AHS Cult joga com minimalismos que soam recorrentes, mas ainda manipula bem a cultura do medo.
Ano passado, durante sua sexta temporada, American Horror Story surpreendeu o mundo com uma virada de mesa que jogava por terra toda a sua ligação com a própria identidade. A temporada Roanoke foi a mais violenta e a menos ligada ao universo que a própria série tinha estabelecido. Nada de abertura, nada de visual dramático, nada de teasers, nada de muitos núcleos e muitos personagens. A história era concisa, direta e embora metalinguística, era decidida a manter-se no foco de sua proposta. Talvez por causa disso, uma grande parte dos espectadores que já rejeitavam a pluralidade habitual do show, acabou se interessando por Roanoke, o que fez do sexto ciclo um dos mais bem-sucedidos.
Lá naquele sexto ano a trama passava metade do tempo contando a história de uma mulher que, junto com o marido numa casa isolada, era atormentada por um grupo de fantasmas. É quase inevitável fazer um comparativo com o que está acontecendo agora, nesse momento da temporada atual. É como se Roanoke e Cult cantassem canções parecidas, já que chegamos ao episódio 3 e os eventos podem ser resumidos assim: uma mulher e sua companheira são atormentadas em sua casa por um grupo, só que não de fantasmas. E tanto em uma quanto na outra, a mulher perseguida é tratada como louca pelo cônjuge. Recursos como marcas nas paredes, vislumbres de formas e vultos, correrias após barulhos estranhos e tantos outros, também são pontos em comum entre os dois anos, o que coloca sobre Cult uma sombra perigosa de repetitividade.

Ally, a personagem de Sarah, se aproxima da protagonista de Roanoke na sua histeria e na confusão sobre o que é ou não realidade. Os gritos, choros, pedidos de socorro em meio a desconfianças dos que estão em volta, preenchem quase todo o tempo de tela. Tudo isso nos leva a pensar se talvez o mesmo clima de “algo está para ser revelado” que Roanoke resguardava, seja parte do que Cult esteja reservando para seu iminente futuro. Não sei, mas algo me diz que podemos nos surpreender com algumas daquelas pessoas que estão por trás das máscaras de palhaço.
Don’t Be Afraid Of The Dark
Esse paralelo entre o sexto e o sétimo ano pode parecer depor contra o planejamento do show, mas ainda que a recorrência possa ser um problema, Cult ganha naquilo que Murphy faz de melhor: provocar. Entre os gritos de Ally e os monólogos inflamados de Kai, existe uma discussão evidente sobre tudo que está em vigência no nosso mundo de assepsia afetiva e exibicionismo virtual. O segundo episódio manteve esse plano de consciência bem marcado e aproveitou para reforçar que os maniqueísmos declarados na forma como a mídia lida com o partidarismo político não fazem parte da proposta do show.
Kai começa a difamar estrangeiros para continuar seu plano de instauração do caos. É interessante notar que embora ele ganhe diretamente com a morte de Chang, não o vemos matando-o. Ele surge mais como um agente verbal, o que me leva a crer que talvez ele não esteja por trás de uma daquelas máscaras. Ele está atento, circulando pelos poucos núcleos em busca de quem esteja disposto a compartilhar de suas perspectivas, para que com isso a ideia de anarquia social termine de aniquilar com o senso de individualidade do ser-social.
É bastante interessante, porque a aniquilação desse senso de individualidade está presente também na chegada de Meadow e Harrison. Ele é apicultor, cria abelhas, que são criaturas programadas para a repetição, sem nenhum senso se complexidade. Quando, em dado momento Ally comenta sobre a massificação de discursos reproduzidos das redes sociais, as ideias todas entram em convergência. Vivemos numa era em que as redes sociais são usadas para que as pessoas defendam sua personalidade de modo apaixonado, com frases de efeito como “ninguém muda minha cabeça”, “eu tenho opiniões fortes”, enquanto cria ou compartilha textos pasteurizados que os fazem parecer mais inteligentes ou bem informados do que realmente são. Sem perceber, a maioria dessas pessoas aniquila a própria identidade ao responder a uma “abelha-rainha” mais poderosa que qualquer outra: a mídia.

