
Não confie na vadia do apartamento 23.
Spoilers Abaixo:
Depois de assistir à estreia de Apartment 23 eu estava tão animado, mas tão animado, que achei melhor esperar algum tempo a mais para escrever o review ou o risco de parecer um fã ensandecido seria muito grande.
A explicação é muito simples: eu sou um imenso fã de Dawson’s Creek. Mas imenso mesmo. Daqueles que tem os boxes e assiste tudo de novo pelo menos uma vez por ano. Eu adoro tudo a respeito da série. O texto sensível, os atores corretíssimos, a trilha sonora inspirada, o clima interiorano quase lúdico… Claro que eu sei que a série teve problemas (principalmente a partir da quarta temporada), mas mesmo assim, era puro amor. Se Apartment 23 vingar, eu ainda conto pra vocês toda a minha saga pra conseguir acompanhar Dawson.
Enfim, a presença de James Van Der Beek no programa é boa parte da minha empolgação, principalmente porque ele vive ele mesmo. Sim, ele mesmo, numa sacação dramatúrgica impressionante. Ao invés de contratarem James para viver um ator decadente qualquer, propuseram a ele viver ele mesmo. Mostrar e fazer piada com o estigma que um ator carrega por causa de um personagem. Em Apartment 23, James vive James, mas um James “piorado”, com todos aqueles clichês dos atores que precisam se afirmar perante um mercado que não acredita mais neles.
Eu percebi depois de assistir aos episódios, que precisava tomar cuidado para não tornar a presença de Dawson (como ele é chamado praticamente o tempo todo) mais importante que todo o resto. Até porque, todo o resto de Apartment 23 é muito interessante sim.
No Piloto conhecemos June, uma garota do interior que ganha uma chance de trabalhar em Nova York, mas no seu primeiro dia, perde o emprego e se vê na pior. Sem ter onde morar, June acaba indo procurar uma colega de quarto, e se depara com a excêntrica Chloe (vivida por Krysten Ritter que já andou dando as caras em Veronica Mars e Breaking Bad). Chloe parece ótima, mas não demora pra June perceber que a nova colega só quer se aproveitar dela.
Se a premissa parece sedutora, os coadjuvantes são mais ainda. Desde a vizinha obcecada por Chloe até o vizinho Eli, um pervertido que aparece sempre da janela de sua casa (que dá pra cozinha de Chloe) fazendo caras obscenas enquanto se masturba.
O saldo de momentos ótimos desse piloto é tão grande que não dá nem para comentar… Quase todos têm a ver com James. Em dado momento, Chloe liga para o amigo James, e ele está com uma fã, usando a camisa de flanela do Dawson (sua arma de fogo) e tocando I don’t want to wait pelo apartamento. Chloe conta que eles namoraram, mas resolveram ser só amigos (bem no estilo Dawson) porque eram “genitalmente incompatíveis”. James lê roteiros de Judd Apatow e faz comerciais ridículos para o Vietnã. Em meio a isso, participa ativamente da rotina de Chloe, que tem o lema do “engula o mais fraco” como filosofia de vida.
Sabemos então, que o primeiro episódio é aquele que vai estabelecer a relação entre June e Chloe. Sabemos que June vai ser passada para trás o tempo todo, mas que em determinado momento Chloe vai ser rendida e surpreendida pelo contra-ataque da “bobinha do interior”. E é exatamente o que acontece, com June descobrindo que é capaz de reagir e que de fato, o encontro com Chloe ajudou a mostrar o que de estancado havia em sua vida.
É só no episódio seguinte, Daddy’s Girl, que começamos a ver a brincadeira com a dinâmica das duas: Chloe com valores completamente subvertidos, e June em choque direto por conta de sua moral bucólica. O nível de disfuncionalidade da personalidade de Chloe foi retratado tão intensamente que vai ser difícil se superar depois disso. Todo o plot envolvendo a família da personagem foi muito sagaz, rendeu momentos hilários e inteligentes e mostrou que a série pode sim ser muito mais que a presença de Dawson.
James nesse episódio estava ótimo, aliás. Com ódio de James Franco, ele resolve, assim como o astro, dar aulas de atuação na universidade de Nova York. Ele se paramenta todo, mas quando chega lá, percebe que os alunos só querem perguntar sobre Katie Holmes e sobre o monólogo em que Dawson se declara para Joey pela primeira vez (como não amar?). Ao final, o pobre coitado é levado a aceitar o fato de que tem muita sorte em poder representar uma coisa tão grande, e se conforma com seu destino. Apartment 23 é boa com ele, o retrata com certo respeito e já nos informa que a incompatibilidade genital dele com Chloe é porque ele é o pepino da metáfora.
O único problema que eu alcancei foi no segundo episódio, quando depois de um episódio muito bem pensado, o final exagera as características de Chloe por pura preguiça de fechar o enredo. Isso é perigoso, porque se perdermos o limite do verossímil, vira Zorra Total, e isso seria uma imensa decepção.
Acho que mesmo tendo esperado pra escrever, ainda estou profundamente tomado pelas alegrias que revisitar o universo do Creek me causou. Precisamos esperar para saber qual o caminho que a série vai tomar, e torcer pra continuarem indo bem. Eu fiquei muito satisfeito e me senti presenteado da maneira mais irônica e divertida possível.
Dawson’s Notes: Chloe ouve música brasileira, mas só ao vivo.
Dawson’s Notes 2: Mais aparições para Tamika, a namorada inflável de Eli.
Dawson’s Notes 3: No segundo episódio, a canção Hello, do Lionel Ritchie, dava bem o tom das cenas que exibiam os anseios de June.
Dawson’s Notes 4: Não percam na Rússia a estreia de Diaghilev’s Sad Show.











