Preparados para a quebra de todos os paradigmas?
Aconteceu em 1590, mas a lenda persiste até os dias de hoje… A Rainha Elizabeth I incumbiu Sir Walter Raleigh de estabelecer uma das primeiras colônias naquele que os ingleses chamavam de Mundo Novo. Raleigh deu algumas ordens e logo a região onde hoje se encontra a Carolina do Norte foi descoberta. Era uma região perfeita, de onde a luta contra os espanhóis poderia continuar e de onde ainda poderia haver um contato com os nativos, índios croatanos de uma tribo chamada “pamlicos”.
Após algum tempo – e depois de ter passado o comando para um amigo chamado John White – o próprio Raleigh exigiu expedições e Roanoke foi deixada sozinha pela primeira vez. White partiu para uma missão de deixou uma recomendação: se o inimigo se aproximasse, os moradores da vila deveriam deixar a localização talhada numa árvore, junto com uma cruz de malta, que caracterizaria o ataque. Então, White ficou fora por três anos e quando voltou, encontrou Roanoke completamente deserta. Roupas e objetos pessoais tinham sido deixados para trás e não havia uma só pessoa por perto. Talhada numa árvore (mas sem a cruz de malta) estava a palavra Croatoan. White até pensou em ir até a ilha homônima, mas a frota resolveu partir e ninguém nunca mais voltou. Os moradores de Roanoke nunca foram encontrados e nem se soube o que aconteceu com eles.
Na primeira temporada de American Horror Story, a médium Billie Dean ofereceu ao público uma das versões para o que aconteceu: a população da colônia teria morrido inteira inexplicavelmente, mas seus espíritos passaram a assombrar tribos e novos colonos. Então, um ritual de “exorcismo” foi providenciado e ele consistiu em queimar pertences dos desaparecidos e escrever numa árvore a palavra Croatoan. Assim, o que John White teria visto quando chegou seria parte do ritual e não um aviso de que o inimigo espanhol estava por perto.
Há pouco tempo atrás, inclusive, o site TMZ vazou algumas fotos do que seriam os estúdios da sexta temporada do show e era possível ver Croatoan talhado numa árvore. A suspeita de que esse ano veríamos Roanoke sendo retratada aumentou e como pudemos ver na premiere, acabou sendo confirmada. Essa confirmação, contudo, não seguiu as nossas expectativas de uma forma linear. As quebras de paradigmas são tantas que só estamos chamando a temporada de Roanoke porque precisamos chamá-la de alguma coisa. Nem mesmo o subtítulo desse ano veio caracterizado como estamos acostumados a ver.
Nada de abertura também… No lugar da longa sequência de créditos e sua característica trilha sonora, uma vinheta rápida com a logomarca no mesmo estilo do primeiro ano só surgiu na tela após conhecermos o novo formato narrativo. Tal qual aqueles programas de mistério da TV a cabo que dramatizam seus depoimentos, a premiere de American Horror Story começou com um aviso de fatos reais e uma outra vinheta, dessa vez demarcando esse mesmo programa de mistério, que, não por acaso, se chama My Roanoke Nightmare. Qualquer fã regular da série não esperaria por isso de forma alguma.
A reformatação da narrativa é provocativa e extremamente chocante para os que estão acostumados com o que o show fez esses anos todos. Não só estamos acompanhando um programa de TV dentro da série, como isso também “terceirizou” as exigências de envolvimento com o que está sendo visto. A história do casal Shelby e Matt é contada por eles mesmos, que são vividos por Lily Rabe e Andre Holland. Enquanto eles contam, a dramatização apresenta os eventos e nela, eles são vividos por Sarah Paulson e Cuba Gooding Jr.
