
Muitos discordam, mas eu acho que 2010 foi um excelente ano para a televisão. Séries novas de qualidade na TV a cabo, séries entrando em suas segundas ou terceiras temporadas e surpreendendo, veteranas mostrando que ainda podem ser boas quando querem… Claro que as decepções existem, principalmente entre boas séries que perderam o ritmo ou entre as novatas da TV aberta americana, mas considerando tudo e principalmente os episódios das últimas temporadas das dez séries a seguir, foi o melhor ano desde 2006.
Como o nosso orçamento não permite a compra de tambores, vamos ao que interessa:
10º – How I Met Your Mother

Com a metade final da quinta temporada e a inicial da sexta exibidas, How I Met Your Mother conseguiu algo difícil, principalmente para comédias: se recuperar. Saindo de vários arcos e histórias que não funcionaram em seu quarto ano, surpreendeu com uma quinta temporada recheada de episódios hilários como “Robots Vs. Wrestlers” e “Rabbit or Duck”, mas que deveu em continuidade. Ela finalmente chegou na atual temporada e está sendo responsável por algumas das melhores histórias já contadas por uma série especializada nelas. Se reabilitar não é nada fácil, principalmente na televisão: uma vez que se entra numa longa de sequência de episódios ruins ou os personagens param de agir baseados em uma lógica já estabelecida, é muito difícil uma série voltar a ser o que era antes. Graças a Carter Bays e Craig Thomas, dois showrunners bastante cientes do que funciona ou não no universo de How I Met Your Mother, isso não aconteceu e ela está de volta aos trilhos, com o humor certeiro, os momentos emocionantes e as histórias envolventes que amamos.
Melhores momentos: “Nothing Suits Me Like a Suit”, o casamento misterioso e o final de “False Positive” na frente do cinema.
9º – Boardwalk Empire

Boardwalk Empire chegou transbordando de hype, sendo de um dos roteiristas de The Sopranos e tendo o seu piloto dirigido por Martin Scorsese. Mas após a primeira temporada de doze episódios, mostrou ser uma série “simples”, que apenas cumpre suas obrigações, sem mais nem menos. Um estudo detalhado do passado de seu protagonista para justificar uma poderosa linha de conexões criminosas, figuras históricas ganhando vida de maneira inédita e interessante, um acompanhamento contínuo dos esquemas que fazem impérios criminosos funcionarem… Às vezes soa decepcionante pelo seu contentamento com pouco, pela falta de comentário social e da complexidade que geralmente define os grandes dramas, mas Terence Winter e a sua equipe apresentaram roteiros irrepreensíveis semana após semana, com um cuidado palpável nas situações e palavras, que por sua vez, são levadas a tela por uma das melhores produções da atualidade. Todas essas coisas e uma performance arrasadora de Steve Buscemi tornam Boardwalk um verdadeiro prazer de assistir e, caso continue assim pelas próximas temporadas e expanda os seus horizontes, um potencial marco televisivo.
Melhores momentos: “I ain’t building no bookcase”, Nucky queimando a sua casa e a montagem que encerrou a temporada.
8º – Lost

Popularizando e aperfeiçoando técnicas que várias séries até hoje têm dificuldades em usar, Lost conquistou sua imensa audiência com mistério, mas nunca deixou de nos lembrar que o seu foco principal era aquele conjunto de personagens. E enquanto decepcionou em relação aos enigmas e a narrativa na sua temporada final, soube como nunca emocionar e dar um ponto final àquelas maravilhosas histórias de redenção, corrigindo os erros que transformaram Jack em uma figura irritante nas temporadas anteriores e dedicando todos os acontecimentos da série e até mesmo do tão polêmico limbo a ele, sem esquecer de Sawyer, Juliet, Locke, Ben, Kate e tantos outros personagens memoráveis e recursos que transformaram Lost na definição perfeita da experiência televisiva de uma geração.
Melhores momentos: as mortes do submarino, Sawyer e Juliet no limbo e a morte de Jack.
7º – Parks and Recreation

