Que os mais conservadores não me ouçam, mas é a história de um triângulo amoroso entre um alce e um casal. Mas muita calma, é tudo metáfora. Isto é, pelo que eu entendi, porque o criador não explica tão bem quanto esperamos. Mudemos o foco, então: é sobre um trio criando a nova sensação de internet no velho sonho de “uma ideia na cabeça, uma câmera na mão e sua mãe senadora custeando tudo”. Não era isso que o Glauber Rocha falava? Algo bem próximo, talvez. Com tanto gatilho em um só parágrafo, deixe-me logo afirmar que é sobre os dois e mais um pouco.

“É tão ruim, é tão ruim, que é genial”.

— Social Media Influencer sobre Alce & Alice

Se você está acompanhando de perto os lançamentos recentes no cenário nacional, já deve ter esbarrado em alguma produção da Verte Filmes. No catálogo da produtora, temos Horizonte B, atualmente disponível na Netflix. Dividida em quatro episódios de pouco mais de vinte minutos, a série de ficção científica conta a história de dois irmãos que lidam com um processo complicado de luto e a aparição de uma misteriosa pedra, suposto material alienígena. O sobrenatural também acompanha Werner e os Mortos, sobre a qual falamos por aqui durante o #MêsDoHorror deste ano. Exibida pelo Canal Brasil, e atualmente disponível na GloboSat Play, a trama segue um médium que ajuda os recém-falecidos a seguirem em frente, mas cobra por isso.

Alce & Alice
Alce & Alice

Alce & Alice, que estreia daqui a pouco, desenvolvida em parceria com a Mourão Filmes, é a grande prova de que a produtora tem um promissor caminho pela frente. Como a melhor produção do catálogo deles em diversos aspectos, a comédia é quase um exercício de criatividade e um presente aos serie maníacos, ou mesmo aos amantes do audiovisual, aproveitando diversas inspirações para elaborar uma linguagem que faz saudações a projetos distantes, mas que sabe criar laços com nossa realidade. Não é apenas um jogo metalinguístico desenvolvido para satisfazer os fãs mais assíduos de algumas séries, mas a reafirmação de que algumas produções só precisam do investimento certo para render boas histórias.

O primeiro episódio vai montando a história aos poucos, fugindo da narrativa linear e já bagunçando a tradição de escolher uma linguagem para si. Isto é, transitamos o tempo todo entre as várias fórmulas e formatos por nós conhecidos em séries de TV. Sendo assim, vou contar o mínimo para que os interessados consigam desfrutar do clima de mistério que o piloto possui:

Uma equipe composta por três pessoas decide fazer uma série. A ideia surgiu de William, filho de uma senadora, que ganhou dinheiro da mãe para dar vida ao genial argumento que tivera: o triângulo amoroso envolvendo um alce. Para ajudá-lo, Alice, que acaba de sair da casa dos pais, assume diversas tarefas no que era para ser um estágio. Completa o trio Stive, o único ator do grupo. Conforme a série deles vai ganhando vida, coisas desastrosas vão acontecendo, o que pode comprometer seus sonhos e futuros.

Assim como em Horizonte, a primeira temporada de Alce & Alice tem quatro episódios de pouco mais de vinte minutos. A diferença entre a série e as outras produções do grupo é que aqui temos diversos aspectos trabalhados com mais harmonia, o que resulta não só em um projeto bem inspirado, mas em um produto final que faz jus à ambição dos criadores — Diego Barrios e Tiago Rezende. O ritmo, as personagens e a atuação, que não são os melhores pontos das outras séries, aqui se tornam o grande atrativo. Há um grande carisma no trio principal, responsável, muitas vezes, pelo sucesso de uma cena, mesmo que o roteiro dela não nos cative.

Alce & Alice
Alce & Alice

Thiago Prade, que interpreta William e o Alce, está tão à vontade que a impressão é de que o ator escreveu os próprios diálogos e tem uma grande contribuição no roteiro — aquele mesmo conforto da Issa em Insecure ou da Phoebe em Fleabag. A construção de sua personagem, tão alheia ao mundo em que vive, é tão bem realizada quanto a de Stive, interpretado por Gabriel Faccini. Este é responsável pela criação, roteiro e produção executiva de algumas séries da Verte Filmes, como as citadas Horizonte B e Werner e os Mortos, além de projetos futuros. Kaya Rodrigues, nossa Alice, talvez não tenha o amparo deles, uma vez que sua personagem não tem o carisma desajeitado de um ou a estranheza gerada pelo outro. Mesmo assim, a atriz se sai bem como a parte mais sensata dos três e contribui significantemente para a boa química exibida pelos episódios.

O humor de Alce é bem característico de produções independentes e séries que chegam pela internet. Não há, nesse sentido, a construção de nada que se estabeleça como próprio do universo dos criadores, fazendo-nos lembrar muito de esquetes mais elaboradas em canais do YouTube ou o humor da velha MTV. É um humor pautado pelo exagero, pela bobagem e por explorar a falta de sentido nas circunstâncias de suas personagens e no absurdo de suas decisões. A série talvez seja recebida com empolgação por pessoas que se associam a esse tipo de humor. A outras, ele pode parecer frio demais.

Alce & Alice
Alce & Alice

Não há piadas inteligentes e complexas, o que não é um defeito, porque o roteiro não está comprometido com isso. As maravilhosas referências a outras séries, desde a abertura que muda conforme o episódio às cenas presentes nele, não adicionam tanto à narrativa, soando gratuitas muitas vezes, mas não prejudicam a experiência ou comprometem o andamento da trama. São um bônus. Há referências a Game of Thrones, Breaking Bad, CSI, House of Cards (em um momento bem delicado de se falar em HOC), entre outras. É um presente a nós, que acompanhamos tantas séries, feito por quem, aparentemente, tem o mesmo hábito.

Devo dizer que por mais que tenha ótimas ideias, o roteiro da série não é (sempre) o principal atrativo. Além de trabalhar obviedades sem oferecer a mesma dinâmica absurda da série dentro da série, ele não consegue introduzir o conflito envolvendo o trio de forma que não pareça apressado. Fica a sensação de que William passa pela síndrome de Bentinho, pois uma frase é suficiente para encaminhá-lo por onde a série precisa que ele caminhe. Silvio Piola, o produtor de TV, não é bem utilizado, e seu maior mérito é as sequências parodiando House of Cards. O primeiro episódio tem uma energia que não é seguida pelos seguintes, e o quarto tem quase um desgaste, mas nada absurdamente drástico.

Alce & Alice
Alce & Alice

Original e absurda, Alce & Alice estreia no dia 05 deste mês no Net Now e no Vimeo on Demand. A recomendação não é só porque a boa produção elimina diversos defeitos que às vezes encontramos em produções menores, como o áudio e a fotografia, mas porque é o trabalho mais interessante co-produzido por uma produtora que eu já me comprometi a acompanhar de perto. Tem a liberdade que somente as produções da internet têm: a de se comprometer com seu público, não com formatos.

ps:

Após a estreia, o primeiro episódio será liberado no YouTube. Você pode acompanhar a página oficial da série no Facebook para ficar de olho.

REVISÃO GERAL
Nota:
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Welson Oliveira
Ator e escritor. Fascinado por horror, literatura brasileira e conteúdo televisivo.
alce-alice-melhor-serie-alceAlce & Alice é quase um exercício de criatividade e um presente aos serie maníacos, ou mesmo aos amantes do audiovisual, aproveitando diversas inspirações para elaborar uma linguagem que faz saudações a projetos distantes, mas que sabe criar laços com nossa realidade.