Arrow deixa a Crise de lado para tratar de pais e filhos no eficiente Present Tense.

Com o surpreendente final de Leap Of Faith, as expectativas para o quarto episódio desta temporada final não podiam estar menores, e, mais uma vez, o resultado entregue deve ter correspondido totalmente aos anseios dos mais exigentes fãs. Oliver se viu frente a frente com as versões vinte anos mais velhas de seus filhos e, como era de se esperar, tal (re)encontro não seria de tão fácil digestão, principalmente para a arisca Mia, que nem sequer tem lembranças do pai.

Passado o choque e a confusão iniciais, Oliver precisa lidar com o fato de que os filhos não foram criados juntos e que até mesmo se conheceram recentemente, mostrando que sua família, apesar de ter ficado segura com o seu suposto sacrifício, nunca conseguiu se reunir e, por isso, seus filhos guardam ressentimento, tendo suas boas razões para isso.

William se afastou do pai em um momento turbulento de sua vida. Ainda jovem precisou lidar com a morte da mãe e com a perigosa vida de vigilante que o pai levava, tendo acabado no meio de conflitos e quase morrendo por umas tantas vezes. Isso sem contar a confusão interna que provavelmente estava passando por conta da descoberta de sua sexualidade. Um adolescente de treze anos com muito a contar e ninguém para ouvir, pois, apesar de Oliver e Felicity terem feito o possível para cria-lo com o mínimo de efeitos colaterais possíveis de ser um herdeiro Queen, não conseguiam concentrar suas atenções no filho e mantê-lo em segurança, o que acabou resultando no garoto morando com os avós.

Agora, o William de 2040 está frente a frente com Oliver e enfim consegue desabafar suas verdades. Em sequências muito inspiradas, o filho revela que é gay, recebendo todo o apoio e maturidade do pai, que diz que sempre soube e que só estava esperando o momento em que ele se sentisse confortável para contar (e uma atuação de destaque de Stephen Amell e Ben Lewis aqui), assim como despeja suas frustrações por Oliver não ter se esforçado mais, o que foi algo que inclusive vimos na série. Tirando uma tentativa ou outra de ligação, Oliver não demonstrou vontade suficiente de permanecer na vida do filho, o que resultou nesse momento de acerto. E por ter se sentido, de certa maneira, abandonado, William sabe exatamente como a irmã está se sentindo, uma vez que esta nem sequer teve a chance de se despedir do pai.

Assim, a situação com Mia é um pouco mais complicada. A jovem cresceu reclusa e rechaçando vigilantes, rejeitando qualquer ligação com o nome de Oliver e precisando de um demorado processo para poder aceitar que estava carregando o legado do lendário Arqueiro Verde. Porém, ao se deparar com o pai, todo o trabalho realizado pareceu cair por terra e Mia acabou tendo uma reação muito diferente da do irmão, se mostrando relutante e agressiva. E não poderíamos esperar nada de diferente de alguém que é Oliver até o último fio de cabelo.

E tal embate, como não poderia deixar de ser, ocupou grande parte do episódio. Oliver tenta se aproximar e proteger a filha, impedindo que ela percorra um caminho sombrio que ele já bem conhece, já Mia que ser provar e resolver suas pendências sem precisar correr para o pai que nem mesmo conhece, valendo-se unicamente de seu espírito autossuficiente e teimoso para isso.

E aqui vemos Mia passar por diversas situações que já acompanhamos com Oliver. O luto por perder alguém de seu time. A busca cega por vingança. A dificuldade em externar sentimentos de outra forma que não seja socando alguém. Ao tentar manter o pai longe, tudo que Mia fez foi se aproximar e se tornar mais parecida com ele, seja pelos pontos bons quanto pelos ruins. E foi percebendo isso que talvez tenha resolvido quebrar um pouco suas defesas e permitir que Oliver entre na sua vida, mesmo que momentaneamente, afinal, como todos ali sabem, o futuro não guarda nada de bom.