Se durante o começo da segunda temporada Parks and Recreation estava fazendo pequenos ajustes no seu formato e aprendendo como trabalhar os personagens naquele ambiente, os doze episódios exibidos em 2010 são basicamente a série se divertindo com regras que havia acabado de estabelecer, e tendo a sua melhor sequência de episódios por causa disso. Personagens secundários cresceram, a irritante Leslie virou a adorável Leslie, Pawnee ganhou vida, Ron Swanson ficou ainda mais incrível desenvolvendo laços com todos no escritório e Chris Pratt finalmente ganhou algo digno para fazer como Andy. Mas o que fez Parks and Rec atingir o seu potencial, além dessas correções essenciais em suas histórias e personagens, foi uma coisa bem simples: humor. Em poucos episódios ela entrou no ritmo e tirou risadas tanto das resoluções sempre surpreendentes de suas histórias quanto pela ignorância de seus personagens diante delas, muitas vezes sendo o destaque de um dos melhores blocos cômicos da atualidade. Mal posso esperar o retorno de Ron Swanson e o seu glorioso bigode no dia 20 de janeiro.
Melhores momentos: Mark se despedindo de Leslie, o governo sendo interditado e Ron pedindo que April retorne ao departamento.
6º – Terriers

Terriers não é sobre cachorros. Mais uma vez, antes que o departamento de marketing do FX venha me bloquear com uma campanha que parece não ter ideia da trama da série que deveria convencer o público a assistir: Terriers NÃO É sobre cachorros. Mas anunciar como tal é um erro compreensível, afinal, Terriers também não é a sua típica série sobre investigadores entrando em altas confusões. Terriers é sombria, com algumas das melhores reviravoltas da temporada e atuações surpreendentemente maravilhosas por parte da dupla com imensa química que Donal Logue e Michael Raymond-James formam. Os seus casos não são irreais, os seus arcos não são limpinhos e muito menos desgastados… Como você anuncia isso? “Essa é uma série divertida, mas por favor continue assistindo quando a tensão estourar os seus miolos” assusta o típico americano. Talvez o departamento de marketing do FX não estivesse tão errado em estampar um cachorro no pôster e rezar pela simpatia do público. Infelizmente, não funcionou e Terriers está condenada a dividir um beliche com Rubicon na grande fazenda das séries brilhantes que foram canceladas antes do tempo.
Melhores momentos: Hank pedindo pra Katie mentir, Britt confrontando Katie na recepção e a cena final da série.
5º – Fringe
Fringe pode ser facilmente dividida em duas partes. A primeira, do piloto até “Jacksonville”, era em sua maioria agradável, recheada de bons momentos e episódios, mas com uma fraca noção de sua mitologia e de como apresentá-la em paralelo aos casos da semana, que em teoria, tornariam a série mais atraente ao típico telespectador americano que dá audiência para os simples modelos usados por NCIS, The Mentalist, CSI e etc. A segunda parte que vai de “Peter” até “Marionette” decidiu abandonar isso. Aprendeu que a audiência para aquele tipo específico de ficção científica já estava toda presente, era bem pouca e estava começando a ficar impaciente com as voltas dadas pela trama. Assim, a única saída dos roteiristas foi abandonar os casos sem sal e partir para um estilo quase que 100% serializado, com um arco que finalizou a segunda temporada de maneira esplêndida e criou possibilidades infinitas para a terceira temporada, que seguiu o padrão da anterior e reinventou a série pela segunda vez em menos de um ano, novamente tendo ótimos resultados e criando uma bela (e até certo ponto íntima) história de repercussões monumentais para os seus protagonistas. Sendo uma das melhores surpresas do ano e responsável por uma das melhores sequências de episódios da fall season, Fringe mostrou o poder da loucura quando aplicada com competência na ficção científica e se tornou obrigatória para todos os fãs da mesma.
Melhores momentos: a dança da garota morta e a conversa que Olivia tem com Peter, ambos em “Marionette”.
4º – Mad Men

Há uma adorável fluidez nessa última temporada de Mad Men que a torna bastante diferente das anteriores. A série continua sendo sobre Don Draper e seus dilemas, mas ao contrário da terceira temporada, que dedicou uma considerável porção de seus treze episódios a Betty, houve um senso de equipe. Um conjunto e cumplicidade que deram ao roteiro e a direção mais espaço para trabalhar, oferecendo situações e sentimentos diferentes com a melancolia de Don, a crise financeira dentro da Sterling Cooper Draper Pryce, o divórcio dos Draper e uma das mais cativantes horas de televisão do ano, “The Suitcase”. Assim, depois de manter o nível por mais um ano e com o número 1 dessa lista tendo a exibição de sua próxima temporada fora do prazo de consideração, fica difícil imaginar o Emmy premiando em 2011 outra série além de sua queridinha. E mesmo desejando glória pra outros dramas como Fringe e Terriers, a possível vitória de Mad Men será, como foi nos anos anteriores, bastante justa.
Melhores momentos: Peggy e Don discutindo em “The Suitcase”, “Why I’m Quitting Tobacco” e o pedido de casamento no season finale.
3º – Doctor Who

