Novo documentário dos diretores do excelente Pacto Brutal é bom, mas deixa detalhes demais pelo caminho.
Em 31 de Dezembro de 1988 eu – que peço licença para uma aparição em primeira pessoa – estava a 25 dias de completar 9 anos de idade e aquela foi a primeira vez que saí com minha mãe para passar a virada do ano na praia de Copacabana. Os fogos ainda eram estourados nas areias e me lembro de ter ficado maravilhado com a grandiosidade daquelas explosões de cores e formatos. A gente não tinha como saber que pessoas morriam afogadas naquele mesmo horizonte, mas realizar isso depois, é claro, tornou esse réveillon ainda mais marcante.
O interesse das pessoas por true crimes não é uma novidade, mas o acesso à informação fez com que todo mundo pudesse ser “especialista” por um dia. Quando a internet surgiu, o acidente com o Bateau Mouche já tinha acontecido há bastante tempo; e o interesse das pessoas pelo ocorrido já havia esvaziado. Mesmo assim, aqueles que vivenciaram aquele ponto da história – mesmo que longe dela – estão sempre atentos a tudo que se diz a respeito.
Tatiana Issa e Guto Barra mostraram um nível de excelência nos docs sobre Daniela Perez e sobre o Balão Mágico, que fez com que a expectativa para seus novos trabalhos ficasse mais e mais alta. A forma como eles conduziram esses dois exemplos foi sempre pautada na firmeza da direção, na cobertura do máximo possível de perspectivas e na coragem de abordar e mostrar o que fosse necessário para que o espectador tivesse a real dimensão do que havia acontecido.
Documentários, contudo, são recortes. Quando um documentário é planejado, ele provavelmente não terá depoimentos de todos os envolvidos, não conseguirá todas as imagens; ou vai preferir não abordar esse ou aquele viés. Para o público, quando um documentário sobre um grande evento é lançado, a expectativa SEMPRE está no quanto de informações ele vai trazer e quais dessas informações darão ao público mais conhecimento ou novas ideias sobre tudo que está sendo dito.
Em apenas 3 episódios, Bateau Mouche: Naufrágio da Justiça fez suas escolhas. Já era esperado que fossemos ver Boris Lerner entre os entrevistados (um dos sobreviventes mais vocais sobre o acidente) e também Hélio Meirelles, que escreveu um livro verborrágico, mas bastante detalhado sobre a tragédia. Já Ivan Sant’anna, autor do livro mais famoso sobre o acidente, não falou. A ausência de Ivan se alinha com a necessidade de dar ao documentário uma identidade própria; sobretudo, porque, Ivan fez uma colagem de relatos e Tatiana e Guto provavelmente queriam relatos apenas de quem topou dar entrevistas.
Inevitavelmente, isso vai estreitando o alcance da história. A família Fiszman ficou conhecida por não ter perdido nenhum de seus 7 membros embarcados, mas apenas Renata deu entrevista. Não há ninguém que acompanhou de perto as transformações do Bateau Mouche para dar mais detalhes de sua estrutura e nem mesmo um tour virtual por suas dependências, para ilustrar melhor o que os sobreviventes relatam. Sobreviventes falam sobre mais de uma abordagem da capitania, mas isso não é mencionado. Em seu livro, Hélio fala de um casal que teria descido do barco quando ele voltou ao cais do restaurante; mas isso também não é mencionado. A família de Yara Amaral afirmou que ela teria morrido de um ataque cardíaco e não afogada, mas isso também não é mencionado. Não ficamos sabendo nem mesmo o que aconteceu com o barco (que ficou anos apodrecendo no arsenal da Marinha). E em um documentário, todo detalhe importa. Pode ser que não resolva nada, mas ajuda no envolvimento.
Não houve um momento para que o capitão da traineira que salvou várias pessoas pudesse falar sobre como a tragédia se refletiu nele durante os anos; se ainda tem contato com sobreviventes… O doc, inclusive, perdeu a oportunidade de promover encontros entre os sobreviventes, já que muitas vezes um dos entrevistados falava do outro. Renata Fiszman passou anos vivendo com sintomas graves de estresse pós-traumático; e eles passaram voando por isso. Hélio Meirelles, em seu livro chama Fátima de Ana; fala em um relacionamento que perdurou durante algum tempo, mas no doc eles nem mesmo falam sobre isso.
Especialmente no primeiro episódio, o ritmo é excessivamente entrecortado por imagens marítimas e panorâmicas. A sensação é que para casa frase de um sobrevivente, a direção corta para um clipe de ondas ou de pontos de vista afundando. É como se isso tivesse sido necessário para preencher o tempo. A reconstituição do naufrágio – tão sublinhada pela grandiosidade de sua produção – é discretíssima (um movimento para buscar elegância, mas que enfraqueceu o discurso). Em 2004, apesar de seu sensacionalismo, a reconstituição do especial Linha Direta Justiça, da Rede Globo, foi bem mais realista.
Existem uma infinidade de motivos que podem ter sido determinantes para que o resultado final tenha sido esse. As pessoas podem ter se recusado a falar; o orçamento pode ter impedido parte do alcance; ou essas decisões podem ter passado mesmo pelo crivo artístico dos diretores. O recorte foi feito; pode agradar ou não; mas, sem dúvida nenhuma, esse recorte – mesmo sem muitos detalhes – foi bem-sucedido no que era importante para as famílias: falar sobre a criminosa morosidade da justiça. Infelizmente, para chegar até isso, Tatiana Issa e Guto Barra preferiram ficar na superfície.