Fica mais fácil entender quando pensamos no que Homeland fez na sua temporada passada. Para destruir a reputação da primeira mulher presidente os EUA, um dos homens do governo contratou uma empresa clandestina que tinha uma função bem específica: criar centenas de perfis falsos nas redes e começar uma rede de compartilhamentos que logo conseguiria o que queria: levar gente de verdade para a rua para pedir um impeachment sobre o qual pouquíssimos poderiam falar com verdadeira propriedade (qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência). Nós, as abelhas operárias que constroem colmeias de mentiras que só servirão aos propósitos dos que de fato, não lutam por nós.
No seu compromisso de fugir da parcialidade, Murphy se encarregou de colocar sobre Harrison a ideia coerente de que personagens gays não podem ser patriarcados como se sempre fossem maravilhosas pessoas. Ele já fazia isso em Glee, mostrando uma vilã com síndrome de down, um rapaz homossexual que odiava signos homossexuais, uma gordinha super segura, uma cadeirante completamente diva… A ideia é fugir dessa “compaixão” condescendente e Harrison é um homem estranho e de caráter questionável, embora seja gay. O acordo com Meadow é mais um acordo de ressentimento do que de conforto mútuo e isso fica bem claro no episódio seguinte. Ao fazerem Ally atirar no empregado latino, os roteiristas também estão em busca dessa imparcialização: Ally recorre a uma arma, mesmo depois de ter passado anos lutando contra elas. É como se Kai já estivesse conseguindo provar seus pontos de vista.
Neighbors From Hell
O jogo de impressões vai ficando mais forte na semana seguinte, quando o episódio abre com uma mulher sendo tratada pelo personagem de Cheyenne Jackson de uma fobia por caixões. Logo em seguida, ela e o marido são atacados pelos palhaços e assassinados seguindo a realização desse pavor. Nos perguntamos como eles ficaram sabendo disso e as desconfianças sobre as identidades dos mascarados aumentam. Ao mesmo tempo, Kai aparece ouvindo a confissão de Harrison sobre desejar secretamente que Meadow estivesse morta… E em seguida ela desaparece.
Nessa terceira semana, a história está bastante focada em nos guiar por suspeitas de quem está por trás dos eventos, mas ao passo em que as dinâmicas de suspense e horror seguem quase todas na mesma ordem previsível desse tipo de dramaturgia, o outro lado do show, esse que investiga as defesas e ataques sócio-políticos de cada um, continua interessante. Ver Ally sendo aliciada pouco a pouco por Kai é coerente com o que a série quer mostrar esse ano: que posicionamentos e opiniões dependem muito de como as pessoas estão ajustadas.
E os métodos de Kai são muito eficientes… O poder de sugestão, de convencimento, é notório e proclamado. No final da década de 6o, quando Charles Manson passou a ser investigado pelos crimes cometidos em seu nome pelos seus súditos, uma busca pelo histórico do psicopata mostrou que na prisão ele fez cursos e estudou técnicas de oratória. Depois, foi cuidadoso ao escolher suas seguidoras, mulheres com baixa autoestima e problemas familiares, facilmente convencidas de que ele era o messias que lhes fariam sentir-se importantes. A partir daí, matar por ele, acreditando estar fazendo o bem do mundo, não parecia mais tão hediondo. Em Cult, Kai diz aquilo que um desesperançado quer ouvir e ao bradar “conheça sua dor”, está oferecendo uma compreensão pela qual anseiam todos os que sofrem de uma angústia.

O episódio – não só esse como o anterior – respeita seu ritmo intenso e não te deixa dormir. Porém, a histeria de Ally ser coerente não muda o fato de que já começa a ser irritante. Depois de três semanas insistindo na tecla das realidades distorcidas e do terrorismo gradativo, a temporada precisa avançar na sua trama. Ainda precisamos compreender porque tanto investimento dos membros do culto em Ally (terá algo a ver com a paternidade de Oz?) e também quem são eles, o que, de fato, deve ser a grande surpresa revelada nos próximos episódios. É como se de certa forma estivéssemos cobrando evidências ocultas porque nos recusamos a ver a série por uma perspectiva tão minimalista.
American Horror Story: Cult está bastante preocupada com sustos e gritos, mas para encostar nesse monstro de complexidades que é a cultura do medo, ainda faltam alguns estágios de foco textual. Ou melhor, ainda falta – vejam só – menos medo.
Ryan’s Cult: Meadow e Harrison cheios de referências pop e ainda fazendo propaganda direta de Big Little Lies.
Ryan’s Cult 2: Adina Porter aparecendo como jornalista de notícias. Não pode ser só isso.
Ryan’s Cult 3: A cena dos vizinhos com os sombreiros foi muito boa.
Ryan’s Cult 4: Já pensou se Ivy for um dos palhaços?















