
Socorram-me, subi no ônibus em Marrocos!
Spoilers Abaixo:
Não é surpresa identificarmos Archer como uma série cujo humor é extremamente idiota. A lógica do roteiro é justamente pegar as características peculiares e amontoá-las ao ponto de retirar a maior quantidade de humor possível das idiossincrasias deles. Essa ideia simples guia a série até nos momentos em que ela tenta alterar algum detalhe como a estrutura narrativa. Se existe uma particularidade que também se mantém ativa por todo esse tempo, são os cenários contrastando com o ambiente tecnológico proporcionado pela temática da espionagem. “Un Chien Tangerine” é um retrato bastante simples do que é um episódio de Archer, sendo feliz ao apostar no básico ao mesmo tempo em que comete leves erros ao trazer aquilo que deveria diferencia-lo do comum.
Archer e Lana estão em uma missão cujo objetivo é trazer um cachorro de volta para a ISIS. Pam quer se tornar um agente no campo e tem como obstáculo a relutância de Malory. A narrativa do episódio é descomplicada, seguindo caminhos previsíveis que por si só não constituem problemas. Na realidade, o segundo segmento é particularmente divertido e interessante de ser visto nessa quarta temporada por lembrar ao público o quanto Archer também é uma série sobre pessoas no local de trabalho. Pam é a escolha perfeita para assumir o papel de protagonista nessa breve parte da narrativa porque o ato soa como uma compensação e permite que uma das melhores personagens da série ganhe um pedaço do holofote que normalmente volta-se tanto para o que ocorre com o protagonista. Além disso, toda a situação parece servir como um arco para o restante da temporada, algo que não pode ser abordado como certeza, considerando que continuidade é um tema bastante relativo nesse universo.
A lógica tomada pelo roteiro é inteligente por associar o desespero da personagem com um espaço que estava basicamente sobrando, considerando que o segmento envolvendo Archer e Lana não tem uma camada extensa de opções para serem desenvolvidas. Aliás, o primeiro lado chegou até a ser indicado através da situação com o peixe anteriormente. A simplicidade da situação é existente através da retirada do humor de momentos particularmente cheios de vergonha alheia. O melhor é como a humilhação de Cyril, Krieger e Ray se expande até Malory, permitindo a variabilidade humorística que a personagem tanto precisava nessa quarta temporada. A presença de humor físico nas cenas também é bastante condizente, principalmente graças ao flashback mostrando a personagem sendo esmagada em uma de suas lutas. Não é surpresa esse segmento funcionar tão bem porque o humor de Pam é aquele que mais se incorpora com o universo da série depois daquele que vem do protagonista. Momentos como quando ela faz a prova totalmente nua nunca repercutem como repentinos porque a imprevisibilidade é um dos principais compostos da química de sucesso da série.
Enquanto Pam tem um espaço de estrela no episódio, é evidente que “Un Chien Tangerine” é bastante inconsistente ao explorar mais uma vez a relação entre Archer e Lana. A questão que atrapalha um desenvolvimento cujo ritmo seja mais apropriado é o caminho bagunçado que o roteiro traça para que a narrativa continue. Tudo se mostra extremamente automático e determinados momentos que deveriam ser importantes tornam-se secundários. Um exemplo fundamental disso é a motivação de Malory para indicar a missão sem nenhum esclarecimento em relação a diversos aspectos que seriam fundamentais para que a viagem ao Marrocos valesse a pena. Tudo que acontece flutua sem nenhum objetivo concreto até o momento em que Lana pede demissão. Essa lógica poderia ter um propósito cômico interessante caso fosse transformada em um arco, mas seu desfecho rápido reflete essa falta de atenção que o segmento recebe. A perseguição no final não ganha contornos tão magníficos como os que essas cenas normalmente têm por essa razão, ecoando como uma cena que se desenvolve automaticamente porque é assim que os episódios de Archer normalmente se encerram.
A chegada do cachorro para elaborar uma nova dinâmica entre o protagonista e Lana consegue ser melhor do que deveria graças à habilidade dos dubladores. Especialmente no primeiro ato, é perceptível como Kazak possui aquela função que normalmente é atribuída a animais em séries, mantendo-se em uma lógica clichê de apreciação e surpresa que não é novidade e não possui nenhum impacto direto sobre os personagens a não ser o abalo da dupla.
Entretanto, com o avanço natural da narrativa, é claro como o roteiro vai aproveitando melhor o contexto que cria. As reações inicialmente de agrado e recusa vão atingindo níveis diretamente proporcionais à quantidade de peidos e vômitos que o cachorro solta no carro. Esse clima de claustrofobia existente dentro do automóvel é o grande trunfo para que H. Jon Benjamin e Aisha Tyler superem essa diferenciação narrativa que realmente não tem diferenças suficientes para alcançarem seu potencial máximo. Os ataques de raiva de Archer não são tão explorados, mas quando aparecem, são excelentes momentos cômicos. Além disso, a discussão inicial entre os dois personagens retrata muito bem como “Un Chien Tangerine” não faz nada especial a não ser pontualmente engraçado em momentos usuais. O curioso é que os erros cometidos também são bastante simples, não tirando muito de um episódio simples até mesmo para os padrões de Archer.














