And everyday

I am learning about you

The things that no one else sees

And the end comes too soon

Like dreaming of angels.

Angels, The XX.

Será mesmo que o maior crime que existe é não amar? Você está mesmo disposto a pagar o preço de um verdadeiro amor? O que te dá mais prazer na vida? Quando começaram a divulgar as chamadas de Amores Roubados na Globo, salvo me engano em janeiro em 2014, fiquei muito curioso em assistir a minissérie. Por que a personagem de Isis Valverde estava gritando no meio do sertão: “Leandro, eu te amo!”, eu me perguntava, inquieto. Estava na expectativa de assistir ao novo trabalho de George Moura, pois gostei muito de O canto da Sereia. Porém, ao assistir os dois primeiros episódios, achei a narrativa um tanto rasa, aparentando ser apenas mais uma história de amor e traições. Ledo engano. Quase dois anos depois da estreia da minissérie, por insistência de dois amigos (agradeço-lhes imensamente por isso), voltei aos Amores roubados. Vi os dez capítulos de uma única vez, sem entender a razão do meu desgosto ano passado. Mais do que uma narrativa de traições e vingança, essa minissérie de George Moura nos apresenta uma bela e triste história de um amor interrompido.

A equipe técnica da produção da minissérie produziu uma obra de excelente qualidade. O diretor de arte e fotógrafo Flávio Mac fez uma composição de fotos “roubadas” para construir a abertura da narrativa de George Moura. As fotografias eram tiradas durante ensaios e também por trás das câmeras, proporcionando uma naturalidade ímpar das personagens que estavam presentes na abertura. O tom preto e branco ofereceu um contraponto ao brilho das cores do magnífico trabalho de Walter Carvalho e sua equipe. Era como se o monocromatismo estivesse ali para esconder mais os segredos que estavam prestes a serem revelados. Uma cena que me chamou muito atenção foi quando o delegado (interpretado por Walter Breda) foi conversar com Jaime sobre a gravação. Sabíamos que haveria ali um momento de corrupção, mas a direção de fotografia nos suspendeu esse olhar ao escurecer a cena e nos dar somente a visão do contorno dos corpos das personagens. A iluminação é transformada num elemento indispensável para a composição narrativa. Aqui, cabe um parêntese sobre algo que não entendi: por que o delegado foi falar primeiro com Antônio sobre a gravação, já que ele iria se subornar ao Jaime de qualquer forma?

Cauã Reymond, na pele do sommelier Leandro, vive uma espécie de Don Juan sertanejo: sedutor e sempre passional. Ele busca não se apaixonar por uma mulher, como se já soubesse que a paixão pudesse se transformar em um caminho irreversível para a morte. O roteiro acertou bastante em não ter pressa de expor o caráter da relação de Leandro com Celeste (Dira Paes), Isabel (Patrícia Pillar) e Antônia (Isis Valverde). Com a primeira personagem, ele tinha um jogo perigoso de uma paixão ardente, que os colocava em risco constante, e por isso era cada vez mais atraente. Já com a Isabel, o flerte nasceu de uma mera vontade de exercício do seu poder de conquista, fato oposto ao que ocorreu com Antônia, que se torna o seu grande amor. Na apresentação da minissérie, tive a impressão que o centro da trama seria Leandro. Contudo, penso que Antônia assumiu essa função. É bom ser enganado assim, pois dá um sabor a mais à leitura.

O episódio 1 se inicia de modo alucinante, já mostrando um fato que, para mim, aconteceria no penúltimo episódio. A morte de Leandro foi apresentada através do in última res, recurso narrativo que inicia a história pelo seu final. Porém, com o andamento da minissérie, e a iminência do assassinato de Leandro, percebi que estávamos em contato com o recurso in media res, que começa a contar a história pela metade. George Moura me ganhou mais ainda, visto quebrou as minhas expectativas sobre a forma como os fatos estavam sendo organizados.

