Em seus dois episódios passados Cult reforçou que essa é sua temporada mais absolutamente realista.

Assistindo aos dois episódios passados de American Horror Story, ficou bastante claro para mim que Charles Manson e o Helter Skelter são as grandes inspirações para tudo que estamos vendo acontecer no show. Sei que já mencionei isso em reviews passadas, mas em Holes e Mid-Western Assassin essas referências se tornaram muito mais concretizadas até pela forma como os roteiros vem conduzindo a trama e – sobretudo – a personalidade de Kai. A ponte é eficiente e relevante, já que para uma temporada onde os monstros somos nós mesmos, inspirar-se num dos maiores que o planeta já viu faz todo sentido.

Para quem não sabe, Charles Manson era um cara totalmente comum, com uma família disfuncional, que acabou sendo preso por pequenos crimes e desenvolveu na prisão uma profunda atração pelas técnicas de oralidade, hipnose e cientologia. Frio, sem empatia, mórbido e ambicioso, sonhava ser um músico de sucesso e chegou a São Francisco na década de 60 em meio a Beatlemania e o movimento hippie. Estabeleceu-se na cidade, começou a “recrutar” jovens problemáticas e rapazes sem perspectivas para se juntarem a ele no que ele chamava de “A Família”. Depois de muitas tentativas de alcançar o estrelato como músico, Charlie viu seus sonhos ruírem e disposto a tudo para ser notório, convenceu seus seguidores de que ele era o escolhido para “mudar o mundo”, de que uma revolução precisava acontecer e que ele daria um empurrãozinho para isso.

No vídeo acima, lá pelo segundo 0:34, ouvimos Charlie comentar suas instruções para seus seguidores no primeiro dia de matança. Ele diz “Se forem fazer alguma coisa, façam direito… E deixem algo satânico” (a palavra na verdasde é witchy, mas essa é uma tradução mais equivalente). Essa é exatamente a estratégia de Kai para começar a chamar a atenção do público. No final dos anos 60, Manson esperava incitar uma guerra racial fazendo parecer que negros invadiam casas e matavam pessoas em rituais de bruxaria. Ele achava que seria uma espécie de salvador da humanidade depois que a guerra acontecesse, assim como Kai acredita que numa sociedade movida pelo medo, ele teria alguma alternativa de poder. No fim das contas, ambos eram losers em uma vida que os fez querer desesperadamente uma sensação de serem “especiais”.

Holes 

A ideia de “deixar algo satânico” nas cenas dos crimes de Manson resultou em frases escritas com sangue nas paredes, um garfo enfiado numa barriga, a palavra “war” talhada na pele, pessoas com mais de 30 facadas, incluindo uma grávida de nove meses. Era de se esperar que as sequências de ataque em American Horror Story fossem igualmente gráficas. E foram… A sequência em que os palhaços encontram o “escravo” de Bob foi das coisas mais perturbadoras da carreira do show. Era tão agressivo que dava para ter alguns espasmos só de olhar. A sequência tinha um peso, uma energia ruim, uma perversidade que se relacionava muito bem com os incômodos provocados pela ideia de um mal tão essencial.

Aliás, mal essencial é o que essa temporada mais tem mostrado. Talvez por isso (e também por conta de tantas provocações políticas) a audiência tenha se mostrado oscilante. Holes foi um episódio importante para a mitologia desse ano. Revelou sem drama, sem espetáculo, quem estava por trás de que máscara e estabeleceu as raízes desse culto. Tudo começa com Kai, em sua capacidade inegável de convencimento, de farejar fragilidades, de colecionar um monte de seguidores fracos de espírito, crentes de que são fortes. Evan Peters tem feito mais um lindo trabalho, dosando a loucura, o delusional, a inteligência e a frieza de seu psicopata de forma extremamente competente. Para Manson – no passado – e para Kai –  dentro da série –  o sucesso seria sempre o reconhecimento de suas brilhantes mentes, com o plus de liderar um séquito de idiotas que fizessem tudo que lhes fosse mandado.

Lá nos anos 60, Manson também tinha um “elo fraco”. Linda Kasabian acompanhava os seguidores de Charlie na noite em que ele ordenou as mortes de todos que estavam em Cielo Drive. Ela não participou ativamente das mortes, ficou apenas vigiando o portão, mas presenciou a desesperada tentativa de fuga de duas das vítimas. Mais tarde, aceitou testemunhar em troca de imunidade e foi pensando exatamente em evitar isso, que Kai fez com que cada um dos membros do culto “sujasse as mãos”, algo que o próprio Manson também fez após a primeira noite de crimes. Quando ainda estávamos nos recuperando das sequências da morte de Bob, vem aquele horror em forma de crânio perfurado.