O formato provoca uma distensão de fé na recepção do espectador, já que a verdadeira Shelby e o verdadeiro Matt são aqueles que aparecem nos depoimentos, enquanto a Shelby e o Matt que “vivem” o terror fazem parte de uma encenação. É claro que sabemos que tudo é uma encenação, mas fomos programados pela natureza para comprarmos a fantasia desde que ela seja “real” dentro das diretrizes da fé cênica. O que isso quer dizer? Quer dizer que posso chorar vendo uma cabeça decapitada falando, porque aquela é uma cabeça dentro de um contexto estabelecido como “real”. Em My Roanoke Nightmare o “real” está nos depoimentos, enquanto os terrores vistos na dramatização são “coadjuvantes da verdade”, o que pode provocar um ligeiro desapego emocional em parte dos espectadores.
Dito isso, só posso esperar que de alguma forma esse novo formato escape de si mesmo. Em se tratando da mitologia de American Horror Story isso não é impossível, visto que Ryan Murphy já declarou que essa temporada fará importantes conexões com outros anos e é difícil visualizar esse processo dentro das prisões de um pseudo-documentário televisivo. Documentário esse que se apressa na apresentação de seu drama: um casal se muda para Roanoke e descobre que as lendas sobre o lugar estão mais certas do que imaginavam. Obviamente que precisaremos ver como a colônia de Roanoke tornou-se um símbolo de medo e isso, por si só, exige uma bifurcação de narrativas.
A dramaturgia desse primeiro episódio estava cheia de conexões veladas com os teasers liberados e declarados como falsos. O teaser do dente apareceu na chuva dos mesmos, o teaser do berço apareceu na sequência em que Lee descobre um bebê numa batida, os teasers dos gravetos, das bonecas e até o da mulher sendo agarrada num lago, podem ser vislumbrados em sequências implícitas dentro do episódio. Além disso, praticamente todos os eventos sobrenaturais tiveram a ver com esse provável passado sombrio do condado, com uma pequena exceção: as duas mulheres que Shelby vê andando pela casa e que lembram demais algumas das cenas em Murder House.
Esse, aliás, é um ponto importante a se pensar… Sabemos da mitologia lançada na primeira temporada (sobre a energia de locais onde muitas mortes aconteceram), mas já a revisitamos exaustivamente (sobretudo em Hotel). Por alguma razão, sou levado a crer que todo aquele pessoal na floresta, os que invadiram a casa, os que aparecem no vídeo do porão e até Kathy Bates, não estão mortos. Se forem membros da colônia desaparecida, há uma infinidade de possibilidades que justifiquem suas aparições no presente. E essa é uma questão delicada sim, porque ao mesmo tempo em que o novo formato se afasta do convencional, do não-conformismo, estamos diante de aspectos recorrentes de American Horror Story, como uma casa assombrada, rituais de magia negra, espíritos presos na terra e até um homem com uma cabeça de porco.
É extremamente cedo, inclusive, para chegar a qualquer conclusão sobre o que veremos a seguir. O FX já começou a vender a temporada como aquela que tem “uma verdadeira história de horror americana” e com isso podemos concordar sem hesitação. É como se o show estivesse caminhando para o “onde tudo começou”. Roanoke foi um dos primeiros lugares a serem estabelecidos como parte da América e por consequência, alguns dos males sobrenaturais que passaram a fazer parte da cultura americana também podem ter começado ali. Sob esse aspecto, estamos diante de uma temporada imensamente promissora. Uma temporada que reflete o constante compromisso da marca Ryan Murphy com a reinvenção. Disso não há como não se orgulhar.
Roanote: Os créditos depois do episódio revelaram o elenco principal e isso confirmou Evan Peters como um dos maiores veteranos do show. Ele é o único que sempre esteve no main cast desde o primeiro ano (Sarah não estava no main cast na primeira temporada e Lily não estava na quarta e na quinta).
Roanote 2: Quem mais não reconheceu Chaz Bono na sequência da compra da casa?
Roanote 3: A promo liberada logo depois da exibição da premiere animou a galera e alguns veículos acreditam que a mulher ao lado de Bates, na imagem abaixo, trata-se de Lady Gaga. Se for, eu estou ansiosíssimo para ver, já que ela parece bem diferente.
