A cena em que o sommelier sugere a degustação com os olhos vendados foi muito sensual: “a brincadeira aqui é a gente fechar os olhos e sentir o prazer do gosto”. O vinho, nessa cena, é um caminho para a percepção de vários gostos, principalmente aquele gosto do perigo, da jogo da sedução. O tocar de corpos entre Leandro e Celeste foi um indício de que o que guiava a relação dos dois era o prazer pelo risco.

O texto de George Moura desenhou muito bem, em especial, as personalidades de Antônia e Isabel. A primeira estava numa relação complexa com o pai Jaime (Murilo Benício), pois passou um tempo na Itália, fato que a faz entender que não queria trabalhar na vinícola (desejava só os 20% de loucura desse lugar) e enxergar o lado opressor e controlador de seu pai. A relação entre os dois foi minada pelo amadurecimento de Antônia, que compreendia também agora o quanto a sua mãe estava numa vida infeliz, aprisionada sozinha em uma casa e em um casamento.

Isabel foi mostrada como uma mulher generosa, inteligente e depressiva. Ela anulou os seus desejos em função do comportamento autoritário do marido. A entrada de Leandro na sua vida representou aquele pequeno abalo interno que todos nós precisamos em algum momento da vida. Ela, de todas as personagens que se envolveram com o sommelier, era a que tinha menos estrutura emocional e, infelizmente, foi a que provou o lado mais cruel do amor: aquele lado da pessoa que ama sozinha. Leandro foi muito esperto ao entregar o livro de poemas à Isabel, pois sabia que ela era uma mulher culta e percebeu que os versos de Joaquim Cardozo, em parte, traduziam os seus desejos naquele momento:


Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.

O corpo e a alma, em determinados jogos de conquista, não estão em um primeiro plano. Nós sentimos o corpo fisicamente; a alma é tocada através da percepção sensorial. Porém, a vontade de Leandro era penetrar no mistério de Isabel, naquele pedaço dentro dela que não tinha espaço em sua vida regrada: a chama tórrida e inconsequente de viver sem pensar em julgamentos, a alegria de ser passional e menos racional. Ele não queria mais que isso. Mas ela sim. O problema foi que esse encontro não deixou Isabel “intata”. Ela foi violada pela força de uma paixão que a faz se sentir viva novamente, que a deixou inquieta e depois partiu. Leandro não imaginou que essa possibilidade de um caso extraconjugal fosse desestruturar tanto Isabel. Como a vida é mestra na arte de cruzar muitos caminhos ao mesmo tempo, em horas inapropriadas, surge Antônia, a mulher que iria realmente balançar o coração de Leandro, interrompendo a história que ele poderia viver com a sua mãe.

As cenas de Leandro e Antônia foram repletas de beleza visual, química entre o casal e a poesia do sertão nordestino. Como sou e moro no Nordeste brasileiro, senti-me abraçado pela tela ao ver as lindas imagens do nosso tão querido sertão. “Angels”, de The XX, foi a grande música da minissérie que deu ainda mais cores ao amor do casal: “A luz que reflete da sua sombra é mais do que eu pensava poder existir”. Antônia, em pequenos passos, foi descobrindo a luz de Leandro, e fazendo também com que ele próprio visse que a sua vida poderia ser algo além de ter muitas mulheres. Foi tão intensa a curta história deles dois que, por alguns momentos, pensei que o desabrochar de um certo receio de que algo ou alguém pudesse lhes roubar a felicidade foi o motivo da decisão da fuga: “E o fim é desconhecido, mas acho que estou pronto, contanto que você esteja comigo”. Leandro foi a energia que Antônia precisava para ter coragem de ir embora e sair daquele ambiente familiar doente.

