Conheça um pouco da websérie As Carpideiras, mais um exemplo da pluralidade de conteúdos no mercado virtual do nosso país.

Talvez um dos grandes exemplos de sucesso do gênero das web-séries no Brasil seja a animação Girls in the House. E também é o exemplo mais adequado para continuar esse texto e tentar, com ele, convencer você a dar um play no episódio de As Carpideiras que está “embedado” logo adiante. Desde que a Terceira Era de Ouro da Televisão começou as séries tem se tornado o terreno fértil para onde fogem até mesmo os nomes mais seguros do cinema internacional. Meryl Streep entrou em Big Little Lies, Julia Roberts estrelou Homecoming e Sandra Bullock está em todos os talk-shows divulgando seu filme para a Netflix. As séries são responsáveis por boa parte da produção de conteúdo que caracteriza o nosso século.

A internet proporcionou a todos uma porta, não só para a fama, mas também para o sonho. Em meio a inúmeros projetos para novas dramaturgias, poucas são aquelas que alcançam os grandes produtores. Isso não impede, contudo, que bons autores e diretores segregados pelo anonimato, tenham na rede um espaço para execução de seus trabalhos. Girls in the House, de Raony Phillips, foi criado em cima das estreitas possibilidades visuais do jogo The Sims, uma ferramenta que Raony usou para conseguir pôr em prática toda a latência de sua criatividade: “Não dava para esperar alguém me descobrir”, disse ele numa entrevista, depois que a série se popularizou. A animação sempre foi limitada, não tinha clareza ou apuro, mas foi no texto e na interpretação das dublagens que o público se ancorou.

O texto é, aliás, o mais importante quando falamos de dramaturgia. Ele preenche as lacunas que a limitação técnica não pode evitar, justificando o trabalho pela perspectiva da vontade, da vocação, da força para levar à cabo, com cara e coragem, o que talvez pudesse ser negado por grandes produtores de entretenimento, que ano após ano, cometem alguns erros de direcionamento (3%, estou falando de você). O terreno das web-séries permite mais ousadia, suporta novos formatos e também serve como painel de tudo que poderia estar sendo produzido pelos grandes canais, mas que não está.

Convido todos, então, a conhecerem um pouco sobre As Carpideiras, uma web-série que acabou de nascer, mas que pode ser aquela que daqui a algum tempo você poderá se gabar de ter visto antes da fama se concretizar.

As Carpideiras 

Pode parecer estranho, mas existiu, anos atrás, uma profissão solene que era exercida por mulheres muito respeitadas na sociedade: as carpideiras. Se você precisasse de alguém para chorar num velório, elas eram a melhor opção para isso. Há, inclusive, registros bíblicos que já apontam a força da profissão e seu caráter ambíguo, que misturava técnica e religiosidade: “Chamem mulheres que são pagas para chorar, mulheres que saibam cantar músicas tristes. Que elas venham depressa e cantem para que nós e nossos olhos se encham de lágrima (Jeremias, 9: 17, 18)”. No Brasil, principalmente no Nordeste, essas mulheres que choravam e cantavam cumpriam as tradições fúnebres; e relatam hoje, no centro do mundo moderno, o enfraquecimento dos rituais de despedida: “As pessoas hoje em dia chegam, cumprimentam a família e vão embora”.

Imagine, então, se para continuar existindo no mercado, a profissão de Carpideira tivesse conseguido evoluir junto com o capitalismo, se transformando num negócio regulamentado, sindicalizado e até mesmo fiscalizado? É dessa premissa que estamos falando. As Carpideiras começa sua história apresentando Denise Danino (vivida por Tiago Maviero, que também escreve e dirige a produção, algo bastante comum nos projetos criados para internet), uma carpideira dos pés à cabeça, ambiciosa, prática, orgulhosa por ter sido a primeira e informatizar o serviço, aceitando cartões de crédito e débito. Uma espécie de Liu Jun-Lin brasileira (Liu é a carpideira mais famosa de Taiwan, chegando a cobrar o equivalente a 1.200 reais por enterro). Denise não tem o aparato de Liu e essa também é parte da graça de sua rotina. Dona de uma capela que vende até “risoles de camarão com camarão”, ela precisa enfrentar a fiscalização do Conselho das Carpideiras, que manda Ivone (Flavio Xavier) para investigar possíveis irregularidades no trabalho.

É notório que a premissa passou por uma idealização longa, que vai desde os maneirismos do texto até a boa ideia de ter todas as carpideiras da história vividas por homens. Esse texto sabe perfeitamente para onde quer ir, instaurando um clima de sitcom (com poucos cenários) e também flertando com as produções de humor brasileiras, com armações estapafúrdias, revólveres empunhados, traições e intrigas descritas de uma forma desavergonhada. É como se a dramaturgia fosse popular na estrutura, mas fosse transgressora no resultado: além das carpideiras feitas por homens, Ivone é lésbica assumida, Kimberly – a secretária vivida por Amanda Vayssiére – tem uma relação ambígua com o maquiador bissexual da capela e os diálogos não se poupam de provocações com a cultura pop e com o momento sócio-político do país.

Enfrentar a exibição de uma web-série, em muitos casos, inclui compreender os caminhos tortuosos que levaram até ela. As Carpideiras foi produzida de modo quase artesanal, com paixão e com a disponibilidade de um grupo de atores das pequenas cidades de Rio das Ostras e Macaé, no interior do Rio de Janeiro. A formação de cineasta do criador é perceptível na abordagem de alguns ângulos e cortes, mas as limitações são notórias. Algumas escolhas de elenco são questionáveis (o trio protagonista, entretanto, funciona muito bem), falta mais investimento em ver Denise exercendo o ofício e em alguns momentos a pressa dos enredos se aproxima perigosamente de quadros de humor barato. E quando parece que a “torta na cara”  será só um clichê usado de forma oportunista, o que se diz depois salva a série do lugar comum. Há uma altivez nessa dinâmica, entretanto. Tudo parece proposital, calculado, mesmo que possa ser julgado como um erro. Por fim, é o texto que transcende os problemas, é sempre ele que faz valer a flexibilidade das nossas exigências de produção. Nós, treinados por anos de acúmulo, cínicos diante da falha, mas dispostos a perdoar a técnica em nome da dramaturgia.

Enfim, a primeira temporada tem 6 episódios e um especial de natal acabou de ser liberado na rede. Abaixo está o player e também está a oportunidade de aproximar a série daquilo que ela mais tem em comum com tudo que ocupa nossa grade: a dependência do público, da audiência, para continuar existindo e para continuar inspirando. A vida de Liu Jun-lin, lá em Taiwan, ganhando seus 1.200 para uma choradinha não é tão interessante quanto a vida de Denise Danino, cobrando 100 para lamentar a morte de tipos suspeitos, em sua capela bagunçada, fiscalizada por uma Scully lésbica e mesmo assim feliz da vida como quase todo brasileiro consegue ser. As Carpideiras é uma web-série sobre morte, mas que vai na contramão da obviedade e prefere ser otimista em sua defesa. Quem se importa se não é tão bem produzida assim? Ela vale o seu tempo e sua conferida, sem dúvida nenhuma.

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