Tivemos acesso ao primeiro episódio de Shippados, nova série da Globoplay protagonizada por Tatá Werneck e escrita pelos criadores de Os Normais.
Em seu romance de estreia Fernanda Young (conhecida por ter sido uma das criadoras de Os Normais, série que é, sem dúvida, a mais importante e original produção do gênero no Brasil) desenha com a peculiaridade pela qual seria lembrada, a trajetória de Ana. Ana é uma universitária, aspirante a escritora, que olha para a vida com cinismo e neurose, passando quase o tempo todo oscilando entre o mau humor e a preguiça. Seu tédio é vencido por duas coisas que costuram sua trama: o livro que escreve apenas na mente e Jaime, o namorado que ilustra com hesitante beleza as primeiras páginas da obra. “O amor deveria ser só o início”, reitera a protagonista.
Não deixa de ser interessante pensar que assim como nas páginas de seu primeiro romance, também foi uma “história de amor” o vetor da chegada de Rui e Vani na televisão. Ao lado de Alexandre Machado, principal parceiro de sua carreira, Fernanda encontrava nas protagonistas femininas de seus livros o reflexo de sua maneira desalinhada de enxergar o mundo. Personalidades individualistas e narcisistas eram freadas pela chegada inconveniente do amor, que ela, enquanto contadora de histórias, preferia delinear sem muito alarde emocional. Em Os Normais o casamento nunca vinha, em Macho Man o amor enfrentava o impedimento orientacional e em Separação a base para o começo era o fim. Seus maiores sucessos na TV foram sobre o amor “desconstruído”, foram sobre equilibrar a existência acreditando – mesmo contra todos os fatores contraditórios – em dividir. E enfim, depois de algumas experiências equivocadas no campo do cartunesco e do sobrenatural, estamos de volta ao ser humano em essência.
Shippados começa onde a linguagem de Fernanda encontra a interlocução derradeira: a mesa de bar. Rita (Tatá Werneck) está num encontro com um rapaz que não consegue acompanhar seus “tiques” sociais. Na mesa ao lado está Enzo (Eduardo Sterblitch), que assim como ela, presencia sua pretendente ir compreendendo pouco a pouco que ele também não é muito eficiente em se enquadrar na “casinha”. Os dois são rejeitados de maneiras constrangedoras e seguem cada um para a própria vida, enfurnados num mundo cinza, de plena incompreensão e desajuste, sem saberem ainda que de certa forma, eles são o ship mais possível de complementação. Para eles as previsões são otimistas e vão além dos 95%.
Rizo/Renzo/Enta/Tazo…
O primeiro episódio da atração tem somente uma missão a cumprir: nos fazer torcer pelo casal. O termo shippar depende essencialmente de uma torcida pelo que muitas vezes é uma dificuldade de enlace. Embora tenha sido usado pela primeira vez (por fãs de séries) lá nos tempos da primeira versão de Star Trek, foi com o romance travado de Mulder e Scully em Arquivo X que o termo se popularizou. Na série, os anos se passavam e os dois nunca concretizavam aquela tensão romântica entre eles, gerando uma imensa expectativa e uma eterna espera. Existem ships concretizados, é claro. Mas, em sua maioria, os ships mais importantes são aqueles que enfrentam adversidades. Rita e Enzo tem a maior delas: eles são eles.

O texto de Fernanda e Alexandre ainda está lá, debochado, referencial e às vezes escatológico. Mas, dessa vez existe algo de realmente dramático no retrato dos personagens. Rita tem uma mãe emocionalmente omissa, que passa o dia em casa fumando, andando de roupão, mentindo sobre o pai da menina e debochando de suas roupas e seus modos. Enzo tem uma forma singular de analisar o mundo e isso se reflete em todas as áreas de sua vida, negativamente. Mora com amigos naturistas que não se importam com nada a não ser a própria relação. Tanto ele quanto Rita são pessoas infelizes, esvaziadas, desbotadas, que apenas vão seguindo como se pode, acordando e repetindo ciclos, sem nenhuma perspectiva de mudança. Qualquer ímpeto de quebra dessas correntes esbarra numa evidência aterradora: o mundo não está preparado para as curvas que eles propõem, então, eles serão para sempre os estranhos, os bizarros, os infelizes despadronizados. É extremamente eficiente a transposição dessa solidão opressiva em suas vidas.
Eduardo Sterblitch compôs um Enzo com um quase autismo sem diagnóstico; e não há nenhuma barreira na hora de enxergar esse homem. Tatá Werneck tem um desafio maior em compor Rita sem ceder ao arsenal impressionante de trunfos cômicos que ela tem. Ela tropeça um pouco quando acelera as frases e vaza para dentro da personagem. Ganha muito mais quando enfrenta a dor de ser Rita, apática, sem maquiagem, deprimida, perfeitamente consciente de que não tem como lutar com quem é, com o que a constitui. Nessas horas é Rita que vaza para Tatá, que não deixa de compartilhar da mesma sensação (basta assistir a uma de suas muitas declarações incríveis sobre ter sido estigmatizada toda a vida). Tudo isso encontra a direção artística de Patrícia Pedrosa, que sabe que essa não é simplesmente uma comédia. Rita e Enzo estão sofrendo e a diretora não teme sublinhar isso com escuridão, som e forma. Precisamos torcer por eles, precisamos shippá-los, não se esqueçam disso.
Enfim, aquele humor de constrangimento típico das comédias não deixa de ser o caminho central de Shippados. Contudo, talvez o grande diferencial da série seja esse mesmo: a dor. É apenas através da contemplação dela que podemos nos envolver de verdade com a compreensão dos personagens – naquela estação de metrô – de que encontraram algo realmente novo, potencialmente especial, que vai proporcionar cores diferentes ao nascer do próximo dia. Queremos sim que eles fiquem juntos, é claro. Mas, ficamos felizes ao percebermos, meio comovidos, que antes disso queremos uma coisa maior: só queremos que eles fiquem bem.
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Shippados foi produzida exclusivamente para a Globoplay e estará disponível dia 07/06.






