Cássia Kiss, como Carolina, nos apresentou, inicialmente, uma personagem que parecia ser só apenas uma oportunista. Contudo, viu na coincidência de trabalhar para a amante do seu filho uma oportunidade para protegê-lo e consertar os erros de passado. Ela aceitou o dinheiro da chantagem de Cavalcanti (Osmar Prado), pois, muito provavelmente, já estava ciente de que seu filho estava morto, tanto é que ela diz para o empresário, ironicamente, que também esperava poder reencontrar o seu filho. A meu ver, Cássia Kiss foi um dos grandes destaques da série, escondendo, através do olhar, a personalidade de sua quieta e ardilosa Carolina.

Outro ator que se destacou bastante foi Irandhir Santos, que nos presenteou com a insanidade e a obsessão de um João cheio de máscaras. Ele, sempre que possível, tentava demonstrar o quanto a família era importante para ele quando, na verdade, estava maquinando meios de adquirir a confiança de Jaime e obter a posse da vinícola. De afilhado, paulatinamente, virou capanga e assassino, alimentado pela fome do poder. Irandhir fez de sua personagem um reduto contido de emoções e, talvez por isso, o nascimento do olhar violento de João tenha tido um impacto tão forte.

A trama narrativa se desenvolveu apoiando-se no mote de que a vida pode nos pregar várias peças. A morte de Leandro foi causada, em parte, por alguns beijos que ele deu em Isabel. Quando João plantou a semente da desconfiança nos chifres, ou melhor, na cabeça de Jaime, a amante em questão era Celeste, e não Isabel. No início da minissérie, pensei que a morte do sommelier seria causada por Cavalcanti, personagem que se mostrou muito mais intolerante do que Jaime. Este, por sua vez, teve sua maldade e lado vingativo descortinados aos poucos. Sendo assim, quem jogou Leandro para a morte foi, justamente, a mulher que ele não amava. A sua história com Antônia pagou o alto preço das relações anteriores com mulheres casadas.

Amores roubados deu continuidade ao “janeiro de ouro” da Globo, expressão que uso para essas boas produções de início de ano. Desde 2010, com Dalva e Herivelto: uma canção de amor, a emissora carioca vem investindo cada vez mais e melhor em histórias curtas que têm como foco narrativo as desventuras do amor, sexo e traição. Temos, até agora, uma ótima dobradinha: O canto da Sereia, Amores Roubados e Felizes Para Sempre? E, pelo visto, Ligações Perigosas está chegando para incrementar ainda mais essa sequência.

Ouvi muitos comentários de descontentamento sobre o final de Amores Roubados. Eu gostei bastante, exceto pela cena esquisita da morte de Jaime. Carolina fala para Fortunato (Jesuíta Barbosa estreando com tudo na TV!) o que uma vidente previu sobre a vida de Leandro: “ele vai ter todas as mulheres que ele quiser no mundo e não vai acontecer nada com ele SE ele não se apaixonar por ninguém”. Essa foi a cena mais bonita do episódio final, pois além de ter dois grandes atores em cena, temos a reafirmação do olhar sobre amor que a minissérie apresentou ao telespectador: ele fere, ele mata, ele machuca, mas ainda assim merece ser vivido.

Apaixonar-se pelo desconhecido pode ser muito prazeroso, mas também pode nos colocar para pagar contas que não eram nossas, e que acabam, no final, nos pertencendo. O mesmo amor que nos dá vida pode nos colocar nas veredas da desgraça. Para finalizar a conversa, alguns versos de “O amor bate na aorta”, de Carlos Drummond de Andrade, que dialogam com esses “amores roubados”:

Daqui estou vendo o amor

irritado, desapontado,

mas também vejo outras coisas:

vejo corpos, vejo almas

vejo beijos que se beijam

ouço mãos que se conversam

e que viajam sem mapas.

Vejo muitas outras coisas

que não ouso compreender.

Até Ligações Perigosas!

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Diogo Souza
Graduado em Letras-Português, Mestre em Literatura e Ensino, Doutorando em Estudos Literários, pesquisador das relações interartes entre a literatura e o cinema, cinéfilo, leitor de poesia, e às vezes cronista.