O fardo de Chip é a utopia. É o poder da ilusão, da nostalgia cega e dos sonhos distantes que rege o universo de Baskets, que encurrala seu protagonista semana após semana numa armadilha invisível. Chip é um nômade, sempre foi. Ambos literalmente – fugindo da polícia ao lado dos comparsas, partindo para a França ou retornando para casa – e figurativamente – um personagem em constante busca de um lar e, mais do que isso, de si. ‘Reverie’ é um aviso, um choque de realidade já manifestado tantas outras vezes, mas que necessita de constante reafirmação, agora, talvez, mais do que nunca.

Chip ainda está longe de casa. Está longe de casa e começo a descofiar que assim será ao longo de grande parte dessa segunda temporada, uma escolha um tanto ousada mas que abriria uma infinidade de possibilidades fascinantes para a série. Bakersfield, no entanto, está longe apenas geograficamente, é presente – e muito – nos devaneios de Chip, que amarram as cenas de fuga no presente, assustadoras para Noodles, que encontra consolo momentâneo nessas memórias. É assim, pelo menos, que ‘Reverie’ escolhe sugeri-las, através da montagem, como algum tipo de escapismo. Um olhar não muito mais atento, entretanto, e a nostalgia saudosista dessas memórias é desmascarado para revelar a realidade de seu passado, um de solidão, dessintonia  com o mundo e prazeres pontuais. Algo pequeno, como um simples convite para um rodeio especial, o primeiro que Chip comandaria como mestre de cerimônia, é fonte de frustração à medida que Christine e Dale o recusam, mesmo sendo gratuito, e Penelope o aceita, mas por quaisquer outros motivos que não agradar o marido. É Martha, como sempre, quem age altruisticamente num ato de pura amizade que já é de praxe vermos Chip ignorar ou ao menos não compreender.

Talvez por isso o final do episódio dessa semana – precisamente a cena final, em que é o celular de Matha que toca ao receber a ligação de Chip, e não o de Christine ou mesmo o de Penelope – seja tão importante, um passo tão grande na trajetória do personagem. Nas suas memórias daquele rodeio, afinal, pouco havia de positivo e que merecesse saudade, e todo o pouco era Martha, seu sobrinhos que pedem o autógrafo de Baskets, seu sorriso raro frente à piada de Chip ou a ciranda desajeitada que dançam na sequência final. A tal armadilha utópica de Chip reside na romantização de tudo aquilo que lhe é distante, seja numa visão contorcida do passado, como quando fala de seus tempos de estudo em Paris, ou numa projeção insensata do futuro. É apenas no presente que vive sua salvação.

É exatamente isso que está por trás da breve fala que Morpheus berra segundos antes de morrer num acidente inesperado, concomitantemente catastrófico e hilário de uma forma que somente Baskets saberia fazer. It ain’t easy living this life, man, ele diz, but hell if it don’t have its moments, right? Cherish this shit! Uma crítica bastante plausível que pode ser feita à série é que ela persiste em apresentar os mesmos argumentos e visões repetidas vezes, mas, ainda assim, Galifianakis e o time criativo por trás da produção encontram formas tão originais e inspiradas de explorar temas conhecidos da audiência que é difícil resistir ao magnetismo de Chip e companhia e não retornar semana após semana para assisti-lo tropeçar nos mesmos obstáculos outra vez.

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