Em Descent, a segunda temporada de ACS chega ao âmago da questão: por que Andrew Cunanan matou Gianni Versace?

É como se a segunda temporada de American Crime Story estivesse começando agora. A abertura do episódio seis do show é a primeira sequência de uma história que ainda está por vir.  Andrew Cunanan é um jovem ambicioso, que deu a sorte de encontrar um “cliente” que está disposto a aceitar a peculiaridade da relação deles, dividindo uma vida luxuosa a troco apenas de uma coisa simples e direta: a companhia um do outro.

Poderia começar exatamente assim; e de fato, começa. A ótima ideia de contar a história do final para o começo ajuda muito a entendermos melhor as motivações de Andrew, a sua psique, que é o grande objetivo do show, visto que poucos conseguem entender que o foco da temporada não é explicar a morte de Versace, mas estudar porque Andrew escolheu exatamente ele. Para isso, é necessário sublinhar os detalhes do passado, o que com a história voltando a cada semana, se torna bem mais eficiente: estamos sempre desvendando a mente, mais do que as ações do criminoso. Desse modo, somos conduzidos a uma teorização mais segura do por que Versace foi escolhido como a vítima derradeira.

Descent é, portanto, um testamento definitivo da grande ruptura vivida por Andrew naquele ano de 1996, quando por arrogância ele foi destruindo todas as seguranças que estavam estabelecidas e foi, pouco a pouco, testando a força de suas relações, o quanto as pessoas ainda o amariam, ainda acreditariam nele, ainda apostariam em seus talentos, não importando o quão evasivo ele fosse. Ele fez de tudo para ser gostado, inventou personalidades de acordo com o que cada pessoa precisava dele, comprou atenção e dividiu riquezas. E achou que tudo isso fosse ser suficiente para que os outros entendessem como ele era especial.

O Homem Decente

É até constrangedor ver como Andrew chega a produzir Jeff para que David pense como ele tinha amigos legais. E também fica clara a mudança da percepção de Jeff sobre Andrew a cada detalhe. As mentiras vão se cruzando, tudo é muito frágil, mas o roteiro é seguro e sublinha momentos-chave como quando Andrew diz que “detesta rótulos”, que “a festa está cheia de pessoas que o amam… De uma forma distorcida e deslocada, ele entende o amor como algo que todos devem ter por ele incondicionalmente, e que vale tudo para que ele conquiste esse nível de idolatria.

Está na moda dizer que a interpretação de Darren Criss não é boa porque, enfim, ele fez Glee (a sempre subestimada), mas o rapaz tem conseguido perfeitamente imprimir as dezenas de nuances promovidas pela complexidade de Cunanan. Na cena em que Norman praticamente permite a vida de mentiras e exageros de Andrew em troca de companhia, tudo que ele diz sobre a vida de seu “decorador” é completamente certo e nesse momento Andrew é exatamente quem ele é: alguém desesperado para não ser “ordinário”, comum. Ele realmente acredita que Norman vai voltar a procura-lo, mas aquele é só o momento em que ele começa sua espiral de loucuras, perdendo progressivamente o controle das vidas que criou.

É bastante sutil a forma como os episódios imprimem isso, mas é perceptível. A figura de Andrew na história é o reflexo de como a sociedade via a homossexualidade naquela época. Para Cunanan, ser gay o aproximava do luxo, mas aquele também era o universo do sexo comprado, da sarjeta das drogas, do amor sempre inalcançável. Andrew amaldiçoava a própria homossexualidade na mesma proporção em que reconhecia sua inevitabilidade. Toda essa complexidade de interpretações, junto com as frustrações promovidas pelas decepções com Norman, David e Jeff, mais a profunda e dolorosa consciência de que por mais talentoso que fosse jamais seria quem planejou ser, tornaram-no uma bomba-relógio. Versace, em algum ponto, foi eleito como o reflexo direto de tudo que Andrew queria e não podia ser. O homem “decente” sonhado para tanto, amado pelo mundo. E aquele que ele mais precisava matar.

Não há nenhuma prova de que Andrew visitou a mãe antes de ir para Minneapolis começar a sua trilha de crimes, mas a mulher deu uma única entrevista anos depois dos crimes, onde ficava claro que ela não tinha nenhuma ideia de quem era o próprio filho e que vivia na mesma bolha delusional que ele. O episódio escolheu terminar fazendo Andrew correr até a única pessoa que o amasse de verdade, acima de tudo, como ele sempre esperou dos outros. Quando ele chega até lá, encontra uma mulher que ama uma mentira, a mesma que ele conta para todos que o cercam, incapaz de olhar para ele de verdade, mesmo quando ele diz “estou infeliz”.

Não é como se a série quisesse justificar Andrew, mas não procurar as justificativas em meio a tantas complexidades seria negligência. American Crime Story conta uma história sobre alguém que mata porque não é amado, enquanto não tem absolutamente nenhuma noção do que é o amor.

Notas de Um Crime

  • Andrew realmente trabalhou um tempo como balconista de uma sorveteria. Acredita-se que esse tenha sido seu único emprego regular.
  • A amizade com Jeff durou anos, mas embora seja verdade que Jeff criou uma verdadeira ojeriza de Andrew, a história do cartão-postal nunca foi comprovada.
  • A festa de aniversário para Andrew em La Jolla realmente aconteceu. O verdadeiro Norman disse ao FBI que não se lembrava da presença de David, mas que Jeff tinha ido a festa e que Andrew realmente o fez vestir outros sapatos e entregar-lhe outro presente. A presença de Lee Miglin foi uma completa licença poética.
  • Segundo Norman, Andrew nunca tentou reconciliação. Mas, a última vez que se falaram foi num telefonema amigável que Andrew fez para ele… de Minneapolis.
  • Andrew realmente bancou uma viagem para David por Los Angeles. Teria sido nessa viagem que eles foram a uma festa onde Andrew conheceu ninguém mais que Lisa Kudrow. O encontro foi confirmado por pessoas próximas a Lisa, que tentou fugir de Andrew a noite toda. A presença de David, contudo, não foi confirmada, o que pode significar que Andrew esteve em Los Angeles mais de uma vez.
  • Tudo que Andrew conta a David sobre o que os pais faziam por ele é verdade.
REVISÃO GERAL
Nota:
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