
Ser o melhor espião do mundo não é o suficiente.
Spoilers Abaixo:
A mudança de Archer em “Live and Let Dine” reflete uma característica de qualquer série que esteja no ar por determinado tempo. Diante das inúmeras possibilidades mostradas anteriormente, é sempre bem-vindo ver a confiança que depositamos em Adam Reed valer a pena do modo que vale no episódio. Boas comédias tem esse surto de criatividade necessário para dar um ar de renovação ocasional que Archer utiliza para colocar a quarta temporada em um nível maior de qualidade. Uma característica comum que não se fez presente no episódio passado foi o fato de todos os segmentos contados ali não culminarem em uma perseguição ou clímax apropriado para o clima da série. “Live and Let Dine” segue a mesma lógica de evitar perseguições ou explosões, mas é capaz de utilizar a atmosfera elaborada anteriormente para trazer esse choque entre os personagens que toma a posição de clímax apropriado antes de um desfecho que é totalmente focado a continuar a dominação do mundo organizada pelos ciborgues.
O modo como somos levados até esses momentos finais constituem o grande acerto do roteiro de Adam Reed. Ele utiliza-se de vários elementos para ir facilmente de um ponto a outro, gerando essa narrativa apoiada por uma montagem muito feliz ao comunicar as cenas de um modo súbito e dinâmico, como, por exemplo, as piadas sobre a Espanha e a relação entre os segmentos do restaurante e do escritório da ISIS, perfeitos usos de raccord sobre o som. Essa mistura de amadurecimento e novidade é essencial para que o episódio seja tão bom, chegando ao patamar de mais engraçado da temporada. Essa combinação também é incrível porque consegue criar duas histórias, mas dar a noção de que ali todos possuem apenas um objetivo. Mesmo não possuindo relação com o resto de imediato, Malory, Cheryl e Pam nunca chegam a ser deslocadas. Olhe como a integração delas não é apenas um complemento da premissa, algo que a série normalmente faz e termina não acertando em cheio. Em um pequeno ambiente e uma menor quantidade de tempo, vemos como as características principais de cada uma das personagens são expostas e excelentes piadas são tiradas a partir disso.
Esse elo criado entre as duas partes são estritamente baseadas na estupidez que é tão normal para aquele universo: Malory cria uma ameaça às relações internacionais entre Albânia e EUA para conseguir jantar em um restaurante de luxo. A personagem ainda tem pequenos momentos que fazem sua presença ainda mais agradável, como o sequestro do peixe e suas reclamações com Ron. Aliás, o chefão dos Cadillacs está cada vez melhor posicionado nesse grupo, ganhando até flashback mostrando sua falta de interesse na ópera. Pam é outra que ganha um destaque surpreendente quando vemos a premissa da narrativa, possuindo um flashback contando a importância do peixe para sua vida, sendo engraçado por trazer um fato que não é surpresa nenhuma diante do que conhecemos dela. Seu desespero também absorve Cheryl para ser ainda mais hilária que o comum, oferecendo a dose de humor sexual necessária para todo episódio de Archer, além de marcar o avanço da narrativa que conecta os dois segmentos.
Enquanto as partes administrativas estão em uma situação apropriada para sua posição, os espiões são colocados em um segmento tão anormal que o humor é fácil de ser aceito. Lana é a maior vítima da mudança, o que justifica o fato das piadas das personagens serem recorrentes e retiradas a partir do seu desconforto. Sua falta de vontade ao não atender ao telefone é algo repetido de modo bastante convincente que é melhorado com o abuso do dono do restaurante. Derrubar um personagem de sua posição moral (algo que realmente existe em Lana, fazendo dela um diferencial positivo para o elenco da série) é a maneira mais efetiva para adequá-la nesse universo que já evoluiu bastante. A posição de Cyril no episódio é parecida, mas suas piadas são baseadas mais na submissão dele a Archer, solidificando-o na posição de loser que funciona bem para ele. Mesmo não possuindo nenhum grande momento de destaque, é perceptível como sua dinâmica com o protagonista é explorada como um complemento para delimitar a esquisitice da situação, como quando a comida é atirada e ele deve limpar o chão. Ray segue o mesmo princípio, mas o conhecimento da série sobre seus personagens permite a sensacional piada do child-murderer na televisão, fazendo com que ele não se torne muito exilado no contexto.
O estilo de documentário que é elaborado no início tem um poder cômico incrível, trazendo uma nova perspectiva que aumenta ainda mais o estranhamento que os personagens possuem naquela situação. Essa capacidade de fazer daquilo algo condizente com a história é um dos destaques do roteiro, que ironiza si mesmo no diálogo entre Archer e Lana sobre o funcionamento da televisão. Do protagonista é cobrada uma função não tão grande comparada aos outros episódios da temporada, sendo que a responsabilidade de contar uma história está nos ombros de todos. Essa lógica permite que o personagem flutue ao longo da narrativa apenas iludido diante do seu disfarce. Aliás, essa característica traz o lado imbecil dele, irritando todos gratuitamente e fazendo de suas relações com o resto um choque de onde é tirada uma mistura de raiva, indiferença e vergonha, elementos que podem ser vistos na piada recorrente da tigela caindo, um dos destaques de “Live and Let Dine”, e os novos nomes que os personagens recebem.
É ainda mais surpreendente vermos um novo personagem se destacar tão bem como Casteau consegue aqui. A ganância e provocações que constituem seu comportamento são exemplos primorosos de pessoas que são fáceis de aceitarmos no universo de Archer. Sua obsessão com Lana e desgosto pelos membros da ISIS torna sua figura muito engraçada. Não apenas isso, pois é natural que ele seja o vilão do episódio, dando um senso de continuidade bem necessário para essa quarta temporada quando vemos que ele fez parte de um plano de Katya e Barry. Entretanto, provavelmente não o veremos mais por essas bandas, considerando sua possível morte anticlimática que encerra um dos melhores episódios de Archer.















