Todo ano parece que Amor & Sexo vai acabar, mas ainda bem que não acaba. O programa de “despedida” do ano passado chegou a mostrar as lágrimas de Fernanda Lima no derradeiro “fim”, mas uma olhadinha nas redes sociais já revelava a inconformidade do espectador, que inesperadamente entendeu e aprovou a maneira gentil e bem-humorada com o qual o programa defende aspectos delicados da sexualidade e das relações interpessoais humanas. Indo de namoro a transgêneros, a redação do show não se priva de ser direta e provocativa, mas o carisma de Fernanda Lima (num trabalho irrepreensível) e a abordagem honesta conseguiram perfurar as barreiras tradicionalistas que geralmente sabotam esse tipo de projeto bem cedo.
Fala-se muito aqui sobre como a teledramaturgia pode interferir nos códigos sociais. Aliás, fala-se muito aqui e em todos os outros veículos que se dedicam a analisar séries, filmes e seus variáveis. Essencialmente, programas de auditório sofrem o julgo voraz do “popularismo”, essa condição super permissiva que se situa na base da pirâmide intelectual. Programas de auditório quase sempre representam o menor, o apelativo. Em grande parte, é mesmo assim… Dançarinas de minissaia, quadros sexualizados, assistencialismo, exploração da tragédia e humor super escrachado. É uma fórmula básica e resistente ao tempo, mas que pode ter achado em Amor & Sexo seu exemplo contradizente.
O auditório está lá, mas é participativo. As dançarinas estão lá, mas há dançarinos também. Também temos a clássica banda, mas a vocalista é drag. Temos “jurados”, mas eles não ficam só atrás da bancada. E os games também estão lá, mas ninguém compete de verdade, porque quem ganha é a assimilação do espectador. É programa de auditório na sua raiz, mas que não quer uma audiência passiva e alienada, escravizada indiretamente na apatia do sofá. O trabalho de Serginho Groisman foi o pioneiro da frase “vida inteligente na TV”, mas nenhum programa da nossa história foi tão delicadamente ousado e corajoso como Amor & Sexo conseguiu ser em suas sete temporadas de existência.
Vampes e Vadias
Socióloga de um feminismo controverso, Camille Paglia disse: “As vampes e vadias são os símbolos maduros de um feminismo duro (…) vamp, no sentido de uma sedutora sexual, tem uma origem eslava e descende das lendas de vampiros servo-croatas dos sangrentos Balcãs. A palavra descreve também a “coisa que está na frente”, avant-garde, ou vanguarda. Como verbo significa recuperar ou consertar algo velho, remendando-o com uma peça nova; ou seja, empregar engenhosidade, inteligência e sentido prático para alcançar os objetivos”. Quando a sétima temporada de Amor & Sexo começa, Fernanda Lima está com seu corpo de dança fazendo um número ao som de Piranha, de Alípio Martins, num trecho que faz uma provocação com a ideia de que a palavra “piranha” não devia ter nenhum outro sentido que não o sentido categórico: piranha é só o nome de um peixe.

Estamos falando de empoderamento feminino há muito tempo… Quem acompanha o Série Maníacos sabe que esse é um assunto recorrente na análise do cenário teledramatúrgico atual. As séries – mais que o cinema – tem estudado esses aspectos culturais desde quando Sex And The City usou a crônica para dizer que as mulheres gostam de sexo, transam no primeiro encontro, expõe seus corpos, dominam relações, entre tantas outras coisas, e que isso não é nem ser permissivo e nem se “igualar ao homem”, mas ser livre para investir socialmente sem julgamento de gênero. “Isso não é coisa de mulher, isso é coisa de homem”. Para reforçar o desserviço que frases machistas ou detratoras fizeram pelo inconsciente coletivo, o programa fez as mulheres do corpo de balé “queimarem sutiãs” que representavam cada uma delas.
Essa “queima” nunca aconteceu nem no programa e nem na vida real. A emblemática manifestação aconteceu em 1968, durante o concurso de Miss America, em que as manifestantes dispuseram pelo espaço sutiãs, saltos, cílios postiços, espartilhos, símbolos daquela visão arbitrária do papel social da mulher; e quiseram com isso, chamar atenção para essas questões. O nome “queima de sutiãs” foi dado pela imprensa, num outro exemplo de como a mídia, a televisão, a arte, podem servir com fecundadores de novos códigos ou – como é o caso de Amor & Sexo – podem servir como desconstrutores desses códigos. Por isso, a ideia do homem precisando desconstruir-se como quadro seguinte foi extremamente bem acertada.
O programa sabe como se conduzir. A edição se foca na construção da narrativa, mas abre espaço para informalidade (a participante declarando ter um crush na apresentadora foi maravilhoso), o que aproxima o espectador e facilita a absorção dos assuntos. A discussão começou com a adequadíssima colocação sobre como as mulheres são sempre ofendidas com sexismo, com a forma como o gosto pelo prazer, pela sensualidade, são sempre pejorativadas, encaradas como aspectos questionáveis do caráter. Até mesmo uma representante das prostitutas estava ali para falar sobre essa fronteira entre escolha individual e interferência do estado. Tudo pontual, mas nem por isso menos efetivo. Nada mais natural que uma discussão sobre prazer fosse o próximo passo, porque a imagem do sexo está diretamente ligada ao que representa o ato em si.
O programa é esperto ao trivializar tabus usando teatralidade. Grace Gianoukas aparecendo de clitóris foi mais um exemplo de como a redação final busca amenizar a seriedade sem nunca cair no infantilóide, na desvalorização do tema. Havia uma narrativa muito bem pensada, que foi dos signos de detratação, passou pelo direito ao prazer e chegou até a reação violenta de discordância cultural. A mulher deve poder gostar de sexo, de ser sensual, sem que o homem – ou qualquer que seja o representante dessa opressão – se recuse a aceitar essa liberdade até o ponto em que reage agressivamente a ela. Por isso, o momento em que Elza Soares (representante perfeita de tudo isso) adentrou o palco foi dos mais catárticos que o programa promoveu desde sua estreia. E era emocionante porque representava tudo, todos aqueles apontamentos ideológicos sendo feitos com extrema clareza e sabedoria, num canal de TV aberta, adentrando casas para dizer coisas importantes, usando arte, sensibilidade e humor para isso.
>Sherlock 4ª temporada: Crítica!
Não me envergonho de dizer que chorei um pouco, porque enquanto Elza estava no palco e Fernanda lia aquelas estatísticas, eu pensei numa grande amiga que está agora vivendo exatamente esse inferno. O inferno do vilipêndio. Todos os dias ela se deita ao lado de um homem que a humilha e agride. Todos os dias ela pede para se livrar disso e ele a ameaça, ameaça todos que ela ama… E ela vive com medo, com pavor, com culpa. Mesmo longe tive esperanças que ela estivesse vendo aquilo, que ele estivesse vendo aquilo, e que de alguma forma, algo de reluzente se tornasse resultado disso. Quando a TV faz assim ela se justifica e por tabela nos justifica. Nós, Série Maníacos, construídos do que assistimos, redimidos pelo significado básico do que é cultura. TV não é só TV e se incomoda um pouco colocar Amor & Sexo no mesmo balaio dos “programas de auditório”, façamos o seguinte: vamos chamá-lo de “programa propiciatório”. Porque não há nada mais importante na arte do que seu poder de prover, de oferecer, de significar.











