O jogo entre ficção e realidade já começou.

A proposta esse ano veio completamente diferente, mas o tamanho da discrepância entre esse e os outros também aumentou a necessidade de certas explicações. Ryan Murphy não aguentou deixar a temporada falar por si mesma e já deu algumas declarações, afirmando que não temos a menor ideia do que realmente está acontecendo e que muito em breve, as nossas impressões serão afetadas por grandes e inevitáveis viradas. Deu quase um aviso: apresentamos esse formato a vocês, apenas para que manipulemos suas expectativas.

É tudo uma questão de limites entre realidade e ficção. O jogo proposto pelas bases dessa nova narrativa é muito intrigante porque terceiriza essa “mentira dramatúrgica” e faz com que o irreal esteja dentro de outro irreal, resultando numa constante dúvida: o que é “real” no final das contas? Sem dúvida nenhuma, o que nos espera no futuro dessa temporada é uma resposta sobre disso, exatamente. My Roanoke Nightmare é um programa que está fadado a ser questionado. Quem são os “verdadeiros” Shelby e Matt? Lily Rabe teria sido escalada apenas para dar depoimentos para uma câmera?

O Capítulo 2 desse momento – que já pode ser chamado de Ato 1 do sexto ano – começou exatamente do mesmo ponto em que parou o Capítulo 1. Essa chegada de Shelby na floresta, presenciando o aparente ritual de sacrifício humano, foi marcante por dois motivos: a presença de Lady Gaga com uma aparência muito diferente da que vimos em Hotel (fato que considero ótimo, porque quero mais é que ela prove que é sim, uma atriz) e a provável ligação com Murder House, na figura do Pig Man.

Há uma história sobre um açougueiro em Chicago que colocava uma cabeça de porco na hora de abater animais e que adorava ficar se olhando em espelhos. Seu espírito maligno teria ficado preso em um deles e isso teria dado origem a lenda que vimos no primeiro ano. Acho que dificilmente Roanoke vá abordar a história desse “homem porco” por essa perspectiva, mas há uma insistente abordagem de homens com cabeças animais na mitologia do show e a constante aparição do pig-man nesses dois primeiros episódios deve nos indicar alguma coisa. Notem que até mesmo a aparição que ele fez para Lee foi através de um espelho, o que deixa a conexão ainda mais forte.

Outra ligação com Murder House foi feita através da mesma base que se repetiu em Hotel: os espíritos presos dentro de uma residência com uma grande história de morte. As enfermeiras Bridget e Miranda andam pela casa e Matt acaba presenciando uma espécie de re-encenação de um de seus crimes. Assim como fizeram em todos os anos, histórias reais são usadas para ilustrar os acontecimentos dentro da ficção. Bridget e Miranda são as personas que reproduzem a história de Gwen e Cathy, duas enfermeiras do Michigan, que além de amantes, eram assassinas de vários dos internos da casa de repouso onde trabalhavam.

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Assim como na série, elas resolveram escolher suas vítimas de acordo com as iniciais de seus nomes, mas ao chegarem ao segundo R de MURDER, perceberam que estava complicado demais conseguirem mais uma vítima que seguisse a regra. Logo depois de tentarem usar um outro método de seleção, Cathy teria se apaixonado, fugido; e mais tarde contado ao ex-marido sobre os crimes. Ela acabou testemunhando contra Gwen, alegando ter apenas assistido os crimes. Gwen acabou condenada a prisão perpétua e Cathy estará elegível para condicional em 2021. As duas, contudo, não matavam pacientes com tiros ou sufocamentos, preferindo métodos que não deixassem tantos rastros.

Curiosamente, a palavra MURDER usada no episódio e retirada da história delas, também nos lembra The Shinning, de Stephen King, em que o menino Danny tinha visões da palavra REDRUM, que é “murder” escrita ao contrário. A referência não é tão marcada, embora haja, nos dois casos, um clima de loucura e alucinação que inclui uma crescente ideia de que o que aquelas forças querem, pouco a pouco, é atraírem os residentes para aquela espiral de inconsciência e torpor que acabará por fazê-las parte do mistério.

Apesar de termos visto o episódio frisar bastante o drama de Lee (com uma Angela Basset valorizada como merece), o que me deixa cada vez mais intrigado é o quanto de “dramatização” existe na rotina de Shelby e Matt e o quanto de “documental” existe naqueles depoimentos. Até agora, Roanoke tem sido um exercício constante de suspense e com elementos de terror até bem mais presentes que de horror. Porém, considerando que parece estarmos diante de um embuste, suspendemos a efetivação das nossas impressões e precisamos esperar mais para tirar qualquer conclusão.

Enfim, enquanto não é possível rastrear as verdades por trás desse sexto ano, vamos nos divertindo com sequências de arrepiar a nuca. Sons estranhos, baques, aparições, alucinações… É como se Roanoke fosse um tipo de “frenesi do medo”, em que é impossível encontrar um só bloco sem apelo sobrenatural. Cientes de que precisavam adiar a verdadeira essência da própria história, os roteiristas encheram de eloquência o mal e o pavor que rondam as cenas, fazendo desse novo formato uma investida eficiente para nosso imaginário apavorado, sedento por mais razões para continuar tremendo.

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