Present Tense não abordou apenas a relação entre os Queen, uma vez que deu, também, uma boa fatia de seu tempo para os Diggle. Me surpreendeu o modo como John foi retratado friamente aqui, renegando Connor como filho adotivo e até quase que duvidando de sua história. O roteiro tratou de diferenciar o modo afetivo como Oliver tratou os filhos com a displicência de John, afinal, ali são histórias bem diferentes. Enquanto Oliver se viu obrigado a afastar os herdeiros, o John do presente mal conhece o pequeno Connor, nem passando por sua cabeça a ideia de adoção. E tudo piora quando um desconhecido, que aparece dizendo que é seu filho adotado, também revela que o filho legítimo é um psicopata assassino, que se tornou assim devido à falta de atenção em virtude da chegada do novo irmão. Uma história enrolada que dá um nó na cabeça de qualquer um.

Connor talvez não deveria ter mentido quanto ao futuro de sua família, porém, não se cria (ou recria) um laço com segredos, ao mesmo tempo em que John não deveria ser tão intransigente com o rapaz. Porém, felizmente, John foi capaz de fazer um paralelo com o ocorrido com seu irmão e percebido que Andy estava além da linha de reabilitação, mas muito ainda podia ser feito pelo jovem JJ e que um acerto com Connor seria apenas o começo de uma empreitada para criar uma família estruturada e unida.

JJ, em seu presente e futuro, esteve fora do episódio, porém sua sombra estava nítida em cada cena. Finalmente entendemos como ele se tornou um líder dos Exterminadores, com a série incluindo na história mais um filho de Slade, Grant Wilson (desembarcando diretamente da primeira temporada de Legends Of Tomorrow). Toda a trama dos Exterminadores aqui foi bastante esquecível e até entediante, servindo apenas para trazer esse background necessário. JJ foi treinado por Grant, porém, nesta nova realidade em que Grant está preso, um futuro melhor pode (e deve) ser criado.

E Zoe pode ser poupada. Mais do que os desenlaces parentais entre os Queen e os Diggle, me chamou a atenção o modo como René precisou lidar com a informação de que sua filha no futuro foi morta pelo filho de John, e, estourado e impulsivo do jeito que é, fiquei até surpreso que não tenha ele próprio tentado parar Grant. Passando de um choque inicial, René resolveu desconsiderar todo o futuro sombrio que lhe espera e trabalhar para que não aconteça, ou melhor, passou a ter certeza de que não acontecerá, pois, como bem disse Dinah, uma vez que conhecem suas piores versões, só lhe restam ir atrás da melhor. E somente o tratamento dado à Dinah e René aqui, que estavam bem apagados nessa temporada, já eleva um pouco a nota de um episódio que já estava bem competente em suas narrativas principais.

Present Tense conseguiu encarar com maestria a missão de trabalhar várias relações e situações complicadas e, ao deixar um pouco de lado a megalomaníaca Crise, se insere no hall de momentos memoráveis desta nossa última viagem.

Flechadas:

– Em um episódio em que TODO o elenco fixo teve cenas dignas para serem comentadas, chega a ser irônico em que Curtis, o retornante da vez, tenha ficado tão apagado, com exceção de uma ou duas tiradas que conseguiram me fazer rir. Porém, acredito que ainda devemos vê-lo em breve.

– Laurel e Dinah como amigas ainda é algo difícil de passar pela minha garganta. Só quero ver o que o spin-off pretende fazer com essas duas, já que história para ser contada não há mais. E quem acredita que Laurel irá trair Oliver?

– Já cansei desse joguinho do Monitor, Anti-Monitor, ou seja lá quem for.

– Uma cena na series finale com Oliver, Felicity, Mia e William dividindo um bom momento familiar é tudo que precisamos.

– Arrow retorna agora apenas no dia 19/11, com a Rússia sendo a parada da vez. E com Roy e Anatoly de volta.

REVISÃO GERAL
Nota:
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arrow-8x04-present-tenseEsquecendo um pouco a vindoura Crise, Arrow traz um episódio necessário e marcante para sua trajetória.