Franquias cinematográficas, assim como uma faixa elástica, tem um ponto limite de até onde pode ser esticada. Após esse limite, o elástico arrebenta e não há conserto possível que o recupere. No caso do cinema, há sempre a capacidade de inovação, de revitalização criativa, mas há também casos em que a prolongação é o motivo de sua derrocada (Hobbit estou falando de você). Anjos da Noite: Guerras de Sangue (Underworld: Blood Wars, 2016) é um filme que se vende como o ponto final de uma franquia, mas que na verdade é apenas mais um passo rumo a estagnação narrativa da saga.

Guerras de Sangue: literal e figurativamente

Perseguida por ambos, vampiros e lobisomens, Selene (Kate Beckinsale) se vê isolada, lutando para se manter viva a cada noite. Quando a guerra que se arrasta por séculos aparenta chegar em seu ponto crucial, ela se vê na posição de acabar de vez com o conflito, mesmo que um sacrifício final seja necessário.

Anjos da Noite: Guerras de Sangue
Anjos da Noite: Guerras de Sangue

Anna Foerster (egressa do mundo das séries) faz o que pode com o roteiro de Cory Goodman, em seu debut na direção de blockbusters. A grande questão é que o filme soa como uma mistura inusitada de uma peça de Shakespeare com uma partida de “Vampiro: A Máscara”, que resulta num filme divertido, mas um tanto quanto estranho. A ambientação gótica, marca registrada da série, ganha contornos ainda mais grandiosos quando evolui para mostrar outros clãs, ganhando um escopo global. O problema é que ao adotar esse senso de urgência na narrativa, boa parte dos elementos e personagens passam despercebidos, carecendo de empatia com o público, um deus ex machina atrás do outro. E eles são muitos, já que o roteiro brinca com linhas sucessórias, híbridos, vampiros nórdicos (ou como chamo, vampiros Targaryen, devido aos seus cabelos platinados que remetem diretamente a série da HBO), traições e tantas outras reviravoltas surgem e se diluem na película, carregada na fotografia escura que perdura por toda sua duração, tornando algumas cenas incompreensíveis, ainda mais com o uso do 3D. O gore está garantido, com barris de sangue digital sendo despejado aqui e acolá.

Anjos da Noite: Guerras de Sangue
Anjos da Noite: Guerras de Sangue

Theo James e Charles Dance retornam como David e Thomas, respectivamente. Nas novas aquisições estão Tobias Menzies (como Marius, líder dos lobisomens), James Faulkner, Clementine Nicholson (como Daenerys Lena, dos vampiros nórdicos), Bradley James (Varga, o boytoy vampírico) e Laura Pulver. Pulver e sua Semira, com um tom digno de Lady Macbeth, repleto de manipulação e sedução é a contraparte vilanesca perfeita para Beckinsale e sua indefectível roupa de couro preto. Uma chuta bundas literalmente a outra o faz com muito mais finesse e desprendimento.

A sensação que fica é que Anjos da Noite: Guerras de Sangue é um reboot transvestido de encerramento, finalizando uma trama principal e deixando um caminho aberto para uma continuação. O caminho que pode ser traçado é até interessante, rendendo uma nova lufada de ar na mitologia criada ou uma repetição contumaz dos padrões produzidos até aqui. Se haverá a força necessária só o futuro dirá, porque somente de sangue misturado não se faz um bom roteiro.

* O Série Maníacos assistiu Anjos da Noite: Guerras de Sangue a convite da Sony Pictures Brasil

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REVISÃO GERAL
Nota:
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Lucas Fernandes
Cinéfilo, sériemaníaco e designer não praticante nas horas vagas.
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