Julianne Giacomelli aparece logo nos primeiros episódios como a chefe bitch de Erica. De cara, já é fácil se apaixonar por ela, porque ela é adoravelmente odiável. Mas, ao contrário do que se espera, essa relação de trabalho acabou se tornando em uma belíssima parceria. De nojenta e ordinária, a loira passa a ser uma heroína ao lado da protagonista. Principalmente após a abertura da 50/50, editora criada pela dupla. Já dentro do próprio negócio, Julianne ainda precisa lidar com seus dramas pessoais, quando é traída por alguém de grande confiança. E é aí que a gente percebe a personagem linda que ela é. E eu digo sem pestanejar que JuJu já é motivo suficiente para assistir Being Erica.
Mas é claro que não é só isso. Being Erica vale a maratona porque é uma série coesa, redondinha, com final fechado e emocionante. Cada episódio é uma grande descoberta e uma grande reflexão. Cada sessão de terapia é uma aula de vida e é perfeitamente aplicável a nós pessoas reais. E eu sei o quanto isso pode parecer piegas. Mas é verdade. É tudo tão bem desenvolvido que você até aceita o fato de terem só 4 temporadas. É pouco, mas é o suficiente.