Depois do golpe emocional que foi a despedida de David Tennant justamente no primeiro dia do ano, o futuro da mais importante série britânica de todos os tempos estava no ar. Steven Moffat, Matt Smith e Karen Gillan… Seriam esses nomes capazes de honrar a história da série? Felizmente, logo no primeiro episódio da nova era descobrimos a resposta: sim. Indo além dos mistérios simples, Moffat mostrou completo controle dos pontos fortes da série e consertou vários dos fracos ao criar um enigma que dominou a temporada e enrolou a cabeça dos fãs. Sem medo de passar da melancolia ao pastelão e dos contos de fadas ao terror, também entregou casos da semana da melhor qualidade e deu, com a ajuda da excêntrica atuação de um inspirado Matt Smith e da fofura inigualável de Karen Gillan, vozes fortes tanto aos monstros quanto aos seres humanos. Encerrando com o que é provavelmente o episódio mais complicado do ano, Doctor Who não poderia estar em melhor forma e a sua décima primeira encarnação chutou as bundas dos vilões dentro da tela e de várias outras séries fora dela.
Melhores momentos: o casamento dos Pond, a abertura de “The Pandorica Opens” e Amy, Doctor e Vincent observando as estrelas.
2º – Community

A maior força de Community é quase sempre a menos comentada. Entre paródias e referências a cultura pop, ela achou o ambiente e clima perfeito para contar as delicadas histórias recheadas de decepções daqueles personagens e de como eles tentam formar laços na bizarra Greendale. Os integrantes do grupo de estudos podem ser astronautas, zumbis e bonecos de silicone, mas também são amigos e as construções dessas relações fazem todas essas coisas criativas que amamos funcionarem… O que seria de “Epidemiology” sem a aceitação de Troy quanto a sua nerdice? E de “Cooperative Calligraphy” sem a discussão sobre os problemas de confiança entre eles? Esse conhecimento dos seus personagens e como trabalhá-los nas situações e interações mais atípicas tornam Community não só a melhor comédia do ano, como uma das únicas a entender por completo a sua época e o seu meio. Só nos resta esperar que a NBC ignore a péssima audiência e veja a renovação da série para a terceira temporada como uma oportunidade de restaurar um pouco do apoio crítico que o canal perdeu nos últimos anos, e de consolidar o status de Community como a melhor comédia em exibição.
Melhores momentos: o discurso de Abed na season premiere da segunda temporada, Chang louco no paintball e Lost como o significado do Natal.
1º – Breaking Bad

Eu poderia gastar duzentas palavras elogiando as atuações, o roteiro, a direção, a fotografia, a edição, o planejamento (ou falta de) e diversos aspectos que fazem de Breaking Bad a melhor série do ano, mas isso seria apenas um exercício desinteressante de procurar diversos adjetivos para explicar que essa terceira temporada foi algo raro para uma temporada de televisão: impecável. Ambicioso ao multiplicar os temas da segunda temporada, Vince Gilligan faz tudo o que coloca em prática funcionar, não se contentando com pouco ao explorar quase todos os aspectos do gênero e criar um protagonista tão odioso quanto fascinante, ao mesmo tempo em que não esquece de introduzir novos personagens com competência e dar aos antigos arcos ainda mais importantes e bem desenhados. Isso e a coragem de dedicar quase metade da temporada para resolver o conflito no casamento de Skyler e Walter e um episódio inteiro para a caça de uma mosca, tornam a terceira temporada de Breaking Bad o ápice de mais um bom ano para a televisão.
Melhores momentos: o duelo em “One Minute”, I.F.T. e o encontro com Gus no season finale.
Menções honrosas:
Rubicon – Começou com uma falta de ritmo que destruiu todas as tentativas de desenvolvimento, mas logo se tornou o tenso e viciante drama que tinha potencial para ser. Uma pena que foi tarde demais.
Treme – Dando pouca atenção aos grandes temas e arcos, David Simon construiu a plataforma perfeita para Melissa Leo, Wendell Pierce, Clarke Peters e vários outros fazerem o que fazem de melhor . Não é The Wire, mas é pequena, humilde e incrivelmente boa ao lidar com emoções.
Men of a Certain Age, Modern Family e Friday Night Lights – Tiveram ótimas temporadas, mas as melhores partes delas foram exibidas em 2009 e por isso acabaram caindo no meu conceito durante a avaliação. É um detalhe técnico, mas a regra desse tipo de lista é clara: só episódios de 2010 são levados em conta.
E vocês, o que acharam do ano?





