Daí por diante os laços que unem Kai, Winter e Vincent começaram a ser explorados. Essa é uma parte da dramaturgia da temporada que existe pura e simplesmente para que a carpintaria possa ser mais apurada e os personagens terem mais que uma dimensão. A preservação dos cadáveres é um detalhe típico de AHS, mas apesar de tudo ter sido conduzido de forma esperta (assim como nas certeiras idas e vindas no tempo), o que nos interessa mais é essa atmosfera de medo e terror provocada pela ideia de que a qualquer momento alguém pode invadir sua casa e te matar por absolutamente nenhuma razão. Foi esse terror que fez com que até estrelas de cinema fugissem de Los Angeles nos anos 60… E é esse terror que Kai quer provocar.

Mid-Western Assassin 

Os eventos de Mid-Western Assasin estão diretamente ligados aos de Holes e talvez por serem tão dedicados à tentativa de surpresa, é que tenham soado tão pouco surpreendentes. Toda a trama que envolve o desligamento de Meadow já parecia um embuste com bastante antecedência, mas isso não deixa de ser interessante, porque a forma como a história se conduz referência Manson por mais algumas vezes. As mulheres que o seguiam estavam dispostas a tudo e ele sabia exatamente como chegar inteiro nas mentes delas. Algúem como Meadow, com tão baixa auto-estima, seria o soldado perfeito. Aquele que se proclamaria Kamikaze com todo o orgulho.

https://www.youtube.com/watch?v=JC7EwmJejV4

No vídeo acima vemos Susan Atkins, seguidora mais ardorosa de Manson, contando como ela não teve pena de matar a atriz Sharon Tate, grávida de nove meses, na noite dos primeiros crimes. Lá pelo minuto 3:20, ela começa seu relato com a voz doce, quase vestida de freira, sem conseguir disfarçar o teatro de moça arrependida. Durante anos, Susan (que provocou a prisão da Família Manson justamente por gostar de contar com orgulho que tinha matado pessoas) defendeu e obedeceu Charlie cegamente e é bem provável que a imagem dela tenha se refletido em Meadow. Por mais absurdo que possa parecer alguém ser tão submisso assim, no final das contas não é absurdo de modo algum.

Um emaranhado de coincidências permeou esse episódio e por isso ele soa ligeiramente forçado. Toda a construção feita pela edição, que mostrou as coisas sendo esclarecidas por meio de flashes, foi esperta, mas situações como a que colocou Ally no banheiro de Sally Keffler são providenciais demais e retiram credibilidade do roteiro. Como estamos falando de AHS, em que o texto sempre foi sua maior salvação (vide os exageros factuais de Coven), até mesmo essa cena é redimida pela ironia de ver uma líder política sendo difamada antes da morte por um post do Facebook. E se está no Facebook, é verdade.

A melhor sequência desse “faroeste” deu-se mesmo no embate entre Sally e Kai (Peters e Mare sempre juntos). A forma como a personalidade dele foi destrinchada, suas motivações oprimidas… Texto incrível. Sem dúvida nenhuma, um dos grandes acertos desse ano. Sally desvendou o egoísmo, o narcisismo, e a forma como esse tipo de reacionário radical se apodera do medo para que as pessoas sejam convencidas a segui-lo. É como aqui no Brasil, em que um candidato promete matar todos os bandidos e imediatamente ganha o apoio de gerações. Kai está certo quando diz que uma sociedade amedrontada é capaz de aceitar qualquer comando (QUALQUER mesmo), mas Sally deixa bem claro que isso é oportunismo, não salvação. Lindo.

As implicações da sequência final eu espero que sejam mínimas para Ally. Dramatizar em cima de uma situação claramente solúvel seria bobagem e a temporada tem coisas mais importantes a dizer. A principal delas é o quanto está doente e corroída a noção de pátria, de humanidade, de força. Há um detalhe a respeito dos crimes de Manson que acho bastante emblemático: Quando os assassinos voltaram ao rancho e reencontraram Charlie, ele ouviu o relato e decidiu que faltavam alguns toques na cena para que o choque fosse maior. Então, ele voltou a Cielo Drive, no meio da madrugada, entrou na casa e a grande suposta mudança que fez foi estender no sofá da sala uma imensa bandeira dos EUA. Aos pés desse sofá, Sharon, grávida, jazia em meio a uma poça de sangue. Atrás da bandeira, na porta de entrada, a palavra PIG escrita com o sangue dela… Manson voltou ao rancho e disse a seus seguidores: Um dos maiores atos de amor de um ser humano para com o outro é o de matá-lo.

Deus salve a América.

Murphy’s Cult: Mais perturbador que o assassinato de Bob? Ele descendo as escadas antes do ataque, lambendo o sangue de seu escravo dos dedos. 

Murphy’s Cult 2: As motivações de Ivy foram bem colocadas nesses dois episódios, mas agora começo a torcer para que ela se ferre muito. 

Murphy’s Cult 3: Meadow via a Drag Race <3. 

Murphy’s Cult 4: Há uma teoria maluca de que os crimes de Manson foram todos encenados pela CIA. Gente que inventa esse tipo de coisa me assusta tanto quanto quem mata. 

Estive com alguns problemas de tempo, galera. Mas, vou parar de atrasar as reviews, promisse.

 

REVISÃO GERAL
Nota:
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